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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Em estado crítico: "Casa de Campo" de José Donoso

“Não foi este – que alguém me comesse – desde sempre o meu destino, já que sou uma delícia? Quem, então, melhor que vocês? Eu queria que prosseguíssemos esta aventura juntos, mas não consigo e esta será outra forma de o fazermos. E poderão salgar aquilo que sobrar da minha carne com a água salobra da nascente para que não se decomponha e levá-la convosco, para comerem pelo caminho: assim, estaremos juntos por mais algum tempo.” (in "Casa de Campo" de José Donoso, Cavalo de Ferro, p. 340)


A personagem central de "Casa de Campo" não aparece mencionada na lista de irmãos e primos que é apresentada no início. Não é um Ventura, nem um serviçal, mas também não é um antropófago selvagem, um nativo. Donoso concede as chaves da imensa casa senhorial que serve de palco à acção a um narrador omnisciente que, em vez de se esconder do leitor, se evidencia a cada página, interpelando-o, alertando-o recorrentemente para o carácter ficcional da história. Esse distanciamento face à história justifica-o com um propósito pedagógico: as acções dos Ventura devem ilustrar as consequências de certos actos, funcionando como símbolos, porque a crueldade de algumas experiências supera o que poderíamos suportar de uma história dita real.

Mas o quão fantasiosa é a história exemplar que Donoso, através do narrador, nos vai contando? Sim, os Ventura podem não ter sido pessoas reais. Marulanda, a luxuosa e misteriosa propriedade, poderá também não ter existido. Mas a essência da história que nos é contada não é mais do que uma grande analogia da forma como o poder é exercido em sociedade. Tudo começa com os divinos pais, os detentores históricos do poder, que criaram as suas próprias regras e vivem uma vida baseada em convenções, num sistema aperfeiçoado por séculos e séculos, no qual não há espaço para preocupações concretas.

Mas um poder tão definitivo, um sistema tão fechado, defronta-se sempre com um problema: os excluídos. Enquanto os excluídos foram apenas os nativos, que focados na sua subsistência secundarizavam o direito à autodeterminação, o equilíbrio manteve-se. Mas quando os filhos dos Ventura, perspicazes e cultos, começaram a pensar pela sua cabeça, o perigo começou a espreitar. O mal-estar era óbvio, embora os Ventura não o percebessem, mas faltava algo para que a situação pudesse mudar: um líder. Acontece que, para além das crianças e dos nativos, havia outro excluído: Adriano Gomara, o marido de Balbina, a irmã mais nova dos Ventura. Adriano, procurando ultrapassar as barreiras que existiam entre a família e os nativos, viu-se, numa espectacular sequência de eventos, fechado num quarto, catalogado como louco. Mas livre, entre os primos, ficou o seu filho, Wenceslao, um astuto rapaz que a mãe vestia de menina, e que será a força que irá desencadear a mudança. E chega a Revolução.

Afastados da casa por um elaborado plano, os Ventura abrem o flanco para que se apropriem do seu poder. E, num período de tempo que os Ventura, talvez inspirados pelas suas raízes históricas, consideram ter sido apenas um dia, e que as crianças revolucionárias, deixadas para trás pelos pais, acreditam tratar-se de um ano, tornam-se óbvios os perigos da tomada do poder por mãos idealistas e inexperientes. Adriano, visto como um Messias e demasiado concentrado na apropriação do poder, não definiu um plano para a fase posterior. Viu-se assim a mãos com muitos ideais, mas poucas soluções para os cumprir e assegurar a subsistência de todos. Porque numa terra em que só há direitos, depressa apenas o nada haverá para partilhar. Não era também este o mundo que Wenceslao queria e, confrontado com a incapacidade de liderança do seu pai, afasta-se e espera que um sistema que não tem como se manter de pé caia.

Não tendo os Ventura meios para combater a Revolução, têm de se servir dos seus criados, que tentam restabelecer em Marulanda um sistema reminiscente do original, mas que não poderá nunca ser o mesmo, perdida que está a inocência de todos. Mas no fim, no fim são factores exógenos que determinarão o destino. Um deles, um produto rejeitado por todos os sistemas: Malvina. Filha ilegítima de Eulália, mulher de Anselmo Ventura, Malvina foi desdenhada pela família, que lhe cerceou os direitos, embora não a renegasse explicitamente. Malvina carregava assim uma marca, que a afastava também dos seus primos, face a quem a faziam sentir inferior. É na vida de desdém e de silêncio que Malvina planeia a sua ascensão, para que um dia os Ventura não sejam mais do que meras sombras no seu caminho.

