Mostrar mensagens com a etiqueta Marguerite Duras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marguerite Duras. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Em estado crítico: "Hiroshima Meu Amor" de Marguerite Duras


“O tempo virá em que não saberemos que nome dar ao que nos unirá. O nome apagar-se-á a pouco e pouco da nossa memória.”


Hiroshima. Nevers. O que une estes dois locais? A destruição? Que destruição poderá Nevers conter que se iguale a uma cidade dizimada por uma bomba atómica? Que horrores terão sido vividos nas suas ruas? De quantas mortes desnecessárias terá sido palco? Nevers. Uma aparentemente doce e bucólica terra francesa, a terra que viu morrer o amor.

Uma mulher, uma actriz, está em Hiroshima no pós-guerra a rodar um filme sobre a paz. Que outro tipo de filme se poderia fazer em Hiroshima, questiona. O passado é, em Hiroshima, um fantasma que a persegue. Na vida que regressou ao normal, na cidade plenamente reconstruída, onde a catástrofe não é mais do que uma memória longínqua que se afugenta, há uma ameaça eminente de que o que Hiroshima viveu seja esquecido. Hiroshima tem de ser lembrada sempre, como o têm de ser todas as grandes tragédias. Mas a vida teima em cobrir os acontecimentos desagradáveis com um véu apaziguador. Até que não restem mais do que sombras. Até que comecemos a duvidar que o que aconteceu aconteceu mesmo.

Um amor em Hiroshima. Um homem casado, como ela, que nos seus braços sonha com um grande amor. Um homem que é mais do que aquele homem japonês, que é um arquétipo do amante proibido, uma recordação viva do amor vivido em Nevers. Em Hiroshima, a mulher percebe que ela própria tem vindo a esquecer, que a dor dilacerante que parecia capaz de a matar acabou por sossegar e, com o avançar dos dias, a vida continuou, apesar da imagem de destruição absoluta. Experimentou o maior dos horrores e agora vive, com uma aparência de normalidade.

O que une Hiroshima e Nevers? A destruição. A destruição de que pensamos não conseguir emergir. Mas também o esquecimento, a traição de uma vida que o continua a ser, a insustentável leveza do ser de que Kundera falaria.

“Hiroshima Meu Amor”, o guião que valeu a Marguerite Duras a nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Original, foi também a primeira longa-metragem de Alain Resnais, protagonizada por Emmanuelle Riva. O filme tem o mérito de, mantendo-se fiel à visão de Duras, a ter dotado de imagens icónicas cuja beleza nada fica a dever às palavras escritas. 

Já que o livro, em tempos editado pela Quetzal, é muito difícil de encontrar hoje em dia, recomendo-vos vivamente o filme, cuja versão restaurada foi recentemente lançada em DVD pela Leopardo Filmes.


Classificação: 17/20


sábado, 5 de abril de 2014

Discurso Directo: Duras sem filtro


“Worn Out With Desire to Write”: Documentário sobre Marguerite Duras, realizado pouco tempo depois da publicação de “O Amante” e da atribuição do Prémio Goncourt.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

O medo do esquecimento: o centenário de Marguerite Duras


Duras. Um mito construído sobre os escombros de uma infância infeliz na Indochina. Uma das figuras de proa de cultura francesa e europeia do século XX. Uma mulher feroz, corajosa, habituada a chocar, a lutar por si e por aquilo em que acredita. Um desejo sexual lancinante, que celebra a sua condição de mulher, que a conduz de homem em homem à procura de uma plenitude amorosa que talvez nunca tenha encontrado. À procura do seu irmão Paul, do seu adorado irmão Paul, que tão cedo a deixou e que será sempre o homem da sua vida. Mas acima de tudo, a vida de Marguerite Duras será sempre uma libertação da sua mãe, do amor absoluto que tem por ela e do ódio dilacerante que sente por nunca ter sido correspondida. A mãe. Sempre a mãe em Duras.

Tudo o que Duras foi, tudo o que escreveu, tudo o que sentiu, tudo tem origem na Indochina, a terra em que nasceu há 100 anos e onde viveu até quase à idade adulta, num estatuto ambíguo de membro da raça privilegiada mas pobre. Nessa altura Marguerite Duras era ainda Marguerite Donnadieu, a filha mais nova de um casal de viúvos que voltara a casar. Os primeiros anos de Marguerite são marcados por acontecimentos que afectarão a sua vida de forma profunda: a morte do pai e a dinâmica com a mãe e com os seus dois irmãos, particularmente com o mais velho, o irmão que apelidaria de assassino e criminoso, e que a aterrorizaria, a ela e a Paul, durante toda a infância. O amor incondicional da mãe pelo filho mais velho, o seu filho, aquele que sente despudoradamente como mais seu, cria feridas em Duras que nunca cicatrizariam.

