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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Em estado crítico: “Pastoral Americana” de Philip Roth


O homem comum. Os seus sonhos normais. O desejo de ser feliz, de viver uma vida pacata e envelhecer junto daqueles que mais ama. Philip Roth não escreve sobre homens excepcionais, prefere expor as excepcionais vidas dos homens banais, as suas frustrações, medos e ridículos. Mas em “Pastoral Americana” Roth vai mais longe: constrói o paradigma do sonho americano – um belo atleta louro abastado casado com uma ex-miss – apenas para o destruir. Uma destruição repentina e gratuita, como o costumam ser os acontecimentos que mudam vidas.

Os problemas da família perfeita de Seymour Levov, conhecido como o Sueco, começam com a gaguez da filha, Merry, que surge inexplicavelmente como uma premonição. Levov teme que aquele problema seja um reflexo de algo de errado que se passa com a sua filha, mas pouco consegue fazer para ajudá-la. Os seus sentimentos de culpa aumentam quando, num momento algo irracional, decide ceder aos pedidos da filha para a beijar na boca. Aquele instante é vivido por Levov como um incesto, um quebrar de regras que potencialmente terá aberto as portas à loucura futura.

Merry, frustrada com a gaguez, por se sentir aquém das expectativas dos pais, à medida que vai crescendo começa a desenvolver uma obsessão por questões políticas, mais especificamente pela Guerra do Vietname. Esse sentimento transforma-se rapidamente num repúdio do estilo de vida americano e daí até Merry se envolver com as pessoas erradas é um passo. Levov assiste passivo à perda da sua filha, sem a conseguir controlar, temendo que o pior possa acontecer. E acontece.

Uma bomba explode perto da casa dos Levov matando uma pessoa. De uma idealista radical Merry passa a criminosa procurada. A vida dos Levov é estilhaçada pela bomba, com o Sueco a passar dias e dias a tentar perceber o que correu mal. "Porquê? O que fiz eu para a minha filha se tornar numa assassina?" pergunta Levov, enquanto a sua mulher se afunda numa depressão e a filha se mantém em fuga.

Mas por muito interessante que o enredo do livro seja, há alguns problemas a que Roth não quis ou não conseguiu dar resposta. O período após o rebentamento da bomba caracteriza-se pelas constantes ruminações de Levov, um contínuo “onde foi que eu errei!” que se torna cansativo. E alega-se então “mas esse cansaço faz todo o sentido, porque expressa o cansaço da própria personagem, suscitando no leitor sentimentos semelhantes”, ao que eu respondo com uma velha máxima: a mestria de um escritor revela-se na capacidade de invocar algo sem que o texto tenha de ter essa mesma característica. Suscitar no leitor uma sensação de cansaço é uma coisa, tornar o texto ele próprio cansativo é outra.

Mas o meu grande problema nem sequer é esse. O que de facto me incomoda é a estrutura escolhida por Roth, que dá a sensação de projecto concluído à pressa. Na verdade o livro começa com Zuckerman, um colega de escola que nos revela o mito do Sueco adolescente, o judeu louro que todos conquistava. Zuckerman encontra-se com Levov algumas vezes durante a vida, e já velho ele contacta-o para lhe pedir ajudanuma homenagem que está a preparar para o pai. Depois disso, numa reunião de antigos alunos, Zuckerman encontra Jerry, o irmão do Sueco, que lhe conta que o irmão morreu e que a sua filha é a “bombista de Rimrock”. E a partir desse momento Zuckerman relata-nos uma história idealizada do que terá sido a vida do Sueco. Acontece que, após criar esta parte inicial, com personagens bem delineadas, com a própria vida de Zuckerman a ser-nos apresentada, o livro abandona totalmente este plano e centra-se até à última página na história do Sueco. O pobre leitor, em negação, espera que no final o círculo se complete e que haja uma espécie de reflexão centrada de novo em Zuckerman, o que nunca acontece.

Perguntamos então: para quê? Para quê criar uma história paralela para depois simplesmente a abandonar? Porque não então começar directamente com a narração da história de Levov, eliminando Zuckerman? E para estas perguntas não há resposta, ou pela menos uma satisfatória. É assim porque Roth assim quis que fosse. Mas nem sempre o que o escritor quer é o que é melhor para o livro.

Bem conscientes das desilusões que “Pastoral Americana” nos proporcionou, caminhamos para o final curiosos, sem saber muito bem como irá Roth terminar um livro tão reflexivo, com tantas questões e nenhumas respostas. E o final é estranho, de um estranho que nos faz reler aquelas breves páginas repetidamente à procura de uma mensagem encriptada. Mas aos poucos e poucos apercebemo-nos de que o que Philip Roth nos quer dizer é que a vida é feita de manifestações espontâneas e irracionais de violência e que nunca estaremos prontos para lidar com elas. Mas mais do que isso, há em toda a história de Levov uma mensagem quase fatalista: por muito grandes que os horizontes sejam, a pequenez da vida sobrepor-se-á, porque não há potencial que possa fugir à capacidade destruidora do mundo.

“Pastoral Americana” fala de um tema muito caro aos americanos: a América. O orgulho de ser americano e o ódio pelo que a América representa. A América como terra das oportunidades e como símbolo supremo do mal, uma existência em dois pólos antagónicos que Roth reproduz na perfeição. E por isso se fala deste livro como um dos seus melhores, talvez mesmo como a sua obra-prima. Mas é uma afirmação justa? Infelizmente não.“Pastoral Americana” é um livro bom, mas está longe de ser o melhor que Philip Roth pode fazer. 

Classificação: 16/20

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Em estado crítico: “Herzog” de Saul Bellow


Não se parte para a leitura de um livro de Saul Bellow com baixas expectativas. Considerado um dos maiores escritores americanos do século XX, conquistou o Nobel da Literatura em 1976, no mesmo ano em que recebeu o Pulitzer por “O Legado de Humboldt”. Mas foi “Herzog” que se tornou sinónimo de Bellow, o que aumenta o simbolismo da sua leitura. A grande obra de um dos maiores escritores, como não ficar ansioso? E talvez o problema seja esse, o esperarmos muito de “Herzog” e depois sentirmos que aquilo que nos dá empalidece perto daquilo que queríamos.

Não sendo um romance epistolar per si, mas sendo a narrativa permeada por missivas que Herzog mentalmente escreve a várias pessoas, fiquei logo no início com algumas reservas. A ideia de um romance recheado de cartas não me parece sedutora, mas resta sempre a esperança de que os preconceitos se revelem infundados e novas possibilidades se apresentem perante os nossos olhos. Não foi esse o caso: as cartas são parte significativa dos meus problemas com “Herzog”.

Moisés Herzog é um homem de meia-idade com o mundo em estilhaços. O recente fim do seu segundo casamento deixou marcas profundas, daquelas que só uma dupla traição consegue criar. Depois de ser convencido pela sua mulher, Madalena, a mudar-se para Chicago e de ajudar um amigo de ambos, Valentim, a encontrar trabalho nessa mesma cidade, Herzog é apanhado desprevenido pela revelação do caso que os dois mantém. Herzog percepciona Valentim como seu inferior em termos intelectuais e, em embora seja charmoso, tem uma deficiência física, o que juntamente com o facto de ser um amigo próximo contribui para exacerbar a humilhação sentida por Herzog. Neste contexto, as cartas mentais funcionam como catarse, uma espécie de autoterapia que ajuda Herzog a ir-se livrando das suas frustrações, apaziguado por um falso sentimento de acção. Mas as cartas tendem a ser divagações filosóficas, considerações desgarradas que interrompem o ritmo da narrativa e subtraem mais do que acrescentam.

E é uma pena que assim seja e que Bellow tenha dificuldades em criar conexões relevantes entre os diferentes momentos da história. É como se estivéssemos perante uma obra de arquitectura com divisões primorosamente construídas, ligadas por corredores em ruínas. De facto o talento de Bellow é inegável nos vários diálogos que vão surgindo ao longo do livro. Equilibrados, com uma carga de oralidade que lhes confere uma autenticidade inatacável e reveladores da complexidade de personagens que recusam a armadilha da bidimensionalidade. A visita ao advogado Sandor e à mulher do seu falecido pai são, por diferentes motivos, excelentes exemplos da perícia de Bellow, mas que funcionam como um contraponto às cartas desinteressantes e às descrições pouco inspiradas.

O frágil jogo de equilíbrio que Herzog se esforça por manter vai-se tornando insustentável e encaminha-se para um trágico desfecho, impedido apenas por um providencial momento de clarividência. Perante um choque emocional Herzog consegue questionar o caminho que decidiu percorrer e depressa se apercebe da dimensão do erro que se preparava para cometer. Num final magistral, que quase compensa as falhas do livro, Herzog volta à sua casa isolada no meio da floresta e reaprende a viver. Há melancolia, há mágoas, há dúvidas, mas há também um vislumbre de esperança. 

