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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Em estado crítico: "Peter Pan and Wendy" de J. M. Barrie


“Adventures, of course, as we shall see, were of daily occurrence; but about this time Peter invented, with Wendy’s help, a new game that fascinated him enormously, until he suddenly had no more interest in it, which, as you have been told, was what always happened with his games. It consisted in pretending not to have adventures, in doing the sort of thing John and Michael had been doing all their lives: sitting on stools, flinging balls in the air, pushing each other, going out for walks and coming back without having killed so much as a grizzly. To see Peter doing nothing on a stool was a great sight; he could not help looking solemn at such times, to sit still seemed to him such a comic thing to do.”


Piratas manetas, crocodilos esfomeados, fadas ciumentas e irascíveis e crianças perdidas que vivem longe de adultos não são o que primeiro nos vem à cabeça quando pensamos em histórias infantis. Talvez por ser tão fora da norma, “Peter Pan and Wendy” de J. M. Barrie tornou-se num dos clássicos mais incontornáveis da literatura, relatando uma aventura passada numa terra a que se chega voando, virando na segunda estrela à direita e continuando em frente até de manhã.

Os heróis querem-se corajosos, humildes e bondosos. Será inegável que Peter Pan tem um bom coração e coragem de sobra, mas não há nele sinal de humildade. Incorporando a ideia de infância, Peter é irrequieto, arrogante e egoísta, características que, sendo os seus principais defeitos, são também o que lhe confere o seu atractivo e seduz todas as crianças com quem se cruza. Peter tem a liberdade que as crianças desejam ter para fazer tudo o que quer, e empenha-se muito em afirmar a sua não necessidade de ter uma mãe. Mas a verdade é que continua a voar recorrentemente para longe da Terra do Nunca, em busca de uma mãe que perdeu no passado. É numa dessas viagens que encontra Wendy e os seus irmãos que decidem acompanhá-lo nas suas aventuras.

A história de Peter Pan é, acima de tudo, uma história de perda. Wendy, a única mulher do grupo, representa para os meninos perdidos um símbolo de união e família e todos a tratam como sua mãe, papel que Wendy abraça sem hesitação. E com o passar do tempo, à medida que o esquecimento vai tomando conta de todos, já quase sem qualquer recordação da vida anterior à Terra do Nunca, é nas histórias de Wendy sobre a sua família, de que ela própria se começa a esquecer, que todos vão reencontrando o desejo de terem pais. Por muito mágica que a Terra do Nunca seja, com a sua capacidade de perpetuar a infância, a verdade é que as crianças facilmente trocariam as suas liberdades e aventuras pela vida normal que tinham .

Falar de Peter Pan é sinónimo de falar da Sininho e do Capitão Gancho, duas das personagens mais carismáticas da literatura infantil. Sininho é uma fada quase microscópica, que é tudo aquilo que esperávamos que uma fada não fosse. Muito focada em si própria e no seu amor não correspondido por Peter Pan, Sininho é quase uma mosca irritante e cruel que zune em torno deles. E para líder dos piratas, o Capitão Gancho apresenta também características inusitadas: bem-falante, elegante e asseado. Não fosse o gancho a substituir o braço comido pelo crocodilo e não haveria nesta figura qualquer sinal de perigo. Até o principal ajudante do Capitão Gancho é descrito como uma figura que todos consideram carinhosa.

O inesperado assume-se assim como uma das principais armas de J. M. Barrie que, pelas características das personagens, mas também pela forma como escreve, confundindo o realismo e o fantasioso com toda a naturalidade, torna surpreendente a leitura da história de Peter e Wendy. E no final há a melancolia, a última das perdas: a da infância. Wendy crescerá. Peter, sujeito às regras da Terra do Nunca, permanecerá para sempre criança. E os seus caminhos, que pareciam ligados pelos mais fortes dos laços, acabarão por se separar. Peter tornar-se-á em pouco mais que uma recordação distante. Quem sabe se até isso deixará de ser um dia? Aconteça o que acontecer, o tempo irá passar, e com ele se destruirá o fabuloso mundo da infância. E Peter Pan ficará apenas como uma lenda. Sozinho. Algures na Terra do Nunca ou na janela de novas crianças que anseiem por sonhar.


Esta edição da The Folio Society complementa a inesquecível história escrita por J. M. Barrie com ilustrações de uma simplicidade e beleza emocionante. Um livro para guardar e passar de geração em geração, como se deve fazer aos tesouros.