É também em muito nova que, de acordo com o testemunho de alguns amigos próximos a quem terá revelado o caso, teve a sua primeira experiência sexual, aos cinco anos, com um rapaz vietnamita de cerca de dez anos. E esse acontecimento é de grande importância. A experiência não é consensual, não que tenha sido também forçada, é sobretudo uma experiência inconsciente da parte dela que em tão tenra idade não consegue compreender o que se passava. Mas há uma noção de proibido que fica sempre consigo. Se uma experiência sexual naquela idade é por si só um facto relevante e gerador de traumas, o facto de ter sido com um vietnamita, algo mal-visto pela sociedade colonialista, foi agravando esse peso.

A sexualidade de Marguerite tornar-se-á consciente depois do período que mitologicamente ficaria conhecido como “as barragens”, referindo-se à trágica compra de uma concessão pela sua mãe de uma terra que se revelaria incultivável, invadida durante grande parte do ano pela água do mar. A devastação dessa experiência ficaria para sempre eternizada em “Uma Barragem Contra o Pacífico”, retomada depois, de forma mais pessoal ainda, em “O Amante”. A situação económica da família atinge um ponto de ruptura nesta fase, gastas que foram as suas economias na concessão e na tentativa desesperada de edificar barragens que impedissem o avanço das águas. Condenados a um estado de quase profunda miséria, Marguerite percebe que o interesse que suscita nos homens pode ser uma arma a favor de toda a sua família, empenhando-se na procura de um homem rico que, em troca de jogos de sedução, lhe dê dinheiro. Assim começa Marguerite a traçar o caminho que a levará ao romance com o amante chinês milionário, que tão fortemente a marcará. E nesse caminho Marguerite Donnadieu converte-se em Duras, na essência de Duras, que se viria a materializar na adopção do nome aquando do início da sua carreira literária. Duras, o nome da terra de seu pai, o pai que quase não conheceu, o primeiro homem inalcançável da vida de Duras.

Por fim, quando o hipotético casamento com o amante chinês se torna definitivamente numa impossibilidade, Marguerite parte para França. Voltará pouco tempo depois à Indochina, para terminar os estudos, e depois volta a partir para nunca mais voltar, libertando-se finalmente da loucura da sua mãe, do seu desespero torrencial, da distância intransponível que as separe. Duras parte para viver. Uma vida que testemunha os grandes acontecimentos do século, com um papel bastante activo na Resistência Francesa durante a ocupação nazi, que valeria ao seu marido Robert Antelme a deportação para o campo de concentração de Dachau, onde seria encontrado, já após a libertação, por François Miterrand, uma figura muito próxima de Duras e de Antelme na altura e que era o líder do grupo de resistentes a que pertenciam.

A vida de Duras será sempre marcada por relações amorosas tumultuosas. O seu casamento com Antelme era sobretudo um pacto de amigos antes da Guerra, uma comunhão de espíritos acima de tudo. Antelme terá a sua amante e Duras terá também o seu, Dionys Mascolo, que desenvolverá com o casal uma relação de grande intimidade, sendo o melhor amigo de Antelme, o amigo que o irá buscar a Dachau e que lhe salvará a vida. Mas acima de tudo, Dionys Mascolo será o pai do filho de Duras.

Já na velhice Duras chocará o mundo com o seu romance com Yann Andréa, quase 40 anos mais jovem que ela, e que será o seu companheiro nos seus últimos anos de vida.


A escrita de Duras



As obras de Duras são dotadas de um sentido poético pungente, com ambientes criados de forma cinematográfica que evocam sentimentos. Mais do que uma sucessão de acontecimentos, os livros de Duras centram-se em estados de espírito, viagens emocionais que exigem um compromisso por parte do leitor, uma entrega compatível com o desnudar emocional da autora.

A separação entre ficção e realidade é um exercício muito difícil em Duras, que alimenta a escrita da sua vida, das suas percepções, das suas próprias emoções. Não há distanciamento na obra de Duras, que com os anos vai criando uma mitologia em seu torno, alimentada pela realidade ficcionada dos seus livros.