“Herzog” não é o livro que prometia ser, mas é uma boa leitura.

Classificação: 16/20

A versão que li é a da Biblioteca Sábado, mas a Quetzal publicou recentemente uma nova edição deste livro.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Em estado crítico: “Malone Está a Morrer” de Samuel Beckett


Mais por teimosia do que por estoicismo, avancei para a leitura do segundo livro da famosa trilogia de Beckett ainda com as agruras de “Molloy” vivas na cabeça. Não tinha grande esperança que a experiência com este livro fosse ser muito diferente, mas nas primeiras páginas ainda houve uma fagulha ínfima, rapidamente dragada pela escuridão.

Na verdade o que vos disse no passado sobre “Molloy” poderia ser exactamente o que vos digo agora sobre “Malone Está a Morrer”. Temos no centro da história um homem moribundo que, de forma entrecortada, nos vai contando a história de Sapo, que mais à frente passa a ser chamado de Macmann. À semelhança do que acontece no livro anterior, com o evoluir do livro e a progressiva fraqueza de Malone, o discurso vai-se tornando mais errático, os parágrafos tornam-se maiores, as ideias menos claras, e deixamos de perceber se a história que nos é contada é mesmo a de Macmann, ou se não se tratará da vida do próprio Malone.

Como disse a respeito de “Molloy”, reconheço o valor literário do que Beckett fez, embora para mim seja mais eficaz como um monólogo teatral do que como um romance. Beckett mimetiza de forma impressionante a mente confusa de um homem quase dominado pela morte, mas isso é mais uma qualidade técnica do que um argumento para considerar “Malone Está a Morrer” aquilo que não é: um grande romance. Ou talvez o seja para alguns, mas eu não revejo nos dois livros de Beckett o meu conceito de literatura, da literatura capaz de criar empatia, que me move do meu eixo e me faz sentir. Para mim “Malone Está a Morrer” é quanto muito um exercício intelectual bem-sucedido e não anseio pelo dia em que lerei “O Inominável”…

Classificação: 10/20

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Em estado crítico: “Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Márquez


“Ferido pelas lanças mortais das nostalgias próprias e alheias, admirou a impavidez das teias de aranha nas roseiras mortas, a perseverança da cizânia, a paciência do ar no radiante amanhecer de Fevereiro. E então viu o menino. Era uma pele inchada e ressequida que todas as formigas do mundo iam arrastando trabalhosamente para as suas madrigueiras pelo caminho de pedras do jardim.”


Aureliano e Amaranta Úrsula amam-se numa casa vazia. Nas divisões tomadas pela natureza, onde ainda deambulam os fantasmas dos seus antepassados, não restam recordações dos tempos de prosperidade em que a estirpe dos Buendía comandava Macondo, a pequena povoação que José Arcadio Buendía ajudara a construir, e que mais tarde seria visitada por uma família de ciganos que lhes apresentaria o gelo.

Ignorando que são tia e sobrinho, Amaranta Úrsula e Aureliano amam-se, sem que nas suas cabeças ecoem as advertências de Úrsula de que da união de membros da mesma família nascerão crianças com rabo de porco. Entregues um ao outro, olham como uma miragem para as histórias do destemido Coronel Aureliano, que todos pensam ser um mito, mas já não restam nas suas memórias vestígios da infeliz Amaranta que por medo se recusou a viver os grandes amores que a vida parecia disposta a proporcionar-lhe. Aos poucos e poucos esquecem também Remédios, A Bela, sua tia, com a sua nudez inocente e uma existência tão sobre-humana que ninguém se espantou quando levitou em direcção ao céu e se perdeu no infinito azul celestial.

Ao ficarem apenas os dois, Amaranta Úrsula e Aureliano concretizam a solidão da sua linhagem, que anos antes era camuflada pelas múltiplas figuras fortes que habitavam a casa e o ritmo frenético a que se sucediam os acontecimentos marcantes. Uma solidão que é a de quem não é livre para viver uma vida pacata, dominado por vezes por um desejo de viver excessivamente, outras vezes por uma ânsia de descobrir os grandes mistérios da criação do ouro ou de desvendar os pergaminhos deixados por um sábio cigano.

Gabriel García Márquez queria criar um livro que contivesse em si todo o mundo e conseguiu-o. Os cem anos de solidão dos Buendía são um arquétipo dos efeitos do tempo e da evolução histórica. Com as suas personagens com nomes semelhantes, como se cada novo Buendía se escondesse na sombra dos seus predecessores, tentando enganar-nos, é como se García Márquez recriasse o princípio de Lavoisier e a história não fosse mais do que uma constante transformação do já existente, em que as mesmas figuras surgem com pequenas diferenças e os factos do passado se recriam continuamente, numa vertiginosa rota decadente.

Cem Anos de Solidão”, editado em Portugal pela Dom Quixote, é de uma perfeição cristalina. Uma obra esculpida com as memórias da infância de García Marquéz em Aracataca, no mundo místico da casa dos seus avós, em que a cadência narrativa e a gestão da acção revelam os quase divinos talentos do escritor. E como esquecer Rebeca Montiel, a devoradora de terra e de cal das paredes, Pilar Ternera, que das sombras ajudou a moldar a família, Santa Sofia de la Piedad, sempre presente e no entanto quase como se não existisse. José Arcadio, o gigante tatuado que partiu com os ciganos, Aureliano Segundo, o bondoso homem com uma vida dominada pelos excessos, Fernanda del Carpio, a nobre e severa mulher que se correspondia com médicos invisíveis e Mauricio Babilonia, o trágico apaixonado com o seu rastro de borboletas amarelas? Como esquecer a peste da insónia, as infindáveis guerras travadas pelo Coronel Aureliano, a chegada do comboio, a plantação de bananas, a chuva que durou quatro anos, onze meses e dois dias, a entrega de vários membros da família à descodificação dos pergaminhos de Melquíades, Rebeca Montiel velha só numa em casa em ruínas esperando a morte?

As últimas páginas de “Cem Anos de Solidão” são uma ode assombrosa, como se um furacão tomasse conta do mundo e Macondo se preparasse para desaparecer. Chegamos ao fim sem fôlego, fechamos o livro hesitantemente, mas não conseguimos fugir à imagem do ancião José Arcadio Buendía preso à árvore. Perdido no seu mundo, talvez pensando sobre o destino da sua família. Só, como convém a um Buendía.

Classificação: 20/20

terça-feira, 21 de abril de 2015

Em estado crítico: “O Amor nos Tempos de Cólera” de Gabriel García Márquez


Dúvidas. Tenho muitas dúvidas. Termino a leitura de “O Amor nos Tempos de Cólera”, editado em Portugal pela Dom Quixote, e questiono-me se o amor é mesmo uma das peças centrais deste livro. Vejo nele mais de obsessão e entrega resignada do que de amor, o que é estranho quando deveríamos estar na presença de uma das grandes histórias de amor da literatura.

Com amor ou sem ele, o que não há certamente é romantismo neste livro. Mesmo um acto como a escrita contínua de cartas sem obter resposta (algo recorrente nos livros de García Márquez) torna-se questionável quando falamos de duas pessoas que na verdade não se conhecem, que raramente se viram, e que pouco ou nada sabem um do outro. Fermina Daza e Florentino Ariza são dois estranhos, o que me leva a pensar que o que Florentino ama é a ideia de amar Fermina. De resto, é recorrente no livro que os acessos de amor adquiram características de doença, febres e vómitos que mais parecem uma manifestação de cólera do que amor. Talvez o amor seja uma espécie de cólera, talvez…

Inspirado na história de amor dos seus pais, Gabriel García Márquez relata-nos uma longa e extenuante dança entre Fermina Daza e Florentino Ariza, que culminará quando já velhos se reencontrarem. No dia que Juvenal Urbino morre, Florentino aproveita a condição de viúva de Fermina para uma última tentativa, como se os longos anos que os levaram àquele momento fossem apenas uma preparação para o que o futuro lhes reservava.

Velhos, juntam-se resignadamente na sua destruição. Mas não é um novo começo que temos, mas sim um fim suspenso, e talvez seja esse um dos problemas de “O Amor nos Tempos de Cólera”, o preparar-nos para um grande amor que nunca se concretiza. Para uma história de tão grande fulgor, faltam-lhe intensos rasgos emocionais, nunca saindo de um decepcionante estado morno bem patente na desistência final em enfrentar o mundo.