Classificação: 18/20

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Os 5 melhores livros que li em 2013

O facto marca sem sombra de dúvida a minha relação com a literatura em 2013: a descoberta do género conto. Já tinha lido livros de contos anteriormente, e tinha ganho um maior interesse pelo género com “A Vista de Castle Rock” de Alice Munro, mas foi com a Granta que a viragem definitiva se deu e, apesar das reticências inicias, estou conquistado e adivinham-se bastantes leituras nesse campo para 2014. Mas de 2014 falaremos nos próximos dias. Para já deixo-vos com a lista dos melhores livros que li no ano que passou.

Como já devem ter percebido, as minhas leituras não são ditadas pelo que vai sendo editado. Há demasiados livros bons para serem lidos para a pessoa se focar só no que é novo. Ser-me-ía  por isso impossível fazer um top de livros editados em 2013. Mas como a literatura é das formas de arte que melhor resistem à passagem do tempo, entre os melhores livros que li há desde obras-primas do século XIX, até livros editados em 2013. Para mim, 2013 foi isto.


5. “Fiapos de Tempo” de Ana Maria Vilhena, Vírgula



 Através de “Fiapos de Tempo”, a meio termo entre a biografia e o romance, revisitamos as memórias dos nossos avós e dos seus antepassados, reconhecendo-os nas personagens e comportamentos tão tipicamente alentejanos que nos surgem em cada página. De uma escrita natural, que na sua aparente simplicidade esconde a mestria de quem fez da língua portuguesa a sua vida, a leitura de “Fiapos de Tempo” faz-se com o mesmo prazer com que lemos os clássicos da nossa literatura. Ler o texto completo.


4. “O Moinho à Beira do Floss” de George Eliot, Relógio D’Água




Em “O Moinho à Beira do Floss” Eliot recria um bucólico mundo campestre, habitado por personagens imperfeitas que tentam viver num mundo cheio de expectativas. Entre estas personagens, constrangidas pelo socialmente aceite, surge a figura da impulsiva e arrebatada Maggie Tulliver, que aos olhos da nossa época é uma simples rapariga romântica, mas que, no pacato mundo banhado pelo rio Floss, é uma rebelde que ousa juntar aos quatro verbos que lhe foram destinados (nascer, casar, parir, morrer) um quinto: amar. Ler o texto completo.


3. “Fugas” de Alice Munro, Relógio D’Água



A vida tem uma forma incontrolável de nos afastar do nosso potencial. Uma força violenta e indestrutível que nos arrasta para caminhos que não são aqueles que queremos percorrer, sem que nada possamos fazer para o evitar. Alice Munro percebe isso melhor que ninguém, a crueldade de vermos desde cedo os nossos planos comprometidos, porque por muito que corramos, nada mais encontraremos do que aquilo que nos está reservado. E essa é uma moral que percorre os oito contos que compõem este livro. Ler o texto completo.


2. “Peter Pan and Wendy” de J. M. Barrie, The Folio Society


 

O último livro que li em 2013 transportou-me para o fabuloso mundo de Sininho, Capitão Gancho e os Rapazes Perdidos, um mundo em que a infância nunca termina, em que há sempre aventuras a serem vividas. Mas por maiores que pareçam os perigos da Terra do Nunca, o maior ameaça está longe dela: crescer e esquecer-se de quando se era uma criança. Publicarei nos próximos dias uma análise completa a este livro.


1. “A Sibila” de Agustina Bessa-Luís, Guimarães Editores



Da rudeza nobre da terra brotam os génios difíceis de gente forte. Quina e Estina, duas faces duma mesma alma, ambas duras, uma clarividente, a outra propícia a sofrimentos calados. Cedo conheceram as vias árduas do destino, sempre marcadas pela efemeridade, pela necessidade de não se apegarem àquilo que não podem conservar junto a si. Perderam um irmão, testemunharam as dores de sua mãe, traída por um homem galanteador, o pai das duas, que também cedo partiria. A própria Quina tem a sua vida em risco na juventude. Mas é Estina quem sofre as mais duras perdas, talvez por ser a mais fraca, a que mais deseja acreditar na possibilidade do amor. Primeiro é abandonada pelo homem que ama. Depois vê morrer, um após outro, todos os seus filhos. E é no seu estóico sofrimento que Estina vence Quina. Estina conhece o amor, Quina nunca o conseguirá. Ler o texto completo.