Há sempre figuras femininas marcantes nos livros de Duras. São por norma mulheres que desafiam as convenções, de uma grande força face à adversidade mas de uma enorme fraqueza face à tentação, e por tentação entenda-se desejo sexual. O amor é em Duras uma força destrutiva, uma procura errante por um ideal representada em “O Marinheiro de Gibraltar” ou um sentimento proibido entre pessoas de mundos incompatíveis, como em “Hiroshima Meu Amor”.

Há outros temas recorrentes na sua obra: a mãe dominadora e louca, os irmãos e os sentimentos incestuosos, os judeus e a guerra. Se Duras tem algo por explorar emocionalmente depois da Indochina, a ocupação alemã dar-lhe-á as vivências que lhe faltam. A prisão de Antelme, o tempo sem notícias dele, o envolvimento com um suposto colaborador da Gestapo para obter informações, o profundo desejo de vingança após a libertação e o choque do reencontro com Antelme, com a experiência de Antelme em Dachau, serão matéria-prima inesgotável para a sua escrita, que com o tempo se adensa.

Duras escreve como quem revela um pecado, num tom confessional guiado por uma corrente de consciência que subverte a noção de tempo e de espaço. O exemplo máximo desse estilo será “O Amante”, que lhe valerá em 1984 o Prémio Goncourt, já bastante afastado do estilo fortemente marcado pela influência americana, particularmente de Faulkner, nas suas primeiras obras.


Marguerite Duras na minha vida


A escrita de Duras pertence-me. Sinto-a como minha. É um sentimento mais profundo do que admirar o talento de alguém, é sentir, ao lê-la, que as suas palavras evocam a minha voz, que são uma manifestação do meu ideal de escrita. Há outros escritores que me dizem muito, mas nenhum que me centre tão em mim próprio como Duras.

Duras foi sempre um nome familiar. Não sei quando o ouvi pela primeira vez, mas parece-me que desde sempre este nome me soou a algo familiar. Mas o meu primeiro contacto consciente com a sua obra deu-se algures no final dos anos 90, quando vi “O Amante” pela primeira vez, era então ainda um adolescente. O filme, venerado na Europa e considerado um filme erótico ao nível dos da Playboy nos EUA, tocou-me de forma inesperada. Recordo-me das últimas cenas do filme como se as tivesse visto agora mesmo. A rapariga no barco, como na primeira vez que encontra o amante, a afastar-se lentamente da Indochina, partindo para França. No cais, ao longe, vê-se o carro do amante. Nunca se vê o amante. Apenas o carro. Aquela evocação estática da sua presença é de uma beleza dilacerante. O sentimento de perda domina tudo à medida que aquele último avistamento torna claro que aquela relação não foi um mero jogo sexual, que houve sentimentos profundos que os uniram.

Passariam alguns anos até que eu lesse o livro, o que aconteceria em 2008, nessa altura a versão da Biblioteca Sábado. Li a primeira página e foi como se naquele momento algo em mim que mudasse. Quem lê “O Amante” nunca esquece as primeiras frases, um começo que nos diz tudo, que alberga em si a essência de Duras. Comecei a comprar avidamente livros de Marguerite Duras, mas só há dois anos a voltei a ler, embora tenha relido “O Amante” várias vezes. Li então “O Marinheiro de Gibraltar” que foi até agora o que menos me marcou. Há muitos pontos de interesse no livro, as personagens e a história são interessantíssimas, mas há algo que falha, na fase final, que deixa uma impressão de obra inacabada ou terminada à pressa.

Li recentemente mais dois livros de Duras, “Uma Barragem Contra o Pacífico” e “Hiroshima Meu Amor”, que reafirmaram a sua importância na minha vida. Não sinto pressa de ler tudo dela, quero saborear os livros que me faltam à medida que o tempo passar, redescobrindo-a em diferentes fases da minha vida. O que me leva á questão final: os livros de Marguerite Duras em Portugal.


Portugal esqueceu Duras?


As editoras portuguesas esqueceram-na, sem dúvida. Desde que a Difel, que tinha a quase totalidade da sua obra publicada, se eclipsou, é difícil encontrar os livros de Duras. Durante alguns anos nem “O Amante” se conseguia comprar, tendo vindo em boa hora a edição da ASA Vintage. Há também vários livros de Marguerite Duras editados pela Livros do Brasil, mas cada vez se encontram menos nas livrarias.