Quando Gabriel García Márquez diz que “O Amor nos Tempos de Cólera” é o seu livro que ficará, o melhor que produziu, e sabendo nós que existe “Cem Anos de Solidão”, é impossível não partir para a leitura deste livro com elevadíssimas expectativas. E é difícil conseguirmos depois olhar para ele sem o associar à desilusão. Não me entendam mal: “O Amor nos Tempos de Cólera” é um bom livro, mais um exemplo do incomensurável talento narrativo de García Márquez, cheio de personagens e pequenas histórias interessantes, mas que empalidecem por comparação a “Cem Anos de Solidão”, sem serem capazes de igualar a sua carga simbólica. Um bom livro, sem dúvida, mas apenas isso.

Classificação: 16/20

domingo, 19 de abril de 2015

Em estado crítico: “Crónica de uma Morte Anunciada” de Gabriel García Márquez

“No dia em que iam matá-lo, Santiago Nassar levantou-se às 5h30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava uma mata de figueiras-bravas, onde caía uma chuva miúda e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros.”


Enunciar de forma banal factos que irão ocorrer no futuro é um recurso comum no realismo mágico e uma característica que sempre me espantou. Quando menos esperamos, sem que tenha havido um cuidado em preparar-nos para o que vai acontecer, lemos uma frase lacónica que nos revela o destino de uma personagem, muitas vezes a sua morte, várias páginas antes de se concretizar. “Crónica de uma Morte Anunciada”, editado em Portugal pela Dom Quixote, leva esse conceito ao extremo ao revelar-nos na primeira frase a morte de Santiago Nassar. E se a primeira frase deixa uma margem mínima para a dúvida, Gabriel García Marquéz assegura-se o que o leitor não sai do primeiro capítulo sem certezas. “Já o mataram”, assim termina a primeira parte desta crónica.

O livro não se foca portanto no que vai acontecer, o leitor não percorre as páginas antevendo um final porque o conhece de antemão. A ideia é outra, a de estimular o interesse pela revelação dos detalhes que levaram aos acontecimentos. Há por isso um relato factual, sem espaço para grandes considerações morais ou de enquadramento. Aos poucos vamos sabendo que Santiago Nassar foi morto pelos irmãos de Angela Vicario, cujo casamento com Bayardo San Román se deu no dia anterior. Na noite de núpcias Bayardo descobre que Angela já não é virgem e devolve-a à casa da sua família e Angela, pressionada a nomear o homem que a desonrou, profere o nome de Santiago Nassar.

Nunca saberemos se a sua acusação é verdadeira. O que se torna óbvio é que há dois elementos a conspirarem contra Santiago Nassar: a honra e o destino. A noção de honra é uma das forças propulsoras que conduzem a narrativa ao seu cenário final. Os irmãos de Angela agem sem estar dominados por uma vontade de vingança e tomam todas as providências para que a morte de Santiago possa ser evitada. Esperam-no num local público, informam todos sobre as suas pretensões, rogando no seu íntimo que alguém o avise atempadamente e possam sair daquela situação com a honra da sua família intacta e Santiago com a sua vida.

O desejo dos irmãos de Angela de que algo os impeça de executar aquilo que a sociedade espera deles esbarra com uma força demolidora: o destino. Santiago tem as probabilidades a seu favor, mas o destino procura vorazmente a sua morte e assegura-se que todos os passos que dá sejam os errados e que o conduzam às facas empunhadas pelos irmãos de Angela. Num golpe de má sorte, quando se encontra a poucos metros de entrar na sua casa e escapar aos seus assassinos, a porta é fechada pela sua mãe que o crê em casa e que pensa estar assim a evitar que os homens o encontrem. Plácida Linero determinará com esse gesto o fatal destino do seu filho.

A morte de Santiago Nassar torna-se ainda mais cruel quando descobrimos que anos mais tarde Angela e Bayardo se reencontram e vivem por fim o seu amor. Para trás fica um rastro de cartas por ler,que Angela endereçou a Bayardo durante anos, e a desnecessária morte de um homem condenado pelo destino e não pelos actos.

Gabriel García Márquez consegue transformar uma história simples num livro marcante para todos os que o leiam, em grande parte pela mestria com que nos conta a história, com que manipula a narrativa para que vivamos a mesma história de diferentes ângulos. Revela-nos prontamente a morte de Santiago Nassar porque tem a força de um facto, embora não tenha ainda acontecido. No fim, os homens são sempre fracos perante o fado caprichoso que os domina.

Classificação: 18/20

terça-feira, 7 de abril de 2015

Em estado crítico: “Contos Completos - Quase Sem Memória” de Lydia Davis


O desafio de escrever pequenos contos em que o significado complexo e a profundidade emocional extravasam em muito o número de caracteres usado faz de Lydia Davis uma escritora muito particular. Não que seja sempre bem-sucedida, e “Quase Sem Memória” está repleto de exemplos em que não o é, mas nos momentos em que tudo se alinha geram-se momentos de um grande fulgor literário, em que nos espantamos por alguém conseguir fazer tanto com tão pouco, produzir em poucas páginas o que muitos não conseguem em romances longuíssimos.

“Quase Sem Memória” vive do presente, da emoção momentânea, de uma espécie de entrega inconsequente aos impulsos. Não há pretensões de tentar perceber, de colocar factos em perspectiva. Não há passado, há o agora e isso basta. “Carne, o Meu Marido” é disso um excelente exemplo, sendo um ilustre representante dos contos de mulheres psicóticas, uma categoria em que Davis é mestre. O conflito base é simples e do mais mundano que pode haver: uma mulher que quer impor as suas escolhas gastronómicas saudáveis ao marido e que se ressente pela sua falta de entusiasmo. Apesar de a mulher saber de antemão quais as preferências do marido e que aquilo que lhe quer impor as viola por completo, jamais há uma atitude de compreender a perspectiva do marido e pensar que naquele caso talvez seja ela o elemento pouco sensível. Para ela o que importa é que ele não gosta do que ela lhe quer impor e isso tolda qualquer visão racional sobre o tema, chegando ao ponto de achar que ele só não gosta das suas propostas culinárias porque partem dela, havendo portanto uma animosidade inconfessável em relação a si.

“Jack no Campo” é um divertido exemplo da dedicação a intensas emoções espontâneas, em que o mero acto de Henry, que ocasionalmente encontra Jack na rua, lhe perguntar por Laura gera uma série de mal-entendidos, sem que ninguém nunca tente perceber o que se passa. Num jogo de palavras em que os nomes de Henry, Jack, Ellen e Laura são constantemente repetidos ao longo das poucas linhas que constituem o conto, manifesta-se a irritabilidade e o carácter complexo das intensas emoções envolvidas numa história que de facto não tem importância nenhuma.

Um dos melhores contos deste conjunto é sem dúvida “Os Ratos”, curiosamente um dos mais pequenos, porque é um arquétipo do conto de Lydia Davis. De um bom acontecimento, os ratos não atacarem a casa do narrador, gera-se um mau sentimento: porque não atacam a sua casa e atacam a do vizinho? Ainda por cima a casa do vizinho está mais limpa! A opção aparentemente benéfica dos ratos converte-se num símbolo de desdém, quase como se houvesse uma decisão racional, um desejo intencional de os desprezar. A inveja e a mania da perseguição são elevadas a um extremo de loucura.

Num registo já bastante diferente, mas também muito interessante, “As Bisavós” é um conto mais surrealista em que, ao se esquecerem das bisavós a apanhar Sol, as encontram metamorfoseadas, como se fossem uma substância e não seres vivos. Tudo apresentado numa perspectiva meramente descritiva, sem qualquer tipo de emoção ou sentimento de estranheza.

Há outros contos bons em “Quase Sem Memória”, o segundo livro integrado nos “Contos Completos” editados em Portugal pela Relógio D’Água. Infelizmente há também muitos contos irrelevantes e, pior do que isso, muitos contos que se esgotam em jogos de palavras, um esquema que Davis usa frequentemente e que consiste em repetir frases semelhantes mas com alterações que lhes transformam o sentido. Por isso “Quase Sem Memória” não é um livro incontornável, embora o sejam alguns dos seus contos.

Classificação: 14/20


(Este é o segundo de uma série de quatro artigos sobre “Contos Completos” de Lydia Davis, pulicado em Portugal pela Relógio D’Água. Cada artigo incidirá sobre um dos livros individuais contidos nesta colectânea, tendo “Acerto de Contas” sido o centro do primeiro artigo.)

terça-feira, 10 de março de 2015

Em estado crítico: “Dora Bruder” de Patrick Modiano


Recordaremos Dora Bruder? Olharemos para as ruas que ela percorreu e veremos a sua sombra a projectar-se nas paredes, as suas passadas adolescentes a dançarem sobre as pedras da calçada? Sentiremos a sua presença e sem a ter visto saberemos quem ela é?