“Casa de Campo” é, sem dúvida, o romance mais original que já li. A escrita de José Donoso tem uma teatralidade incomparável, que nos enreda nas suas expressões pomposas, nas opções destemidas, nos ensinamentos implícitos, nas personagens tão frágeis, tão unidimensionais, que noutro livro poderiam ser um defeito mas que neste, fruto de uma intenção declarada, se tornam em obras de arte por direito próprio. Consciente dos méritos da sua escrita e da sólida base que construíra, capaz de assegurar a coerência de qualquer elemento que pretendesse inserir na história, Donoso dá-se mesmo ao luxo de a meio do livro se sentar no café com uma das personagens, falando sobre o livro e as suas personagens, num mundo paralelo, numa espécie de supra-realidade.

E talvez também por isso Donoso não se tenha esforçado por nos dar o final que esperávamos, mas apenas uns esboços de cenas épicas que conservam em si muito pouco de conclusivo. O que até faz sentido, tendo em conta o carácter infindável da luta pelo poder. Haverá sempre Venturas. Haverá sempre Revoluções. E o poder terminará sempre nas mãos de quem menos se espera.

Classificação: 18/20



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Em estado crítico: "Peter Pan and Wendy" de J. M. Barrie


“Adventures, of course, as we shall see, were of daily occurrence; but about this time Peter invented, with Wendy’s help, a new game that fascinated him enormously, until he suddenly had no more interest in it, which, as you have been told, was what always happened with his games. It consisted in pretending not to have adventures, in doing the sort of thing John and Michael had been doing all their lives: sitting on stools, flinging balls in the air, pushing each other, going out for walks and coming back without having killed so much as a grizzly. To see Peter doing nothing on a stool was a great sight; he could not help looking solemn at such times, to sit still seemed to him such a comic thing to do.”


Piratas manetas, crocodilos esfomeados, fadas ciumentas e irascíveis e crianças perdidas que vivem longe de adultos não são o que primeiro nos vem à cabeça quando pensamos em histórias infantis. Talvez por ser tão fora da norma, “Peter Pan and Wendy” de J. M. Barrie tornou-se num dos clássicos mais incontornáveis da literatura, relatando uma aventura passada numa terra a que se chega voando, virando na segunda estrela à direita e continuando em frente até de manhã.

Os heróis querem-se corajosos, humildes e bondosos. Será inegável que Peter Pan tem um bom coração e coragem de sobra, mas não há nele sinal de humildade. Incorporando a ideia de infância, Peter é irrequieto, arrogante e egoísta, características que, sendo os seus principais defeitos, são também o que lhe confere o seu atractivo e seduz todas as crianças com quem se cruza. Peter tem a liberdade que as crianças desejam ter para fazer tudo o que quer, e empenha-se muito em afirmar a sua não necessidade de ter uma mãe. Mas a verdade é que continua a voar recorrentemente para longe da Terra do Nunca, em busca de uma mãe que perdeu no passado. É numa dessas viagens que encontra Wendy e os seus irmãos que decidem acompanhá-lo nas suas aventuras.

A história de Peter Pan é, acima de tudo, uma história de perda. Wendy, a única mulher do grupo, representa para os meninos perdidos um símbolo de união e família e todos a tratam como sua mãe, papel que Wendy abraça sem hesitação. E com o passar do tempo, à medida que o esquecimento vai tomando conta de todos, já quase sem qualquer recordação da vida anterior à Terra do Nunca, é nas histórias de Wendy sobre a sua família, de que ela própria se começa a esquecer, que todos vão reencontrando o desejo de terem pais. Por muito mágica que a Terra do Nunca seja, com a sua capacidade de perpetuar a infância, a verdade é que as crianças facilmente trocariam as suas liberdades e aventuras pela vida normal que tinham .

Falar de Peter Pan é sinónimo de falar da Sininho e do Capitão Gancho, duas das personagens mais carismáticas da literatura infantil. Sininho é uma fada quase microscópica, que é tudo aquilo que esperávamos que uma fada não fosse. Muito focada em si própria e no seu amor não correspondido por Peter Pan, Sininho é quase uma mosca irritante e cruel que zune em torno deles. E para líder dos piratas, o Capitão Gancho apresenta também características inusitadas: bem-falante, elegante e asseado. Não fosse o gancho a substituir o braço comido pelo crocodilo e não haveria nesta figura qualquer sinal de perigo. Até o principal ajudante do Capitão Gancho é descrito como uma figura que todos consideram carinhosa.