O que resta então? Pouca coisa e tudo disperso por várias editoras: 
Relógio D’Água: “Agatha” e “O Navio Night
Estampa:“A Doença da Morte
Europa-América: “A Tarde do Sr. Andesmas” e “A Amante Inglesa
Dom Quixote: “O Marinheiro de Gibraltar
Casa das Letras: “Estação dos Correios da Rua Dupin
Presença: “O Amor
Livros do Brasil: “É Tudo”, “Yann Andréa Steiner” e “O Jardim

Obras emblemáticas como “Uma Barragem Contra o Pacífico”, “Hiroshima Meu Amor”, “Ausância de Lol V. Stein” ou “Moderato Cantabile” desapareceram quase por completo. A Quetzal que em tempos editou “Hiroshima Meu Amor”, “India Song”, “Textos Secretos” e a biografia da escritora da autoria da Laure Adler, deixou-os esgotar sem os reeditar. Só “Textos Secretos” me escapou, os outros três estão na minha biblioteca, junto aos outros 19 livros que tenho de Duras, graças a muita persistência e dedicação.

É de resto uma pena que a Quetzal não aposte em Duras, porque me parece ser uma autora que se enquadra perfeitamente no catálogo da editora. Para já, restam-nos os alfarrabistas e alguns livros esquecidos nas livrarias. É pouco. Duras merecia mais.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Em estado crítico: "Uma Barragem Contra o Pacífico" de Marguerite Duras


A força incontrolável do mar e do destino. Por muito que nos enganemos, que nos tentemos convencer de que os controlamos, no final reconheceremos a sua supremacia. Por muito que desejemos que o mundo pare, que um momento se cristalize no tempo e se converta em infinito, a mudança virá e, como uma torrente de água, levará consigo tudo o que encontrar à sua frente. Assim acontece com a família de “Uma Barragem Contra o Pacífico”, uma obra-prima por direito próprio, que apenas não é a grande obra de Marguerite Duras porque muitos anos mais tarde “O Amante” seria escrito, e o que poderia haver de imperfeição no primeiro livro foi obliterado pela pureza aprimorada do segundo.

O ponto de partida para ambas as histórias é o mesmo: uma viúva com filhos para criar decide investir as suas economias numa concessão atribuída pelo governo da Indochina, com a esperança de que a exploração dessa terra seja a solução para os seus problemas financeiros e uma porta para a riqueza. O pior acontece quando percebe ter sido enganada, assistindo indefesa às terras da sua concessão serem dragadas pelas águas do Pacífico durante grande parte do ano, impossibilitando o seu cultivo. Numa tentativa desesperada, manda erguer uma espécie de barragem para conter as águas do mar, sem que o seu propósito seja alcançado. Vê-se então sozinha em plena selva da Indochina, com os seus filhos e sem forma de subsistir, condenada a uma vida de miséria

A irmã, o irmão e a mãe de “Uma Barragem Contra o Pacífico” conhecerão portanto uma nova existência em “O Amante”, mas com algumas diferenças. Nesta primeira história a rapariga, Suzanne, uma personificação de Duras enquanto jovem na Indochina, é menos melancólica e ensimesmada, assim como o irmão é também mais vivaz. A mãe permanece inalterável. Mas fora deste núcleo familiar, há diferenças consideráveis nas duas histórias: em “Uma Barragem Contra o Pacífico” não há irmão mais velho, o irmão cruel que absorverá todo o amor da mãe, e também não há sentimentos genuínos pelo amante. O Sr. Jo, o rico pretendente deste livro, está muito distante da figura sedutora e intensa de “O Amante”, uma figura capaz de fazer uma jovem desesperada sentir amor. O Sr. Jo resume-se ao ridículo e à perversidade, numa existência plena de humilhação e cobardia.

Enquanto em “O Amante” há uma dinâmica entre forças endógenas e exógenas à família, em “Uma Barragem Contra o Pacífico” tudo é a família e, mais que isso, tudo é a mãe, essa mulher louca, tão profundamente destruída pela vida que, começando por ser uma heroína estóica, se torna numa mulher dominada pela injustiça e pela incapacidade de fazer algo, numa mulher que nada mais tem do que os seus dois filhos. E o amor que os une, embora seja um sentimento sobretudo destrutivo (mas o amor em Duras é sempre uma força destruidora), é o ponto criador de equilíbrio e que permite à família sobreviver a tudo. A partida de Joseph, o irmão, há tanto antevista e temida pela mãe, terá por isso uma importância tão significativa, acabando por ser o início do fim e um mero prelúdio do inadiável desfecho da história.