A ideia de que Modiano partiu para criar “Dora Bruder” reserva em si uma perfeição serena, a verdadeira essência da memória e da tentativa de recuperar os mundos que se perderam na voracidade do tempo. Um homem, o narrador do livro, lê num jornal antigo um anúncio em que os pais de Dora Bruder procuravam a sua filha desaparecida e decide tentar descobrir quem é aquela rapariga de 15 anos e que sorte lhe estava reservada. Não é em Dora Bruder que o livro se centra, nem no narrador, quanto muito será na procura em si, com o narrador a permanecer quase sempre distante, escudado nos relatos factuais das poucas descobertas que vai fazendo.

Ao investigar percebe que alguns locais de Paris que fizeram parte da vida de Dora, foram também ruas percorridas por si, casas para que olhou diariamente, sítios que tão bem conhece, sentindo a melancolia de quem passou por aqueles espaços desconhecendo a sua história. A nostalgia de perceber que os locais sobreviverão sem memórias de quem os habitou, como se sempre tivessem permanecido vazios antes de entrarem na nossa vida.

Pouco ficaremos a saber do narrador. Há uns breves relatos sobre o seu pai, que o abandonou na juventude e que nunca viria a reencontrar. Nesta história, neste desaparecimento do pai, podemos antever as motivações para descobrir o que aconteceu a alguém que, em vez de procurar os pais, era procurada por eles. Mas a verdade é que Modiano não nos alimenta essas interpretações, não as impede, mas certamente não nos dá material suficiente para as sustentarmos.

É aliás esse o problema de “Dora Bruder”: o quão desconstruída é toda a narrativa. Modiano apontou para a simplicidade, mas exagerou e caiu no simplismo. “Dora Bruder”, partindo de uma ideia genial que tinha tudo para gerar um livro que, ao contrário da rapariga que lhe deu o nome, perdurasse, acaba por ser pouco mais do que meia dúzia de factos recolhidos e apresentados de forma muito ligeira, como se estivéssemos a ler as notas despreocupadas no caderno pessoal de um investigador.

Para não esquecermos “Dora Bruder” precisávamos de mais. Precisávamos de um momento de génio que resgatasse o livro de uma existência tão ténue que quase nos desaparece nas mãos. Modiano não me convenceu desta vez.

Classificação: 13/20


Nota: este livro foi editado originalmente em Portugal pela Edições ASA (sendo essa a minha edição), mas o livro foi recentemente republicado pela Porto Editora.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Em estado crítico: "Os Escritores (Também) Têm Coisas a Dizer" de Carlos Vaz Marques


O que faz de alguém um bom entrevistador? Equilíbrio, equilíbrio, equilíbrio. O bom entrevistador conjuga de forma equilibrada elementos que parecem antagónicos mas que, quando usados com perícia, conseguem criar momentos inesquecíveis. O bom entrevistador está bem preparado, conhece bem o entrevistado e o tema, sabe que perguntas quer fazer. Mas um entrevistador controlador e rígido nunca vai além do interrogatório, não se criando o ambiente de descontracção e empatia necessários para que o entrevistado se sinta seduzido a partilhar. E por isso o entrevistador tem de ser também um bom ouvinte, estar disposto a embarcar na viagem com o entrevistado, a seguir por um caminho que surja na conversa, mesmo que o seu plano inicial não fosse esse. Mas sem tirar os olhos do ponto ao qual quer chegar, caso contrário a entrevista torna-se apenas numa conversa flutuante e pouco frutuosa.

Sendo empático e conciliador, é fundamental que o entrevistador seja também ousado, que não se deixe inibir pela pessoa que tem pela frente e perceba qual é a pergunta a que aquela pessoa não quer responder. Porque por vezes é necessário desafiar o entrevistado para que ele saia de trás da sua muralha e revele algo de genuíno. Mas para além de tudo isto, o que um bom entrevistador precisa é de um bom entrevistado, porque se há coisa dolorosa é ver alguém a fazer perguntas interessantes que a outra pessoa não tem capacidade de responder.

Felizmente em “Os Escritores (Também) Têm Coisas a Dizer”, editado pela Tinta-da-China e que compila doze entrevistas publicadas na revista “Ler”, temos o melhor de dois mundos: um excelente entrevistador, Carlos Vaz Marques, com excelentes entrevistados. Dificilmente se conseguiria criar um grupo de escritores portugueses mais significativo do que Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes (já falei o suficiente sobre a sua entrevista, portanto não vou voltar a fazê-lo, mas é uma entrevista interessante, apesar do entrevistado…), José Saramago, Eduardo Lourenço, António Tabucchi, Mia Couto, Valter Hugo Mãe, Mário de Carvalho, Gonçalo M. Tavares, Dulce Maria Cardoso, Manuel António Pina e Hélia Correia. Mas deste grupo há algumas entrevistas que se destacam.

Agustina é uma pessoa muito particular. Manuel António Pina na sua entrevista, uma das melhores deste conjunto em que é levantado um pouco o véu sobre os bastidores do mundo literário, inclui Agustina no grupo das estátuas da literatura portuguesa e o que ele quer dizer fica bastante claro quando ouvimos o que a escritora tem para dizer. Há em Agustina um carácter absoluto, com afirmações fortes que têm quase uma aura de lei. E é com um tom cândido e sereno que diz que J. K. Rowling não é a verdadeira autora de “Harry Potter”, tendo por trás um escritor-fantasma. E diz também que Stephen King tem um negro (escritor não identificado que escreve partes dos seus livros) e que ela consegue facilmente identificar as partes escritas por um e pelo outro.

No pólo oposto a Agustina temos um Eduardo Lourenço humilde que, após uma intensa insistência de Carlos Vaz Marques, acaba por confessar que nunca pensou escrever ficção ou poesia por se sentir inibido perante o talento dos escritores que admira. Lourenço prefere por isso falar de Pessoa, de Sá-Carneiro ou de Llansol, da grande poesia que considera que “nos oferece um mundo no qual a vivência deste se altera em cores e dimensões não sonhadas”.

A entrevista de Saramago surge no livro logo após a de Lobo Antunes. Uma escolha inocente? Não sei, mas a verdade é que é extremamente útil porque nos dá uma visão muito concreta das diferenças de postura dos dois escritores. Em Saramago nota-se a simplicidade de quem não se perde no auto-elogio, nem em ataques gratuitos a outros escritores. Diz-nos Saramago: “um livro é uma barca deitada ao mar, sem tripulação nem destino. Lança-se ao mar e depois logo se vê o que acontece. No meu caso, posso-lhe dizer que tive sorte. Sou uma pessoa que admite a importância do factor a que chamamos sorte, Ter aparecido no momento exacto. Talvez até com a obra exacta.”

Há duas entrevistas de que gosto particularmente. Uma delas é de Mia Couto, que fala sobre a importância de esquecer para escrever, uma vontade de olhar em frente e descobrir novos caminhos que é muito interessante. Mas mais do que isso, Mia Couto apresenta-nos a perspectiva de um branco com pais portugueses no processo de independência de Moçambique, a desconfiança com que era tratado mesmo assumindo-se como apoiante do movimento. E há também a descrição da sua visita à casa em que viveu em criança, o encontro com um homem com parecenças incríveis com a personagem principal de Jesusalém e a surpresa de muitos ao perceberem que ele não é uma mulher negra.

E depois há Valter Hugo Mãe e uma das entrevistas mais sui generis que alguma vez leremos de autores portugueses. Há um despudor que às vezes é quase incómodo. A forma como Valter Hugo Mãe cresceu com a consciência da morte do seu irmão, a ideia de que morreria a primeira vez que alguém lhe dissesse que o amava, a necessidade catártica que teve de se fotografar nu para lidar com o desnudamento emocional na sua poesia, o descaramento com que diz desejar fazer amor com os ossos de Camões por se sentir tão excitado com o seu talento. Eu, que até então tinha bastantes reservas em ler os seus livros, fiquei com muita vontade de fazê-lo.

Carlos Vaz Marques proporciona-nos nestas doze entrevistas uma viagem pelas paisagens íntimas de figuras incontornáveis da literatura portuguesa, dando ao nome nas capas dos livros uma voz, uma fisionomia psicológica que nos revela pistas sobre aquilo que lemos. Um livro para ler, reler e reflectir.

Classificação: 19/20 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Em estado crítico: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” de José Saramago


“Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és os meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.”