O inesperado assume-se assim como uma das principais armas de J. M. Barrie que, pelas características das personagens, mas também pela forma como escreve, confundindo o realismo e o fantasioso com toda a naturalidade, torna surpreendente a leitura da história de Peter e Wendy. E no final há a melancolia, a última das perdas: a da infância. Wendy crescerá. Peter, sujeito às regras da Terra do Nunca, permanecerá para sempre criança. E os seus caminhos, que pareciam ligados pelos mais fortes dos laços, acabarão por se separar. Peter tornar-se-á em pouco mais que uma recordação distante. Quem sabe se até isso deixará de ser um dia? Aconteça o que acontecer, o tempo irá passar, e com ele se destruirá o fabuloso mundo da infância. E Peter Pan ficará apenas como uma lenda. Sozinho. Algures na Terra do Nunca ou na janela de novas crianças que anseiem por sonhar.


Esta edição da The Folio Society complementa a inesquecível história escrita por J. M. Barrie com ilustrações de uma simplicidade e beleza emocionante. Um livro para guardar e passar de geração em geração, como se deve fazer aos tesouros.

Classificação: 18/20

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Em estado crítico: "Fiapos de Tempo" de Ana Maria Vilhena

Ler um livro escrito por alguém que nos é querido é sempre uma experiência estranha e envolta em expectativas que esperamos que não sejam defraudadas. Mas há sempre aquele momento em que pensamos “e se o livro for mau?”, e damos a volta à cabeça, procurando comentários evasivos que não violem a nossa consciência, mas também não revelem a nossa verdadeira opinião. Felizmente não foi este o caso. Desde o primeiro momento, conhecendo o verdadeiro toque da Midas da autora deste livro, incapaz que é de produzir algo que não seja de qualidade, acreditei em absoluto nos méritos desta obra e digo-o sem reservas: não me decepcionei.

Isto para vos dizer também, respeitando a máxima que me ensinaram na faculdade e que defende que a objectividade é a explicitação das subjectividades, que não podem esperar de mim uma análise distanciada deste livro, porque me unem à sua autora os mais profundos laços de carinho e gratidão pelo muito que me ensinou sobre a escrita e a leitura. Mas que isto não retire valor às minhas considerações, porque exprimem honestamente a minha opinião.




Dizia George Steiner que o apoquentava particularmente, tomando por exemplo o período nazi, que seres humanos que cometiam actos monstruosos fossem simultaneamente profundos apreciadores de arte, com a sensibilidade que isso requer. Ana Maria Vilhena inverte um pouco esta questão e leva-nos a pensar em como é que pessoas que defendem bons princípios podem não os aplicar ao seu quotidiano. Esta questão surge na cabeça do leitor recorrentemente em “Fiapos de Tempo” perante as contradições de Jacinto Maria, um antepassado da autora e a personagem principal do livro.

Jacinto Maria é um republicano em tempos de monárquicos, que sonha com o fim dos desmandos dos Reis e dos Governos por eles apoiados. Mas a República revelar-se-á uma fonte contínua de desilusões e, aquilo que parecia ser uma panaceia, converte-se rapidamente em novos problemas. Na verdade, as diferenças em termos de liberdades entre a Monarquia e a República são bem pequenas e, por vezes, em vez de progressos assiste-se mesmo a retrocessos. Basta dizer que nas primeiras eleições da República o voto era mais restrito do que nos tempos dos reis.

Mas se as opiniões de Jacinto Maria quanto ao exercício do poder político e ao respeito pelos direitos dos trabalhadores revelam uma profunda consciência do outro, em comportamentos muitas vezes de puro altruísmo, a atitude do mesmo Jacinto Maria com a sua mulher e filhas poderá ser caracterizada de várias formas, nenhuma das quais veiculando algo que remeta remotamente para alguma forma de respeito. Francisca Luísa, a famigerada esposa, é tratada quase sempre de forma aviltante, como se fosse um ser desprovido de inteligência. Germínia, a filha mais nova, não tem melhor sorte, embora a sua irmã mais velha, Balbina, tenha direito a um tratamento mais digno. Jacinto, um homem minimamente letrado, o que era raro na altura, chega mesmo a querer privar as filhas dessa mais-valia, apenas por serem mulheres. Um dos pontos altos do livro, a cena em que Jacinto descobre que Germínia comprou uma máquina de costura, tem tanto de caricata como de revoltante: as mulheres não só não deviam ter direito à educação, como também lhes deveria ser vedado o acesso a tudo o que pudesse facilitar as suas tarefas domésticas.

A mestria de Ana Maria Vilhena está em não tomar partidos na sua narração, em adoptar uma postura quase de mera espectadora e é nessa perspectiva que a questão feminina, por exemplo, nos é apresentada. Seria muito fácil fazer de Jacinto Maria uma figura odiosa, recusando-se a percebê-lo e a explicá-lo, e apresentar as mulheres como vítimas. Mas se algo fica patente no livro é que, independentemente dos seus condicionantes, são as próprias mulheres que determinam no essencial o seu caminho. Não é à toa que Maria de Assunção, a mãe de Jacinto, tem a posição de chefe de família de facto, senhora de uma atitude firme e decidida, em nada aquém da de qualquer homem. Já Francisca Luísa é uma fraca figura, totalmente à mercê das vontades do marido, atitude que não conseguiu transmitir à sua filha Germínia que, seguindo as pisadas da avó, não se inibe de tomar iniciativas. Uma visão corajosa, a de que as mulheres são muitas vezes o agente do seu próprio destino, com a qual estou totalmente de acordo.