O desejo incestuoso da Suzanne pelo seu irmão, embora nunca seja afirmado de forma peremptória, é neste livro mais presente. No final é por ele que ela espera junto à estrada, em frente da casa, embora queira fazer crer que aguarda por um homem que a leve dali e ao qual se renderia de imediato porque sabe que não é mais do que uma mercadoria sem outra utilidade que garantir o salvamento económico da família.

Suzanne e a mãe desejam, acima de tudo, que o tempo pare e que possam viver eternamente naquele bungalow, construído junto à sua estéril concessão, com Joseph. Os três alimentando um ódio silencioso, estridente aquando dos ataques da mãe, contra as autoridades coloniais que os enganaram, contra os homens ricos que cobiçarão Suzanne e que pensarão que a poderão comprar com o seu dinheiro. Mas esse tempo acabará, sem que nenhuma barragem o consiga evitar, porque no fim apenas haverá a solidão e a certeza de que o destino, como a água do mar, seguirá o seu rumo.

“Uma Barragem Contra o Pacífico” apresenta-nos uma Duras disciplinada, seguindo um modelo mais tradicional de romance, num estilo que, possuindo já os motivos que caracterizariam toda a sua obra, não se encontrava ainda completamente formado. Mas a capacidade de evocar imagens poéticas e de chocar pela profundidade honesta dos sentimentos revela uma escritora com uma capacidade única: a de criar uma história que nos incomoda, nos faz sair do nosso centro e que gera entre nós e as personagens, mesmo aquelas que não nos são muito simpáticas, um elo de compreensão. Um romance maior do séc. XX.

Classificação: 19/20

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Os livros da minha vida: “O Amante” de Marguerite Duras


“Muito cedo na minha vida foi tarde de mais. Aos dezoito anos era já tarde de mais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoito anos envelheci.” (in "O Amante" de Marguerite Duras, ASA, Colecção Vintage, p.7 e 8)


No Mékong. Numa barcaça sobre o Mékong. Uma jovem de aspecto peculiar, com um estranho chapéu de abas de homem, atravessa o rio. Debruça-se da barcaça, olhando sem destino, como quem nada procura, nada espera, mas mesmo assim olha. Naquela barcaça, naquela viagem, encontrará aquilo que nem sabia desejar. De uma grande carro preto sai um chinês, mais velho do que ela, de aspecto frágil, apesar dos sinais óbvios de riqueza. Nada de comum entre os dois. Excepto aquele momento. Aquele lugar. O rumar à deriva para um destino incerto, com o conformismo de quem não sabe o que quer porque nunca sabia que isso era possível. Que era possível querer algo e escolher um caminho.

Assim começa a história de amor que marcaria a vida de Marguerite Duras, sem romantismo, sem exacerbadas declarações mútuas de amor, sem esperança. A jovem que atravessa o Mékong e o chinês rico amam-se na sua destruição, na ausência de um futuro possível para os dois. Porque o pai dele não permitiria que o filho se casasse com uma branca, e porque ela é incapaz de amar ou, pelo menos de reconhecer o amor. Tão submersa que está na história da sua mãe, que não consegue acreditar, não consegue ver uma vida para além da desilusão e das fatalidades incontroláveis que assolam o destino. A imagem do Pacífico a reclamar as terras da propriedade comprada pela sua mãe com o último dinheiro da família, após a morte do pai, galgando a barragem teimosamente erigida, contém em si uma beleza cruel e um simbolismo avassalador. Não vale a pena lutar.

Na verdade “O Amante” é tanto a história de um amor quanto é a história de uma família. Para percebermos a relação da menina de 15 anos com o seu amante chinês é necessário conhecer a sua mãe, a loucura da sua mãe, e os irmãos, um forte e assassino, o outro fraco e revoltado. Há entre os três irmãos e a mãe um laço emocional de uma grande profundidade e a convivência com a mãe enganada e indefesa inscreve em cada um deles uma ferida que nunca sarará e que determinará as suas acções. Perante o desespero da mãe, sem recursos e sem força para lutar, a filha vê naquele chinês, antes de mais, uma forma de subsistência. Mas o lado utilitário daquela relação depressa cede perante o peso dos sentimentos criados, sem que haja uma consciência profunda do que significam.