Da cera das velas ardidas a Igreja foi criando as suas grandes figuras, que como ídolos de barro presidem à História, destituídas do direito mais fundamental que cada um possui: o de ser humano e poder escolher. Maria e Jesus viram a sua humanidade ser-lhes recusada. Maria foi até expurgada da sua sexualidade, trocando a natural fecundação pela imaculada concepção. Nem o direito de gerar um filho como as outras mulheres Maria teve, tal como Jesus, o filho de um acto ascético, viu ser-lhe negada a possibilidade de falhar, sentir e optar. Saramago restituiu a Maria e a Jesus a sua dignidade enquanto seres humanos e apresenta-nos um Evangelho escrito pela perspectiva de Jesus, não porque ele o narre, mas porque são os seus interesses que estão no centro da história e não a caprichosa vontade divina.

Saramago realiza na escrita deste livro um acto de enorme coragem, não só pelo quão herético é tudo o de nos apresenta (segundo as crenças da Igreja), mas por agarrar na mais conhecida história do mundo cristão e ousar recriá-la como se usasse as mesmas notas, mas produzisse uma música diferente, com laivos enevoados da original.

Maria tem vários filhos, todos fruto de actos carnais, sendo Jesus o mais velho de todos. Todas as figuras têm virtudes, mas têm também as suas falhas. Jesus é pouco mais do que um adolescente tradicional quando se rebela contra os seus pais, afastando-nos da mente a figura piedosa idealizada, incapaz de perdoar ao pai morto uma falha e acusando a mãe de conivência, deixando-a à sua sorte com vários filhos para criar. Mas também Maria errará quando Jesus voltar para lhe revelar a sua ligação com Deus, não acreditando nele, que contará com maior apoio de estranhos do que da sua própria família,

Jesus é a cada pulsar um homem, não uma figura seráfica, capaz por vezes de grandes actos, como a recusa em sacrificar o cordeiro, mas que não renega os seus impulsos, mesmo os carnais. A relação entre Jesus e Maria de Magdala é um amor plenamente vivido e celebrado fisicamente e é a relação de maior transcendência e pureza do livro, havendo uma ligação espiritual entre os dois que faz com que Jesus esteja disposto a tudo enfrentar por ela, e ela a tudo abandonar por ele. É o Jesus compreensivo e que ama o próximo que não condena Maria da Magdala pelo seu passado e que a trata com um respeito proporcional à devoção que ela lhe vota.

Mas de nada serve a Jesus ter vontade porque no fim não terá como escapar aos ambiciosos planos de Deus, disposto a tudo para alargar a sua influência. Para Deus tudo não passa de um jogo de xadrez e Jesus é uma peça que ilusoriamente pensa poder escusar-se a fazer parte do jogo. Num acto de desespero, tentando corrigir o que se adivinha inadiável, Jesus acredita que se puder morrer como aspirante a Rei dos Judeus e não como filho de Deus a sua morte não servirá os planos divinos. Mas não  tardará muito a perceber que tudo o que fizesse o levaria àquela cruz, cruelmente privado por Deus da sua vontade, como nos séculos vindouros o será por multidões fanáticas que cumprirão as imagens que lhe foram reveladas quando foi convidado a juntar-se a esta empresa pela glória terrestre.

“O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é um acontecimento literário por direito próprio, um livro que será lido por anos e anos, sem perder a sua pertinência. A voz de Saramago eleva-se e adquire proporções mitológicas, como se um eco profético se apoderasse do leitor. Saramago reconta-nos uma história, mas acima de tudo dá-nos uma lição e pobres daqueles que não a conseguirem perceber. Um livro acima do céu e da terra.


Classificação: 20/20

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Em estado crítico: "No Café da Juventude Perdida" de Patrick Modiano


“A partir daquele momento, houve uma ausência na minha vida, um clarão que não só me causou uma sensação de vazio, como me impediu de ver. Toda aquela claridade cintilava em mim como uma luz viva, radiosa. E assim será, até ao fim.”


À deriva. Caminhando por ruas sem destino, na esperança de que o acaso nos leve a um lugar em que haja um sentido maior que se evidencie e que nos revele quem somos, o que devemos fazer, o porquê das coisas terem acontecido assim. E que essa descoberta nos dê o oxigénio que necessitamos para continuar, para que as miragens se convertam em realidade e das frustrações nasçam forças.

Modiano fala-nos em “No Café da Juventude Perdida” sobretudo de identidade. A memória, elemento comummente associado à sua obra, tem o seu contributo, mas que é secundário face às preocupações existencialistas condensadas na jovem Louki, que um dia, inesperadamente, entra na vida dos clientes habituais do café Condé. Louki? Ou devemos antes dizer Jaqcqueline Delanque? Logo no nome da protagonista a problemática começa-se a evidenciar. Jacqueline deixa que a clientela do Condé a trate por Louki, sem nunca os corrigir, porque no fundo um ou outro nome não fazem a diferença, ela continua sempre a ser a rapariga sem pai, com uma mãe distante, que a deixou deambular sozinha pelas ruas, a tentar encontrar respostas.

Na rua Jacqueline conhece Jeannette, apropriadamente conhecida como Caveira, e naquele momento o seu destino sela-se. Modiano não é muito claro sobre o que une as duas raparigas, deixam-se no ar insinuações de que pode ter ocorrido um episódio de violência sexual com dois conhecidos, mas nada é dito com clareza. O que sabemos é que a presença de Jeannette suscita em Jacqueline más recordações e que há uma certa tentativa de distanciamento quando decide casar com um homem que conhece mal, sem muitas mais razões do que ele afirmar que quer cuidar dela.

Mas o casamento é mais uma deambulação de Jacqueline e apenas serve para que tenha a certeza que aquele não é o seu lugar. E do casamento foge para umas sessões sobre ciências ocultas e, finalmente para o Condé, conhecendo pelo caminho Rolland que, curiosamente ou não, também não é conhecido pelo seu verdadeiro nome.

O percurso de Jacqueline até se tornar em Louki, a namorada de Rolland, é-nos apresentado por Modiano neste breve livro, divido em cinco partes, com a perspectiva de quatro personagens. Modiano, que é frugal na escrita, opta por uma construção da narrativa um pouco mais complexa e sobre a qual tenho algumas dúvidas, porque acredito que se a visão de Rolland ocupasse todo o livro o resultado final seria melhor. Na verdade Modiano é desde o início muito bem-sucedido na construção do ambiente, na espécie de sedução mística em que envolve a figura de Louki, na comunhão na desorientação que caracteriza os clientes do Condé. Mas a verdadeira dimensão do livro só se revela quando Rolland assume o controlo e deixamos de ter uma história interessante para termos algo que pressentimos ter um significado mais profundo.

Mas, contas feitas, que revela “No Café da Juventude Perdida”, o romance que a revista Lire considerou o melhor publicado em 2007, sobre as qualidades de Patrick Modiano? Diz muito. A suavidade de Modiano, a simplicidade da sua escrita, parecem à partida converterem-no num escritor olvidável. Mas é exactamente através dessas dimensões da sua escrita, que ele domina magistralmente, que consegue criar um elo com o leitor, talvez porque de início nos convença que vamos ler um livro emocionalmente distante e contido e, quando baixamos as guardas, nos surpreenda com uma intensidade cirúrgica de beleza delicada. Modiano promete!

“No Café da Juventude Perdida”
Patrick Modiano
Edições ASA

Classificação: 17/20

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Em estado crítico: “O Jogo do Mundo (Rayuela)” de Julio Cortázar

“(…) beijaram-se e morderam-se ligeiramente porque as suas bocas não se reconheciam, beijavam bocas diferentes, procurando-se com as mãos numa teia infernal de cabelo suspenso.”

Julio Cortázar in “O Jogo do Mundo (Rayuela)”


Lemos livros. Muitos livros. De alguns só nos lembramos do título. De outros lembramo-nos como se os tivéssemos acabado de ler. Muitas vezes esquecemo-nos de quando os lemos, dos caminhos que percorremos com eles nas mãos, do ponto em que nos encontrávamos nas nossas vidas quando abrimos as suas primeiras páginas. Mas nunca poderemos esquecer os dias vividos ao lado de “O Jogo do Mundo (Rayuela)”, editado em Portugal pela Cavalo de Ferro, da descoberta de uma nova forma de ler, diferente de tudo, percorrendo um caminho projectado por Julio Cortázar sem que ele próprio soubesse ao certo a que destino nos faria chegar.

No começo do livro há uma pequena nota, com o título “Tábua de Orientação” e é aqui que Cortázar nos informa que o livro que vamos ler será construído por nós. Estamos numa bifurcação e dois caminhos apresentam-se perante nós: podemos ler os primeiros 56 capítulos do livro pela ordem apresentada e esquecermos os restantes 99 que Cortázar apelida de “Capítulos Prescindíveis” ou, em alternativa, propõe-nos seguir uma tabela idealizada por ele, em que o livro começa no capítulo 73 e termina no 151, sendo apresentado no final de cada capítulo aquele que deverá ser lido em seguida. Como resistir a uma proposta tão tentadora, à estranheza de ler um livro por uma ordem aparentemente desordenada? Sem pensar duas vezes, abri o livro no capítulo 73 e entrei no labirinto.