Outro dos principais méritos de Ana Maria Vilhena é o de, narrando uma história que abarca um longo período histórico (desde o primeiro quartel do séc. XIX até quase à década de 40 do séc. XX), conseguir incutir no texto uma vertente informativa sobre cada período, nomeadamente em termos políticos e de estilo de vida, de uma forma natural, sem cortar a história nem tornar a leitura maçuda. Depois de uma experiência negativa com o uso de jornais num romance (Saramago em “O Ano da Morte de Ricardo Reis” – sou um fervoroso adepto de Saramago, mas não deste livro), confesso que fiquei de pé atrás quando percebi que a leitura dos jornais seria recorrente no livro, temendo deparar-me com páginas e páginas de incursões declamatórias por títulos de jornais, mas o resultado final superou por completo as minhas expectativas, sendo as referências acompanhadas de comentários de Jacinto Maria ou introduzidas em conversas, de maneira a tornarem-se unas com a narrativa.

Através de “Fiapos de Tempo”, a meio termo entre a biografia e o romance, revisitamos as memórias dos nossos avós e dos seus antepassados, reconhecendo-os nas personagens e comportamentos tão tipicamente alentejanos que nos surgem em cada página. De uma escrita natural, que na sua aparente simplicidade esconde a mestria de quem fez da língua portuguesa a sua vida, a leitura de “Fiapos de Tempo” faz-se com o mesmo prazer com que lemos os clássicos da nossa literatura. Espero que seja o primeiro de muitos livros!


Sendo a edição deste livro assegurada pela Vírgula, se o quiserem comprar podem fazê-lo no site do Sítio do Livro ou na livraria Leya na Barata, em Lisboa.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Em estado crítico: "Fugas" de Alice Munro


A vida tem uma forma incontrolável de nos afastar do nosso potencial. Uma força violenta e indestrutível que nos arrasta para caminhos que não são aqueles que queremos percorrer, sem que nada possamos fazer para o evitar. Alice Munro percebe isso melhor que ninguém, a crueldade de vermos desde cedo os nossos planos comprometidos, porque por muito que corramos, nada mais encontraremos do que aquilo que nos está reservado. E essa é uma moral que percorre os oito contos que compõem “Fugas”, editado em Portugal pela Relógio D'Água.

Munro ilustra o despedaçar das expectativas pela justaposição de extremos: em muitos contos, a um início promissor, na juventude, em que se revelam possibilidades, segue-se de imediato a velhice, e a percepção de que as possibilidades são geralmente pontos de interrogação para os quais não há resposta prevista. É o que acontece em “Truques”, por exemplo, em que a jovem Robin crê que a solução para uma vida que se adivinha ser dedicada a cuidar da irmã doente está num homem que conhece numa ida ao teatro. Por muito que a vontade de Robin de mudar o curso do seu destino seja grande, não o é o suficiente para ultrapassar o choque de um encontro inesperado. E passados anos Robin encontrar-se-á onde não queria estar, duramente consciente da vida que ficou por viver.

Também em “Forças Ocultas” há essa passagem abrupta do tempo. Numa página temos a impetuosa Nancy, cheia de planos e de desejo de partilhar a vida com o homem que ama. Na página seguinte a Nancy que se nos apresenta é uma derrotada, conformada com uma proximidade com o marido que nunca será alcançada e confrontada com o efeito ainda mais nocivo do tempo sobre aqueles com quem partilhou um período tão excitante da sua vida.

Mas nenhum exemplo será melhor do que o da trilogia “Acaso”/”Em Breve”/”Silêncio”. Começamos a ler “Acaso” sem a noção de que voltaremos a encontrar Juliet nos contos seguintes e, por isso, habituamo-nos à ideia de perdê-la dali a poucas páginas, enquanto acompanhamos as suas viagens rumo ao desconhecido, numa procura ansiosa pela mudança. Quando “Em Breve” começa, reencontramos Juliet passados poucos anos e percebemos que tudo se conjugou para que aquilo que desejava se concretizasse. Mas em “Silêncio”, 20 anos depois, o caminho bem sucedido revela as suas agruras e Juliet é atacada por onde menos espera. Aquilo que aconteceu nesses 20 anos é-nos eventualmente contado, mas o choque entre “o que deveria ser” e “o que é” é vincado pelo impacto inicial. 

