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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Cheiro a livro novo - Outubro de 2013


Estamos perante um final de ano morno. E não, não falo apenas da temperatura, que agora já começa a mostrar sinais de querer baixar, falo das escolhas editoriais, que não se pode dizer que sejam más, mas esperava-se melhor, especialmente tendo em conta que estamos em época alta. Estarão as editoras a guardar as grandes cartadas para Novembro? Fala-se da edição do “Guerra e Paz” e do “Ulisses” pela Relógio d’Água nesse mês, mas tendo em conta os sucessivos atrasos (estes livros estão na calha há quase um ano) é mesmo caso de ver para crer.

Em Outubro, surpreendentemente, o grande anúncio veio da Antígona, que se prepara para editar vários livros de Aldous Huxley, começando pelo “Admirável Mundo Novo”, livro muito difícil de encontrar nas livrarias, embora ainda se vejam de vez em quando uns exemplares esquecidos e velhinhos da colecção Dois Mundos da Livros do Brasil. Sem dúvida um autor até aqui maltratado pelas nossas editoras e que vai ter finalmente edições à sua altura. Excelente opção da Antígona!

Falando de grandes autores do século XX, a Relógio d’Água continua a publicação das obras de Nabokov, com uma regularidade surpreendente, diga-se de passagem, desta vez com “Pnin”.E porque nem só de clássicos vive o leitor, há também lugar para a edição do polémico “As Partículas Elementares” de Michel Houellebecq, editado anteriormente pela Temas e Debates mas entretanto desaparecido das livrarias.

Compreendo a edição de um livro por mais de uma editora quando o livro esgotou e já não se encontra no mercado, mas que de resto parece-me um exercício estéril. Posto isto, gostava que alguém me explicasse porque é que a Tinta da China decidiu publicar mais uma versão do “Livro do Desassossego” do Fernando Pessoa? Não ponho em causa a qualidade de Jerónimo Pizarro, o editor da obra, mas havendo pelo menos a edição da Assírio & Alvim e a da Relógio d’Água, não será uma má alocação de recursos editar um livro que se encontra facilmente no mercado? Não vejo a mais-valia, e volto a dizer que a Tinta da China se está a deixar ficar para trás na ficção, especialmente na estrangeira.

Também não percebo muito bem a motivação da Alfaguara para editar “Coração Tão Branco” de Javier Marías, que na Feira do Livro se encontrava na banca da Relógio d’Águas a 5€. Com tanto livro por editar em Portugal... A editar um livro que se já se encontra pelas livrarias, então que se faça algo em grande, como a Divina Comédia, que decidiu apostar numa nova edição de  “Cartas Portuguesas”, a obra clássica de Mariana Alcoforado, que conta com tradução de Pedro Tamen, prefácio de Maria Teresa Horta, ilustrações de Modigliani e capa dura. Querem melhor? Tudo isto por apenas 13.5€.

E porque falar em literatura em Outubro é sinónimo de falar de Nobel, chegaram até nós algumas edições de vencedores do prémio, poucas, verdade seja dita, mas escolhas interessantes. A Bertrand editou uma colectânea de contos de Thomas Mann, surpreendendo-nos a Sextante com a publicação de mais um livro de Aleksandr Soljenítsin, “A Casa de Matriona”. Um livro sem dúvida inesperado, tal como o é o regresso às livrarias de “Uma Cana de Pesca para o Meu Avô” de Gao Xingjian, reedição da Dom Quixote, editora que também nos traz o último livro de Urbano Tavares Rodrigues, “Nenhuma Vida”, entregue dias antes de falecer.


E por fim, talvez um dos mais interessantes livros de não ficção editados nos últimos tempos, ou pelo menos assim se espera que seja. “Uma Coisa Supostamente Divertida que Nunca Mais Vou Fazer” é o segundo livro que a Quetzal edita de David Foster Wallace, reunindo alguns dos seus artigos e ensaios mais célebres, nomeadamente aquele que dá nome ao livro, e que relata a experiência de Foster Wallace a bordo de um cruzeiro às Caraíbas que durou uma semana. Consta que é um relato bem corrosivo, com generosas doses de ironia. Diversão garantida.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Em discussão: Julguemos os livros pelas capas



Na Feira do Livro, no último dia de compras, dei por mim na banca da Gradiva. Depois de vasculhar a zona das promoções, encontrei 2 livros a 5€: “Um Almoço Nunca é de Graça” do David Lodge e “Corpo Presente” da Anne Enright. Não tinha lido nada de nenhum dos autores, mas estavam os 2 bem referenciados: um esteve na shortlist do Booker, o outro ganhou-o. Alguns amigos defendem ardentemente o valor do David Lodge, mas li os textos das contracapas e pareceram-me ambos interessantes. Que livro acabei por comprar? O de Anne Enright, e podia aqui arranjar mil e uma justificações pomposas, mas a verdade é que o comprei porque a capa era mais bonita (embora não fosse nada de especial).