Na verdade a proposta de Cortázar não é totalmente caótica e aleatória, o que a sua tabela propõe é manter a sequência dos 56 capítulos principais, colocando entre eles os capítulos dispensáveis, que vão concedendo novas luzes interpretativas para o núcleo da história.

No início encontraremos Oliveira em Paris, entretido com Maga e um grupo de amigos intelectuais. Mais tarde Oliveira estará em Buenos Aires e apenas Talita e Traveler lhe restarão. Mas falemos de Maga, a mulher que causou em Oliveira uma impressão tão profunda. Maga era um elemento deslocado naquele grupo, não lhe permitindo a sua cultura acompanhar as muitas referências atiradas entre amigos, embora demonstre interesse por conhecer tudo e perceber aquilo de que se falava. Mas se Maga desejava ter a cultura de Oliveira, este inveja-lhe a capacidade de sentir. Maga experiencia o mundo sem reservas, rendendo-se espontaneamente ao legado dos sentidos, enquanto Oliveira procura perceber o sentido de tudo, um sentido que compreende transcender a razão, mas que ele procura racionalizando. Maga vive. Oliveira pensa.

Os impressionantes acontecimentos que levam à dissolução do grupo e à partida de Oliveira para Buenos Aires são uma procura desesperada pela capacidade de sentir. Oliveira atira-se contra tudo na esperança de derrubar a muralha que se construiu entre ele o mundo e que, nesse processo, o absurdo da existência se lhe revele. E por isso regresse a Buenos Aires, a sua casa, à procura de algo indefinível, junto de Talita e de Traveler.

Nos capítulos dispensáveis Cortázar fala-nos do escritor Morelli e deparamo-nos com o seu projecto de criar um livro de ordem variável, e é como se de repente o livro entrasse dentro do livro, e os limites entre realidade e ficção estivessem em causa, prática comum em Cortázar. Morelli dá-nos luzes sobre o próprio livro que Cortázar escreve. Diz-nos que procura no livro uma espécie de resposta energética, não narrativa, mas enunciada de forma narrativa. Suficientemente claro? Talvez não, mas talvez o que o enunciado pretenda é transmitir de forma narrativa a dimensão de absurdo de que Oliveira falava e que se encontra para lá da razão, numa espécie de impulso primitivo. Impulso primitivo que também se encontra no sexo entre Oliveira e Maga. Procuraria Oliveira nesse momento uma espécie de iluminação?

Uma pérola escondida nos capítulos dispensáveis é Ceferino e a sua proposta para a organização do mundo em categorias estanques, uma hilariante passagem que quem se limitar ao essencial perderá. Mas a teoria de Ceferino não é apenas um instrumento de diversão, conservando em si uma questão profunda sobre as convenções. Não serão todas as tentativas de categorização, todos os processos de profunda racionalização ridículos por definição? Haverá assim tanta diferença entre as propostas de Ceferino e as catalogações aceites pela sociedade? Mais uma vez, Cortázar não nos dá respostas.

E também no final não nos responde. Alude-se a uma cegueira, mas será pior a cegueira de quem vive ou a visão de quem procura as grandes respostas? A cegueira é um mal ou é uma bênção? O livro termina num movimento circular, como uma fita áudio que chegou ao fim e roda infinitamente sobre si mesma. Uma alegoria da vida?

O que tem “O Jogo do Mundo (Rayuela)” de especial? Cabe-vos a vós, a cada um dos leitores descobrir, encontrar as vossas perguntas e as vossas respostas no elaborado labirinto criado por Cortázar. Um labirinto que não é um mero exercício intelectual, mas o colocar numa forma a questão fundamental, a do sentido de tudo. Se é que esse sentido existe.


Classificação: 19/20

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Em estado crítico: “Gostamos Tanto da Glenda” de Julio Cortázar


Gostar é perigoso. Gostar pressupõe ter expectativas, conceber ideais com os quais se confronta a realidade. Mas acima de tudo gostar implica um investimento, uma entrega, o que poderá constituir uma fraqueza fatal. Com uma tendência natural para se preocupar com o lado emocional, Julio Cortázar explora nos 10 contos de “Gostamos Tanto da Glenda”, editado em Portugal pela Cavalo de Ferro, as enfatuações emocionais nas suas diversas formas e as suas consequências imprevisíveis.

Gostamos Tanto da Glenda, o conto que dá o nome ao livro, deixa uma mensagem clara: o amor pode ser uma porta para actos ignóbeis, quando o objecto do amor não se comporta de acordo com o que é esperado. Assim, passamos de um grupo de fãs de Glenda, uma famosa actriz, capaz de fazer tudo para que ela seja bem-sucedida, para de repente termos um grupo disposto a matá-la em nome desse suposto amor, para que não estrague a imagem de perfeição criada para si.

Um perigo diferente é o de Orientação dos Gatos, em que é o olhar frontal de Alana, a mulher amada que, juntamente com o do gato Osíris, gera um mal-estar, que se contrapõe ao deleite sentido pelo narrador quando vê Alana admirar quadros. Por um lado há uma questão de foco: quando Alana e o gato o olham forma-se uma unidade da qual ele não pode fazer parte, uma vez que ele não se pode olhar; por outro lado, ao olhar os quadro Alana tem uma atitude reactiva, a forma como age é suscitada pelo que lhe comunicam os seus sentidos e quando o olha a ele com entrega no olhar há uma racionalização, uma intenção de lhe enviar uma mensagem. O olhar frontal de Alana é por isso uma espécie de confrontação que pode levá-lo a questionar-se. E por vezes nem um olhar é necessário, basta ceder a um desejo latente para entrarmos em terrenos minados. Em Histórias que Me Conto, a realidade da ficção é posta em causa quando o narrador descobre que a fantasia sexual que inventou com Dília, uma amiga sua e da sua mulher, aconteceu na realidade mas com outro homem. Uma partida do acaso ou uma espécie de fenómeno místico?

O que conto que foge mais a esta lógica é Texto num Caderno, em que o controlo estatístico das entradas e saídas do metro revela uma surpresa: por vezes o número de pessoas que entram é superior ao das que saem e, outras vezes, o número das que saem é superior ao das que entram. O narrador entrega-se então, mas em vez de a um sentimento, entrega-se emocionalmente à descoberta do que se passa, colocando de lado a possibilidade de haver erros de medição e desenvolvendo uma teoria baseada em factos casuísticos e pouco claros de que há uma sociedade que vive no metro. E rapidamente essa teoria deixa de corresponder a um desejo de descobrir a verdade, para se converter numa obsessão.

Cortázar brinca com o leitor, diverte-se a questioná-lo, coloca-lhe puzzles à frente e desafia-o a resolvê-los. E há dois momentos no livro, os dois contos que se elevam sobre os outros, que são bons exemplos disso mesmo. História com Aranhas começa com um simples e aparentemente inofensivo relato dos dias de férias de duas pessoas que têm como vizinhas no seu bungalow duas jovens. Há desde o início uma grande tensão sexual, mas nunca há um contacto efectivo, há noites passadas na escuridão a ouvir barulhos, há a espera de um sinal, memórias de acontecimentos passados não muito claros. E no final… uma surpresa. Um desafio à percepção.

O outro momento é Recortes de Imprensa, em que também a realidade da ficção é questionada quando a personagem principal, uma escritora, vive uma situação que descobre depois ter sido descrita na imprensa dias antes. E mais uma vez nos questionamos: terá ocorrido um fenómeno paranormal? Ou a entrega da escritora à sua escrita é tal que há elementos da realidade com os quais contacta e que inconscientemente os converte em seus?

Julio Cortázar não nos dá respostas. Lança-nos cenários e espera que retiremos deles o que conseguirmos, que sejamos nós a criar uma ordem, se é que é possível fazê-lo. Ler “Gostamos Tanto da Glenda” é por isso uma entrega à reflexão, à admiração perante o absurdo com que nos deparamos, com todos os contos a terem algo que os inscreve na nossa mente, entretidos que estamos na procura de um sentido último para tudo.