Esta trilogia é de resto um dos exemplos mais notáveis dos talentos de Munro. A forma como discretamente as três histórias se interligam, como um simples acontecimento num dos contos nos dá uma chave para algo que acontecerá no futuro, fez-me lembrar a Trilogia das Cores do cineasta Krzysztof Kieslowski. Não é por acaso que Christa é mencionada em “Acaso”, tal como a discussão com o pastor Don em “Em Breve” também não é inocente. Mas talvez o facto mais interessante destes três contos seja aquilo a que não assistimos em “Em Breve”, por estarmos focados em Juliet e não podermos olhar para o que passa noutras paragens, e que só ficaremos a saber em "Silêncio". Uma teia primorosamente tecida.

Todos os contos de “Fugas” são excelentes. Talvez o menos bem conseguido seja “Forças Ocultas”, pela mistura de formatos no início (diário, depois narração, depois carta, depois narração) e porque há algo na história que simplesmente não funciona muito bem. Mas perante a qualidade do que lemos até ali, é com prazer que acompanhamos estas 50 páginas finais, mesmo que não sejam tão boas quanto o resto.

Por muito que tenha gostado dos contos de Juliet, a história que mais me marcou foi a de “Fugida”, pela riqueza de imagens que Munro usa e a forma decidida como constrói uma relação perversa entre Clara, Clark e Sylvia, envolvendo o leitor deste o início num ambiente de ansiedade, com um sentido de perigo iminente. A forma como a cabrinha Flora é utilizada na história e a incerteza dos últimos parágrafos do conto são um exemplo do que uma escritora genial consegue fazer com tão pouco.

“Fugas” é um livro surpreendentemente bom, uma ode às potencialidades do conto, tantas vezes visto com um género menor. Mas mais que isso, “Fugas” é o testemunho do talento de uma escritora que permanecerá por muitas gerações como uma referência. E quem pensa que as histórias de Munro são delicodoces e inocentes está redondamente enganado. Munro habita o mais complexo e perigoso dos mundos, o da vontade humana, uma vontade que muitas vezes é apenas isso, uma vontade.


Classificação: 18/20

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Em estado crítico: "A Sibila" de Agustina Bessa-Luís

“Quina abriu os olhos, e disse em voz audível algumas palavras que não eram delírio, nem oração, porque o tempo de oração estava no fim, e toda a sua alma se projectava num abismo inefável, se dispersava para entrar na composição magnífica do cosmos.”


Da rudeza nobre da terra brotam os génios difíceis de gente forte. Quina e Estina, duas faces duma mesma alma, ambas duras, uma clarividente, a outra propícia a sofrimentos calados. Cedo conheceram as vias árduas do destino, sempre marcadas pela efemeridade, pela necessidade de não se apegarem àquilo que não podem conservar junto a si. Perderam um irmão, testemunharam as dores de sua mãe, traída por um homem galanteador, o pai das duas, que também cedo partiria. A própria Quina tem a sua vida em risco na juventude. Mas é Estina quem sofre as mais duras perdas, talvez por ser a mais fraca, a que mais deseja acreditar na possibilidade do amor. Primeiro é abandonada pelo homem que ama. Depois vê morrer, um após outro, todos os seus filhos. E é no seu estóico sofrimento que Estina vence Quina. Estina conhece o amor, Quina nunca o conseguirá.

Quina, a sibila, uma mulher simples com capacidades divinatórias, quase totalmente em controlo da sua própria vida, enreda-nos na sua personalidade arisca, na sua atitude prática. Quina não é digna de pena, porque apenas sentimentos elevados lhe podem ser dirigidos, mas adivinhamos nas suas atitudes um desejo de ultrapassar as suas barreiras e vencer a indiferença que desde cedo tomou conta de si. Num misto de curiosidade e desafio, Quina assume a responsabilidade pelo destino de Custódio, um ser caprichoso, movido por uma indomável emoção, de uma crueldade criminosa. Não é amor que Quina procura naquela criança que acolhe na sua casa, é uma aparência de amor, uma sensação de dependência, de gratidão que funcione como paga pelos seus cuidados para com ele e que dê à sua vida uma espécie de propósito respeitável.

A grande ironia de “A Sibila” é que Quina, que defende Custódio, mesmo quando isso implica desafiar todos, acabará por ser o seu carrasco. Os familiares de Quina acusam Custódio de estar apenas interessado na sua herança e chegará o dia em que ele lhe pedirá para que ela lhe deixe tudo. Mas apenas a sensibilidade humana, a compreensão da complexidade de Custódio, permite perceber que o que o move não é o interesse, mas uma necessidade de total correspondência dos seus sentimentos. Custódio quer uma prova do comprometimento de Quina para com ele, uma prova do seu amor de mãe que o não pariu, e sofre com as suas atitudes esquivas e uma sugestão indelével de que Quina, guiada pelo seu espírito racional, se deixará persuadir pelo sangue quando tiver de tomar uma decisão.