Ontem estava no Book Depository à procura de edições do “The Perks of Being a Wallflower” do Stephen Chbosky (que comprarei num dos próximos meses) e adivinhem que edição escolhi? Mais uma vez, a que tinha a capa mais bonita.

Neste momento estão já os puristas da literatura a ter um ataque e a vociferar contra a futilidade das minhas decisões. Mas, por muito importante que o conteúdo do livro seja, a sua componente material também o é, caso contrário, para quê comprar livros? Porque não aderir em exclusivo aos ebooks? Para quem quer manter vivas as edições em papel dos livros, secundarizar a importância da componente estética não é um bom caminho, mas a verdade é que muitas editoras ainda não chegaram a esta conclusão.

Há umas semanas a The New Yorker publicava um artigo de Tim Kreider, ensaísta e cartoonista, com um título bem sugestivo: “The Decline and Fall of the Book Cover”. Kreider abre-nos as portas para os bastidores do mundo editorial e dos processos de decisão a respeito das capas, quase totalmente controlados pelas equipas de Marketing. E uma realidade parece óbvia: as capas dos livros são cada vez mais semelhantes. Chegamos então ao cúmulo de os marketeers, que deveriam advogar a diferença e lutar para que o produto, neste caso o livro, se diferencie no mercado, se tornaram em defensores do “vamos fazer como os outros”. Dominados pelo medo de ferir susceptibilidades, de tomar alguma decisão que não agrade a alguém, criam-se capas estéreis, banais, que são tão neutras que se tornam irrelevantes.

É verdade que a capa não é o factor determinante na decisão de comprar um livro. Mas importa também distinguir 2 realidades: comprar um livro de um autor conhecido e de um autor desconhecido. Se conhecemos o autor, a capa terá uma importância muito secundária. Não vou deixar de ler Tolstoi porque o livro tem a capa feia. Afinal de contas é Tolstoi! Mas se calhar, se estiver com o “Guerra e Paz” numa mão e o “Anna Karénina” noutra, a capa mais interessante é capaz de me convencer. No caso de um autor desconhecido, se não tenho qualquer informação adicional, que remédio tenho se não deixar que a capa me revele algo sobre a qualidade do livro.

E falando das capas enquanto reveladoras da qualidade dos livros, um grande flagelo do mercado editorial actual é a percepção do género do público a que o livro se destina e a adequação da capa em sua função. Maureen Johnson escreveu no Huffington Post a respeito desta questão, e há que reconhecer: a tendência é para que uma escritora tenha uma capa “feminina”, o que limita de imediato o livro a ser “um livro para gajas”, ou seja, de fraca qualidade. Maureen propôs inclusive um exercício chamado Coverflip, em que o desafio é simples: imaginar que capa teria um livro se o seu autor tivesse sido alguém do sexo oposto. E de facto, os resultados dão muito que pensar. Facilmente nos apercebemos do poder manipulador que algumas capas têm.

Recentemente deparei-me no nosso mercado com um caso paradigmático de como uma capa pode limitar o público de uma escritora. Falo da Isabel Allende e das reedições das suas obras pela Porto Editora. Um grave erro foi cometido! É praticamente impossível um homem (e algumas mulheres!) comprar alguns dos livros sem se sentir extremamente ridículo. Fiquei contente quando soube que, após o desaparecimento da Difel, a Porto Editora tinha decidido reeditar a obra da Isabel Allende. Estava com muita vontade mesmo de comprar o “Paula”, mas quando vi a capa pensei “NÃO!!!” Um erro. Um enorme erro. Limitar Isabel Allende à categoria de escritora para mulheres é um preconceito enorme e uma total falta de compreensão da importância da sua obra.