Classificação: 17/20

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Em estado crítico: "Contos Completos - Acerto de Contas" de Lydia Davis

“O facto de ele não me dizer sempre a verdade faz-me duvidar da verdade do que ele em certas alturas me diz, e então tento descobrir pelos meus próprios meios se é verdade ou não o que ele me está a dizer, e algumas vezes sei que não é verdade, outras vezes não sei e nunca saberei, e outras ainda, só porque ele não pára de mo dizer, convenço-me de que é verdade, porque não acredito que ele seja capaz de repetir tão constantemente uma mentira.”

in História
 

As dificuldades de que se reveste a escrita de um conto são muitas vezes ignoradas pelos leitores que se centram apenas na comparação com o tamanho de um romance. Mas escrever uma história em poucas páginas requer uma disciplina, uma gestão absoluta do ritmo da narrativa e uma criatividade que permita impregnar aquelas poucas páginas de sentido, para que, apesar do pouco tempo que convivem com o leitor, sejam capazes de o marcar de forma indelével. Ora tudo isto é ainda mais verdadeiro quando o escritor se dedica sobretudo a microcontos e raramente se aventura para lá das cinco páginas, residindo neste facto um dos maiores méritos de Lydia Davis.

Na contracapa dos “Contos Completos” da autora, editado em Portugal pela Relógio D’Água, e no qual se insere o livro “Acerto de Contas”, afirma-se que a obra de Lydia Davis é um dos expoentes máximos da literatura americana. Não sei se essa afirmação não se revestirá de algum exagero. “Acerto de Contas” não é seguramente a última coca-cola no deserto. Diria sem reservas que Lydia Davis é uma escritora com um estilo muito próprio e acredito que seja talvez a escritora do mundo que melhor domine o género pequenos contos mas, dizendo isto, há também que dizer que muitas vezes Davis tropeça numa das armadilhas próprias deste género e que é a banalidade. Especialmente nos microcontos, é muito difícil conseguir um resultado memorável. Muitas vezes são só umas quantas linhas interessantes sobre algo muito específico que não nos fazem sentir remorsos ao virar a página. Mas quando tudo corre bem, há momentos gloriosos e “Acerto de Contas” tem os seus.

Mildred e o Oboé é um exemplo da riqueza de conteúdo que se pode conseguir com uma escrita económica. Um magnífico testemunho das inseguranças e desejos latentes de uma mulher que, condenada a uma vida imaculada, não consegue deixar de interpretar os barulhos que ouve no prédio como manifestações da sexualidade das treze mulheres que habitam o edifício. Pensa então que a sua vizinha Mildred se está a masturbar com um oboé, ou que talvez esteja a ser possuída por um tocador de oboé, ou que talvez esteja a bater no cão. A ideia de mulheres sexualmente realizadas aterroriza-a, o que a faz vê-las como predadoras que na primeira oportunidade atacarão o seu indefeso filho. E acho que, ao interpretar o conto já usei quase tantas palavras como o conto em si, o que é por si só uma prova da sua excelência.

Em registos já com algumas páginas (no máximo cerca de 10), há vários momentos muito felizes. Logo a abrir o livro, História é um relato ansioso, de frases curtas e incisivas, lidas ao ritmo de uma respiração ofegante, exprimindo as desconfianças que uma mulher tem em relação à fidelidade do homem com quem está envolvida. Revela uma espécie de lucidez alucinada, atitudes loucas baseadas numa visão de racionalização total. Sentimos em cada linha uma ânsia, uma angústia crescente. Um nervosismo que nos impulsiona a seguir e frente e a desejar desesperadamente descobrir o que se passa.

Em Notas para Uma Biografia de Wassilly o sentimento é o oposto: o de uma total inacção. Wassilly está tão submerso em si próprio, nas convenções que criou e nas potencialidades que crê estarem associadas à sua vida, que se condena a um estado vegetativo, a uma falsa sensação de ocupação, de falta de disponibilidade, quando na verdade deixa que os dias se esgotem em tarefas ridículas.

Mas para mim as duas jóias da coroa de “Acerto de Contas” são O Projecto da Casa e A Criada de Servir. O primeiro revela-nos um desejo inquieto de evasão, de lutar por um idílio pessoal que sempre parecera impossível, que leva a personagem central do conto a abandonar a vida que conquistou na cidade e a investir na compra de uma casa em ruínas no campo, que planeia recuperar. O encontro que ocorre com um caçador, que entra abruptamente na sua casa e o passa a visitar com regularidade, é uma confrontação com o lado selvagem do espírito criativo, uma espécie de instinto de realização, que perante o medo e a incerteza enfraquece e quase desaparece.

A Criada de Servir é de uma crueldade imensa. Uma mulher sem nenhum atractivo, condena-se a viver do reconforto de pequenos gestos que pensa perceber, gestos de um homem também ele sem atractivos. Tenta agradar-lhe como sabe, desempenhando empenhadamente o seu mister de criada, sem se aperceber que nunca conseguirá ser mais do que uma mobília para ele e que acabará os seus fétidos dias na companhia da mãe que odeia mas que é a única pessoa que age como se a amasse. Um retrato de um mal-estar e de uma frustração quase insuportáveis.

“Acerto de Contas” é um bom livro, cuja unidade reside numa tentativa de perseguir um lado quase psicótico das personagens, que estão quase sempre alteradas ou à beira de uma queda no precipício. Com pontos altos bastante notórios, embora com alguns contos olvidáveis e irrelevantes pelo meio, “Acerto de Contos” é uma leitura refrescante de uma escritora comprometida com o mundano, que por vezes consegue transformar em transcendente.

Classificação: 15/20

(Este é o primeiro de uma série de quatro artigos sobre “Contos Completos” de Lydia Davis, pulicado em Portugal pela Relógio D’Água. Cada artigo incidirá sobre um dos livros individuais contidos nesta colectânea, sendo o próximo artigo desta série sobre “Quase Sem Memória”.)

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Em estado crítico: “Molloy” de Samuel Beckett


O nome de Samuel Beckett está inscrito a tinta permanente no grande livro da história da literatura. Qualquer pessoa que se interesse por ler escuta o seu nome, pronunciado em tons de idolatria, com devoção. Beckett é Beckett e ler Beckett deve ser uma experiência transformadora. Ou uma grande desilusão.

“Molloy”, editado em Portugal pela Relógio D'Água, é o primeiro livro de uma trilogia de que também fazem parte “Malone Está a Morrer” e “O Inominável”, considerado por muitos como uma das obras mais importantes de Beckett, se não a mais importante. E há certamente méritos nele que ninguém poderá negar. Se me pedissem para defender o livro, eu diria que o que “Molloy” tem de melhor é o que revela da capacidade de Beckett para criar personalidades, de se introduzir numa mente, num modo de pensar, e construir uma lógica de acção adequada, o que tem uma dificuldade ainda mais acrescida quando a narração é feita na primeira pessoa. Mais do que um romance, estamos perante um monólogo, que enquanto peça de teatro poderia funcionar bem.

Beckett divide o livro em duas partes: na primeira acompanhamos Molloy no seu percurso em busca da sua mãe e na segunda seguimos Moran na sua demanda para encontrar Molloy. As questões existencialistas são uma constante nas duas partes, seguindo as dicotomias clássicas mãe/filho e pai/filho. Molloy mais do que procurar a mãe, procura um conceito de casa, um espaço genesíaco que lhe permita encontrar-se, que torne mais claro um mundo que se tornou confuso, possivelmente devido a alguma perturbação psicológica evidenciada por um discurso errante, por vezes desconexo. E se em Molloy há procura, em Moran há recusa, sentimentos gratuitos de repúdio pelo filho, quase como se temesse que o quisesse destituir da sua posição, da sua identidade.

Aparentemente Molloy e Moran representam dois extremos, respectivamente o da perturbação e o da normalidade. As diferenças da enunciação de Moran face a Molloy são claras inicialmente, há um sentido de ordem, de ponderação, expressa até mesmo pela forma, com o discurso de Moran organizado em diferentes parágrafos e o de Molloy em apenas dois (o segundo parágrafo começa na página 8 e termina na 110!). Mas essas fronteiras vão-se esbatendo e no final pouco separa Moran de Molloy. Na realidade, apesar de sua aparente maior racionalidade, os actos de Moran superam em gravidade os de Molloy, o que nos leva a ponderar sobre o que define a normalidade mental de uma pessoa. Não estaremos todos nós a algumas páginas de nos tornarmos loucos?

As questões levantadas por “Molloy” são de facto muito interessantes e Beckett é muito eficaz na forma como as traz até nós. Mas os méritos do livro ficam-se por aí, na minha opinião. “Molloy” é um livro difícil. Acompanhar as deambulações mentais de Molloy torna-se num verdadeiro suplício. Tentar acompanhar a sua linha de raciocínio é um desafio por vezes absolutamente perdido à partida, porque não é suposto uma pessoa perturbada ter uma linha de raciocínio coerente, mas também não é suposto um leitor deliciar-se com várias páginas sobre a organização nos bolsos de pedras para chupar. Beckett cometeu na minha opinião o pecado de confundir o livro com as personagens, e a desorientação das personagens torna-se numa leitura frustrante.