No final veremos em Custódio o carácter absoluto do amor, o quão profundo é o desamparo de alguém que se vê privado da única pessoa que lhe deu a mão. Custódio, o quase monstruoso Custódio, revelar-se-á o mais humano, o único que sofrerá uma verdadeira perda, uma perda que o tornará incompleto, incapaz de encontrar um rumo, e que o levará a realizar o último grande sacrifício.

Catalogado como um livro difícil, odiado por muitos, elevado ao estatuto de obra-prima por outros, “A Sibila” é muito mais do que uma saga familiar. Incapazes de compreender a complexidade de certos sentimentos, Quina e a sua estirpe irão prosperar no seu mundo racional, sobre as ruínas daqueles que se deixaram consumir por sentimentos inúteis. Nascer, viver e morrer, esse é o destino de Quina. Esse é o destino da sibila.


Classificação: 18/20

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Em estado crítico: "O Moinho à Beira do Floss" de George Eliot




Nascer. Casar. Parir. Morrer. A vida das mulheres esgotava-se nestes quatro verbos, recaindo sobre si a obrigação de serem piedosas e serenas e destituídas de qualquer vestígio de vontade própria. Mas o século XIX trouxe consigo a mudança e, na Inglaterra vitoriana, um prodigioso grupo de escritoras redefiniu através da literatura o papel da mulher. Falo obviamente de Jane Austen, Charlotte e Emily Brontë. Mas falo sobretudo de George Eliot, ou melhor, de Marian Evans, autora que se serviu de um nome masculino para levar as suas palavras mais além e penetrar nos invioláveis espíritos masculinos.

Em “O Moinho à Beira do Floss” Eliot recria um bucólico mundo campestre, habitado por personagens imperfeitas que tentam viver num mundo cheio de expectativas. Entre estas personagens, constrangidas pelo socialmente aceite, surge a figura da impulsiva e arrebatada Maggie Tulliver, que aos olhos da nossa época é uma simples rapariga romântica, mas que, no pacato mundo banhado pelo rio Floss, é uma rebelde que ousa juntar aos quatro verbos que lhe foram destinados um quinto: amar.

O direito de uma mulher a amar é uma vitória do feminismo. Até então as mulheres limitavam-se a aceitar o que lhes era destinado, esperando-se que o fizessem de bom grado, subjugadas a um dever de devoção ao marido. Sem perceber porque tinha de se sujeitar a vontades que não a sua, Maggie desde nova se mostrou incapaz de controlar as suas emoções e essa é uma das marcas feministas do livro. Maggie ama avassaladoramente o irmão, depois efabula um romance com um rapaz que como defeito tinha, para além da corcunda, o facto de ser filho do maior inimigo de seu pai. E por fim, vive uma platónica e destrutiva paixão com o namorado da prima, a doce e cândida Lucy.

Mas a questão feminista não se esgota no amor. Maggie sai favorecida de todas as comparações com os homens que ama: é mais hábil socialmente que Philip, mais sensata que Stephen e mais inteligente que Tom, o seu irmão. A figura de Tom empalidece particularmente sempre que contraposta à da irmã: rígido e focado na perspectiva dos outros, Tom está mais próximo da família da mãe (os Dodsons), do que da do pai (os Tullivers). Maggie, pelo contrário, encontra no carácter explosivo do pai a compreensão e na coragem da tia Moss, a irmã do pai que por amor casou com um homem pobre, uma inspiração. Maggie, como mulher e como mais nova, deveria respeitar o irmão, mas ela ama-o e, movida por esse sentimento e por aquilo que espera dele, coloca-o várias vezes em causa. Quando as irmãs da mãe os visitam e se unem em críticas à conduta do seu pai, é Maggie que defende a honra da família. E será Maggie que no final regressará para junto de Tom e lhe demonstrará, com a força abnegadora do seu amor, o quão mais digna é do que ele.

Algo extraordinário em “O Moinho à Beira do Floss” é a forma como George Eliot questiona as nossas expectativas. A coerência com que algumas personagens femininas são criadas faz com que o leitor sinta conhecê-las, o que acentua a surpresa com as suas atitudes no final do livro. Eliot ensina-nos que em vez de nos conformarmos em esperar o pior dos outros, lhes devemos dar o benefício da dúvida.