O lado mais perverso da falta de esperança é incapacitar-nos de ver o real valor das coisas, de percebermos que vale a pena lutarmos por algo, o fazer-nos duvidar daquilo que sentimos. Não pode ser! Como podemos amar, se sabemos que tudo estará destinado a um final abrupto, a uma tristeza que apagará tudo? E é quando tudo se perde, quando o destino é selado, que uma visão nítida se impõe sobre o horizonte, de uma clareza dolorosa, de uma certeza cruel. Como se pode abrir mão de tudo sem sequer lutar?

Duras escreve ao sabor das memórias, que se aproximam, primeiro cobertas por uma névoa, mas que aos poucos vão ganhando contornos definidos e que, de forma algo aleatória, abrem caminho a novas imagens vividas. E assim, com a mesma serenidade conformada com que começa a história, Duras termina-a:

“O grande automóvel dele estava lá, comprido e negro, no banco da frente o motorista fardado de branco. Estava um pouco afastado do parque para automóveis da Companhia Marítima, isolado. Ela tinha-o reconhecido por esses sinais. Era ele na parte de trás, essa forma quase invisível, que não fazia qualquer movimento, abatido. Ela estava encostada à amurada como da primeira vez na barcaça. Sabia que ele olhava para ela. Ela também o olhava, já não o via mas ainda olhava para a forma do automóvel preto. E depois, por fim, tinha deixado de o ver. O porto apagara-se, e depois a terra.” (in "O Amante" de Marguerite Duras, ASA, Colecção Vintage, p.120 e 121)

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O 100º post e os 100 anos de Marguerite Duras


A força avassaladora e imparável do tempo revela-se uma constante fonte de surpresa. Os dias parecem horas, os meses dias, os anos passam com a facilidade de uma vida que se vai vivendo à deriva, vendo tudo passar. E num piscar de olhos, amanhã publicarei o post 100 deste blogue, quando me parece que disse tão pouco, que fiz quase nada.

Andei durante algum tempo a pensar em como assinalar este marco e, por obra do acaso, deparei-me com o facto de estar para próximo o centenário do nascimento de Marguerite Duras que, talvez ainda não saibam, mas é a autora de um dos meus livros preferidos: “O Amante”. Celebrar o centenário desta autora polémica, com uma vida tão marcante e uma escrita arrebatadoramente poética, tornou-se um imperativo. O post número 100 do blogue, que será publicado amanhã, marcará por isso o início das comemorações do centenário de Marguerite Duras, com uma resenha sobre “O Amante”, inaugurando também a rubrica “Os livros da minha vida”. Durante o mês de Março falarei ainda de “Uma Barragem Contra o Pacífico” e de “Hiroshima Meu Amor” (o DVD do filme de Alain Resnais foi recentemente relançado pela Leopardo Filmes). E no dia 4 de Abril, o dia em que Duras faria 100 anos, haverá um post especial, de cariz mais biográfico.

Neste momento estou a acabar de reler “O Amante” (é a 4ª vez que o faço) e a cada nova leitura confirma-se a relação especial que me une a este pequeno livro, que em pouco mais de 120 páginas consegue revelar mais que muitos romances em 500 ou 600 páginas. A minha primeira vez com “O Amante” nem sequer foi com o livro, mas sim com o filme, que vi algures aos 16 anos e que me impressionou por uma indelével marca de melancolia que submergia todos os momentos, mesmo os que pareciam vergar-se perante a êxtase sexual. O fascínio pelo filme, converteu-se numa devoção ao livro, que se firmou nas primeiras linhas.


Duras. Duras viveu muito. Uma vida que implorava por ser escrita, por ser imortalizada na beleza onírica das palavras. Uma vida marcada por uma história, uma história que deu um livro. Cá vos espero amanhã!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Discurso Directo: Marguerite Duras, em tom confessional, sobre “O Amante”



“Éramos de uma grande brutalidade. A minha mãe não tinha educado os filhos. Éramos tal e qual, muito naturais. Reconheço-o nos meus irmãos e em mim. Éramos animais nobres, terríveis.”

(Marguerite Duras em entrevista a Bernard Pivot, no programa Apostrophes)