Mas nem só de capaz más e preconceituosas vive o mercado. Kreider dizia no seu artigo que a época das capas com ilustrações tinha terminado. Já ninguém o fazia. E eu pensei “a Tinta da China faz!” E de facto, falar da importância do design dos livros em Portugal é falar da Tinta da China, uma das poucas editoras a perceber que concebendo o livro como uma peça artística, as pessoas têm uma maior percepção do “value for money” e que, em vez de 15€ por um livro, se calhar estão dispostas e pagar 25€. É um risco? É sim. Mas tanto quanto sei a vida não tem corrido mal à Tinta da China, portanto, se calhar, correr riscos compensa. Há outras editoras que se destacam também pelo cuidado gráfico nas suas edições: a Relógio d’Água, a Quetzal, a Sextante, a Antígona, a Divina Comédia e a Cavalo de Ferro, por exemplo. Na Leya depende muito do autor (as colecções do Saramago e do Vargas Llosa são bons exemplos de edições cuidadas, mas outros autores não têm a mesma sorte). Mas a Tinta da China joga noutra liga, no que ao design diz respeito.




Acima de tudo, parece-me que algumas editoras têm de acarinhar mais os seus livros. Eu posso ter um filho e gostar muito dele e pensar que ele tem grandes qualidades intelectuais, mas se o mandar mal vestido para a escola estou a condicionar a percepção dos outros. E nos tempos que correm a percepção é tudo. Já dizia o outro: não basta sê-lo, há que parecê-lo.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O cheiro a livro novo - Julho de 2013




Enquanto algumas editoras aproveitam esta altura do ano para irem a banhos, presenteando os leitores com a ausência de novidades ou com novidades ao bom estilo silly season, há quem continue a editar com qualidade, apesar do Verão.

A Relógio D’Água tem tido um ano em cheio, com uma sucessão alucinantes de livros imperdíveis. E em Julho será igual. Para já, estão a chegar às livrarias “animalescos” de Gonçalo M. Tavares e uma nova edição de “Mensagem” de Fernando Pessoa. Porquê uma nova edição de um livro já bem presente no mercado? Porque esta edição conta com a edição de Teresa Sobral Cunha, uma especialista em Pessoa que fez um trabalho notável na edição, também da Relógio D'Água, de “Livro do Desassossego”. Se isso não chegar, há ainda o prefácio de Prémio Camões Eduardo Lourenço, um dos maiores pensadores portugueses da actualidade. Mais argumentos? É da Relógio D’Água, e se há uma máxima na minha vida literária que defendo é que tudo o que a Relógio d’Água faz, faz bem.

Para além destes 2 livros, a Relógio D'Água continua com a publicação da obra completa de Shakespeare (projecto de que em breve vos quero falar), desta feita publicando os 2 volumes de “Henrique IV”, não esquecendo também a obra completa de Nabokov, complementada com 2 das principais obras do autor: “Lolita” e “Pnin”. E para rematar, ainda vão publicar mais livros, entre os quais “História Imortal” de Karen Blixen, a autora de “África Minha”.

A Cavalo de Ferro promete para dentro em breve a publicação de “Paraíso e Inferno” de Jón Kalman Stefánsson, mais um nome cimeiro da literatura nórdica a figurar no seu catálogo. Enquanto isso, a Antígona, fiel à sua postura irreverente, já fez chegar às livrarias “Singela Proposta e Outros Textos Satíricos“ de Jonathan Swift (mais conhecido por ser autor de “As Viagens de Gulliver”), sendo que a singela proposta parece ter algo a ver com a degustação de crianças…

Destaque também para a continuação da reedição das obras de Isabel Allende pela Porto Editora, recuperando os títulos editados pela Difel que entretanto desapareceram do mercado, sendo a vez de “De Amor e de Sombra”, “Contos de Eva Luna”, “Retrato a Sépia” e “A Soma dos Dias”. Não podendo deixar de mencionar também a corajosa escolha da Divina Comédia, que se estreia nos clássicos da literatura universal com “História da Minha Vida” de Giacomo Casanova, após uma eclética selecção de obras portuguesas.

A Civilização, para além do muito premiado "O Livro Negro" Hilary Mantel, expande a colecção Novos Clássicos (que concilia os preços em conta, com um design muito apelativo), com principal destaque para a publicação de "História de Duas Cidades" de Charles Dickens, "Os Maias" de Eça de Queirós e "Viagens na Minha Terra" de Almeida Garrett.

Para os fãs de não ficção, a Edições 70 tem uma proposta muito interessante: “As Cruzadas Vistas Pelos Árabes” de Amin Maalouf. Podem chamar-me etnocêntrico, mas a verdade é que nunca tinha pensado criticamente sobre as Cruzadas e de facto, pondo-nos no lugar dos árabes, haverá certamente muitos episódios dignos de nota e não pelas melhores razões.