Tom e Maggie crescem junto ao Floss e é junto a esse rio que se reencontram quando se julgam perdidos um para o outro. A força do amor de Maggie ultrapassa todos os obstáculos para ter Tom junto a si. Mas a natureza tem uma forma de repor tudo no seu devido lugar, por muito abruptos e inesperados que os seus desígnios se nos afigurem. No final apenas uma certeza: independentemente de tudo, o Floss continuará sempre a correr para o mar.

Classificação: 18/20

(Livro editado em Portugal pela Relógio D'Água)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Em estado crítico: "Memorial do Convento" de José Saramago




Baltasar e Blimunda. Há encontros que estão destinados a acontecer. O mundo move-se e sob cada sol os caminhos são percorridos, minuto após minuto, talvez de acordo com uma vontade superior. Pouco importa se o é ou não, o que importa é que Baltasar e Blimunda se encontraram num auto de fé. Numa cerimónia que festeja o fim e a condenação, celebrou-se naquele dia o início e a aceitação e, sem o saber Baltasar mas sabendo-o Blimunda, naquela mesma noite, quando comerem sopa pela mesma colher, os seus destinos estarão unidos para sempre.

“Memorial do Convento” de José Saramago conta-nos a história do sereno amor do maneta Baltasar e da mística Blimunda, nos atribulados tempos da construção do Convento de Mafra. Mas antes do convento há outra construção que se inicia: a da passarola, projecto antigo do padre Bartolomeu Lourenço, que hereticamente prometeu a quem tudo tem, D. João V, o acesso em vida ao reino dos céus. O lento processo de criação da passarola e as artes nela empregadas são de suma importância para o livro, mais até do que a construção do Convento, que se contenta em ser um pano de fundo quase sempre distante, o que é paradoxal dado o nome do livro. Diga-se com clareza: haveria memorial com ou sem convento, sem passarola não.

E é esse o problema de “Memorial do Convento”, que o afasta do paradigma de excelência que é o “Ensaio Sobre a Cegueira”: a falta de foco. Pegamos no livro a pensar que vamos ler um livro centrado na construção do Convento de Mafra. Depois percebemos que se calhar não, se calhar o livro se centra sobretudo na desmedida vontade de um rei que é um Sol à portuguesa (uma Lua portanto). E entram no livro Baltasar e Blimunda, com a sua comovente dimensão supra-humana, e queremos perder-nos na sua história, mas por vezes somos afastados, sem perceber porquê, e tornamos-nos, algo a contragosto, testemunhas dos debates teológicos internos do padre Bartolomeu (que de tão herméticos nos deixam à nora), do périplo de João Elvas aquando da entrega da Infanta Maria Bárbara ao noivo espanhol, do transporte de uma monumental pedra, que durou 8 dias e mais de 30 páginas. Ganharia o livro em nos aproximar mais daquelas que são 2 das melhores criações de Saramago, Baltasar e Blimunda, sem tantas deambulações e história acessórias.

Dito isto, não haverá palavras suficientes para descrever o brilhantismo do narrador. O narrador em Saramago é tudo, uma espécie de oráculo milenar, que tudo sabe, tudo conhece, que não se limita a narrar: comenta, analisa, revela. E esse é um dos encantos de ler Saramago, a ideia de que ele está ao nosso lado a contar-nos a história, como um sábio nos tempos do antigamente, em torno de uma lareira, ao anoitecer.

“Memorial do Convento” não é um livro fácil, nem será uma boa escolha para quem procura um livro para se distrair ou para quem nunca tenha lido Saramago, mas qualquer aficionado da literatura, particularmente da portuguesa, tem de conhecer a história de Baltasar e Blimunda. Um amor que prospera no silêncio, um silêncio de palavras obliterado por uma partilha incondicional. Baltasar e Blimunda pertencem-se e pertencem-nos.

Classificação: 16/20

(Livro editado em Portugal pela Caminho)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Em estado crítico: "GKJMA" de João Silveira




Devastação. Espaços inóspitos em que a vida já não existe. Apenas resquícios, abandonados no tempo, destruídos e imóveis. Assim é a atmosfera criada por João Silveira em “GKJMA”. 

Sempre no Japão, entre Gunkanjima, a abandonada ilha com a forma de um navio de guerra, outrora habitada sobretudo por famílias de mineiros, e Aokigahara, a famosa floresta dos suicídios, um personagem sem nome remói recordações incómodas de um tempo que se perdeu. 

Numa escrita em prosa, mas incapaz de não ser poética, entre episódios que afloram à memória e que se confrontam com um hino heroicamente nacionalista (tão longe da realidade, mas não o são todos?), o espaço é constantemente descrito e, através das descrições, as emoções do narrador vão-nos sendo passadas. Dele saberemos pouco, porque também não há muito para saber. É esse o preço da repressão da individualidade. Esse e o desamparo que se sente quando se vê privado daquilo que sempre se tivera como certo. E então, “quando nada mais existe – porque nada mais existe -, caminhar para onde nada existe.”

Gosto sobretudo do último texto. Depois da contenção, uma enxurrada de emoções, o pedido de perdão de quem, em frases entrecortadas, tem como último destino a floresta dos suicídios. Tanta coisa dita em tão poucas palavras.

Se “GKJMA” tem um defeito é o saber-nos a pouco. Queremos mais, visitar outras memórias, conhecer novos lugares, perder-nos na fluidez de uma escrita económica, que procura constantemente a perfeição.

Um livro editado pela Artefacto, em que a qualidade da escrita é igualada pelas misteriosas ilustrações de Rita Faia.

Classificação: 15/20

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Em estado crítico: "A Fogueira das Vaidades" de Tom Wolfe




Um mundo de plumas, lantejoulas e enchumaços. Permanentes cristalizadas em laca nelas, bigodes farfalhudos neles. Reagan e Tatcher a comandarem o mundo ocidental. Madonna a tentar procriar com o palco nos prémios da MTV. E Tom Wolfe a imortalizar num livro esse mundo, essa época, os anos 80.

Nas numerosas páginas de “A Fogueira das Vaidades”, Tom Wolfe expõe as consequências que o atropelamento de um jovem negro tem na vida de Sherman McCoy, um yuppie de Wall Street. O ponto de partida do livro é muito interessante: McCoy vai buscar a sua amante ao aeroporto e, por engano, entra no Bronx. Quando se apercebem onde estão, entram em pânico e tentam desesperadamente voltar para aquilo que para eles é o mundo civilizado, Manhattan. Numa atribulada sequência, acabam numa via rápida com um pneu no meio da estrada. McCoy pára o carro e sai para desimpedir o caminho, quando de repente se aproximam dois jovens negros que oferecem ajuda. McCoy não duvida que se tratam de assaltantes e ataca para não ser atacado. No meio da confusão, Maria (a amante) e McCoy atropelam um dos jovens negros e fogem.

Perante este episódio seria de esperar que “A Fogueira das Vaidades” questionasse os estereótipos sociais e levasse o leitor a reflectir. Quais seriam as intenções dos dois jovens? Seriam de facto assaltantes? O que deveria McCoy ter feito? Após o atropelamento, deveriam ter prestado ajuda? Deveriam ter contactado a polícia? Mas Tom Wolfe não parece ser um homem de reflexões. De facto, num livro tão grande e em que a moral desempenha um papel tão importante, espanta o quão pouco são exploradas as questões internas das personagens. E, quando o são, o mote é sempre o mesmo: a imagem que se projecta e aquilo se possui. È verdade que o livro se chama “A Fogueira das Vaidades” e não “A Fogueira do Existencialismo”, não obstante, seria interessante que a vida interior das personagens não se limitasse a questões supérfluas, evitando que os quatro homens em destaque no livro (McCoy, o procurador-adjunto Kramer, o reverendo Bacon e o jornalista Peter Fallow) fossem tão semelhantes entre si.

Falando de construção de personagens, há uma certa misoginia na escrita de Tom Wolfe. As poucas personagens femininas do romance são também muito semelhantes entre si: tendencialmente fúteis e desinteressantes. Excepção feita para Maria Ruskin, uma femme fatale por excelência, que com a sua inebriante sexualidade leva McCoy a tomar más decisões. Wolfe escuda-se na dicotomia Mulher Sexual e Mulher Não-Sexual e, mais uma vez, limita as suas personagens a uma unidimensionalidade irrelevante.

Que mais dizer sobre “A Fogueira das Vaidades”… Talvez que Tom Wolfe tem dificuldades em saber gerir a acção e que acha que tem de nos descrever minuciosamente tudo o que se passa. Numa das cenas do livro, em que McCoy vai com a mulher a uma festa, o nível de detalhe atinge proporções ridículas, com uma descrição detalhada da decoração, das pessoas, das conversas antes do jantar, das movimentações entre salas, do jantar, das conversas durante o jantar, do discurso de um dos convidados, um sem fim de palavras numa cena que não é assim tão importante. E é sempre assim, durante todo o livro. Não havia necessidade!

Algures em “A Fogueira das Vaidades” há um livro bom. O problema é que existem também, pelo menos, dois livros desinteressantes. O interesse da história pensada por Wolfe perde-se num livro demasiado grande para as personagens criadas. Salva o livro o talento de Wolfe para escrever diálogos e um estilo de escrita que torna a leitura mais leve do que seria de esperar.

Classificação: 13/20

(Livro editado em Portugal pela Dom Quixote)