Ironicamente, o que confere a “Molloy” os seus méritos literários é o que o afasta do leitor. Correndo o risco de deixar alguns fãs de Beckett enfurecidos, “Molloy” parece-me mais um exercício intelectual, muito focado na forma, do que uma obra literária. Reconheço-lhe o valor mas não gostei da experiência, nem recomendo a leitura. Continuarei em breve com a leitura dos restantes livros da trilogia. Desejem-me sorte!


Classificação: 10/20

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Em estado crítico: “Tudo São Histórias de Amor” de Dulce Maria Cardoso


“As vidas que li não foram menos minhas. Não há grande diferença entre o que se vive lendo e o que se vive vivendo. Milhares de vidas à nossa espera no silêncio dos livros."
in A Biblioteca

“Não quero amar o que não pode, para sempre, aceitar-me de regresso.”
in Coisas que Acarinho e Me Morrem Entre os Dedos 

“Para que as criaturas fornecessem o bem de que eram capazes era preciso infringir-lhes sofrimento. Mas isso sempre foi um trabalho simples: há sofrimento em abundância neste mundo de Deus e consegui-lo é das coisas mais fáceis.”
in Humal 

“Se ainda soubesse, a velha tinha começado a chorar.”
in Retrato de um Jovem Poeta


O amor. A complexidade do amor não se compraz com os relatos delicodoces de histórias românticas em que amar e ser amado são cores pálidas, paisagens agradáveis em que apetece dormir e esquecer os problemas do mundo. E o lado destrutivo do amor? Não se pode amar submerso na feiura? Amar algo indigno de ser amado? Amar, não uma pessoa, mas uma ideia, um estado de espírito, uma sensação?

Dulce Maria Cardoso revela-nos em doze contos as verdades dos amores, verdades que muitas vezes não queremos ver, que tentamos conscientemente ignorar mas que, na por vezes cruel honestidade das palavras, somos obrigados a reconhecer. Esses amores podem tanto ser o amor de um criminoso pelos livros, como em A Biblioteca, e o eterno debate que levanta sobre a arte enquanto redenção (perspectiva que tanto apoquenta George Steiner – como podiam os dirigentes nazis, responsáveis por tantas atrocidades, apreciar boa arte, ter a sensibilidade necessária para a conseguirem apreciar?), como o amor por algo que não nos pertence, pelo desejo de que seja nosso, pela inveja, tal como acontece em Este Azul que Nos Cerca.

Há em “Tudo São Histórias de Amor” cinco momentos particularmente marcantes, dois dos quais inspirados em histórias que bem conhecemos. Não Esquecerás tem a capacidade de nos fazer saber do que se está a falar, sem que nada em concreto seja dito de início. Começamos numa noite fria e chuvosa, à boleia numa camioneta. Talvez pela vontade de capturar cada instante, pela vontade de que o tempo se congele, percebemos em poucas páginas que vamos em direcção a Entre-os-Rios, que em breve tudo estará acabado. Dulce Maria Cardoso podia ter falado do momento da tragédia, descrito o acidente, mas em vez disso foca-nos nos últimos momentos daquelas pessoas e na crueldade de se ver privado de um amanhã, quem já com ele contava.

Em Desaparecida, ou a Justiça, o outro conto sobre um acontecimento que marcou o nosso país num passado próximo – o caso Joana –, são as sevícias sofridas pela mãe de Joana que ocupam o lugar central. Impressiona-nos a dureza dos actos, que são praticados em nome de uma pretensa verdade, uma verdade que mais não é do que um desejo sanguinário de pecado, do pecado dos outros, de nos regozijarmos com os horrores cometidos pelos outros. É um conto difícil de ler, por nos escancarar os recantos mórbidos das mentes, por sabermos que parte daquela história se passou de facto, por sentirmos que não o conseguiremos esquecer.

O focus externo desaparece e o eu assume o lugar central em Coisas que Acarinho e Me Morrem Entre os Dedos, que quase poderia ser uma continuação do conto publicado por Dulce Maria Cardoso na 1ª Granta portuguesa. Em análise está um dilema que atormenta o Homem desde tempos idos: o desejo de mudança e o medo da mudança. O mundo de possibilidades que se abre perante nós nos momentos em que estamos connosco próprios e a noção palpável de que, em última análise, tudo depende da nossa vontade. Se quisermos abandonar a nossa vida e partir para um país distante, nada nos impede, basta termos coragem de agir. Mas, assim como nos damos ao trabalho de criar mundo, também rapidamente os destruímos.

Mas se os três contos referidos já assumem uma força pouco usual para a palavra escrita, a perfeição alcança-se em Humal e Retrato de Um Jovem Poeta. Humal é magistral. Um conto mítico que nos relembra que as coisas mais belas têm por vezes por base o sofrimento, a cobardia de fazer mal a quem não se pode defender, em nome de uma beleza que se convenciona como algo de bom. E por fim, em o Retrato de Um jovem Poeta, o amor concretiza-se, assume o seu estado mais puro, o de uma entrega total, uma compreensão extra-sensorial, um sentimento que, mesmo perante o mais horrível dos cenários, permanece pleno.

Se “O Retorno” consagrou Dulce Maria Cardoso junto do grande público, “Tudo São Histórias de Amor” reafirma-a como uma escritora maior, uma contista brilhante que em poucas páginas nos faz render às histórias que nos conta, certos de que o que aquelas palavras suscitaram em nós nos acompanhará como uma memória assombrosa de um mundo que não podemos negar.

Classificação: 19/20

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Em estado crítico: "Hiroshima Meu Amor" de Marguerite Duras


“O tempo virá em que não saberemos que nome dar ao que nos unirá. O nome apagar-se-á a pouco e pouco da nossa memória.”


Hiroshima. Nevers. O que une estes dois locais? A destruição? Que destruição poderá Nevers conter que se iguale a uma cidade dizimada por uma bomba atómica? Que horrores terão sido vividos nas suas ruas? De quantas mortes desnecessárias terá sido palco? Nevers. Uma aparentemente doce e bucólica terra francesa, a terra que viu morrer o amor.

Uma mulher, uma actriz, está em Hiroshima no pós-guerra a rodar um filme sobre a paz. Que outro tipo de filme se poderia fazer em Hiroshima, questiona. O passado é, em Hiroshima, um fantasma que a persegue. Na vida que regressou ao normal, na cidade plenamente reconstruída, onde a catástrofe não é mais do que uma memória longínqua que se afugenta, há uma ameaça eminente de que o que Hiroshima viveu seja esquecido. Hiroshima tem de ser lembrada sempre, como o têm de ser todas as grandes tragédias. Mas a vida teima em cobrir os acontecimentos desagradáveis com um véu apaziguador. Até que não restem mais do que sombras. Até que comecemos a duvidar que o que aconteceu aconteceu mesmo.

Um amor em Hiroshima. Um homem casado, como ela, que nos seus braços sonha com um grande amor. Um homem que é mais do que aquele homem japonês, que é um arquétipo do amante proibido, uma recordação viva do amor vivido em Nevers. Em Hiroshima, a mulher percebe que ela própria tem vindo a esquecer, que a dor dilacerante que parecia capaz de a matar acabou por sossegar e, com o avançar dos dias, a vida continuou, apesar da imagem de destruição absoluta. Experimentou o maior dos horrores e agora vive, com uma aparência de normalidade.

O que une Hiroshima e Nevers? A destruição. A destruição de que pensamos não conseguir emergir. Mas também o esquecimento, a traição de uma vida que o continua a ser, a insustentável leveza do ser de que Kundera falaria.

“Hiroshima Meu Amor”, o guião que valeu a Marguerite Duras a nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Original, foi também a primeira longa-metragem de Alain Resnais, protagonizada por Emmanuelle Riva. O filme tem o mérito de, mantendo-se fiel à visão de Duras, a ter dotado de imagens icónicas cuja beleza nada fica a dever às palavras escritas. 

Já que o livro, em tempos editado pela Quetzal, é muito difícil de encontrar hoje em dia, recomendo-vos vivamente o filme, cuja versão restaurada foi recentemente lançada em DVD pela Leopardo Filmes.


Classificação: 17/20


terça-feira, 1 de abril de 2014

Em estado crítico: "Uma Barragem Contra o Pacífico" de Marguerite Duras


A força incontrolável do mar e do destino. Por muito que nos enganemos, que nos tentemos convencer de que os controlamos, no final reconheceremos a sua supremacia. Por muito que desejemos que o mundo pare, que um momento se cristalize no tempo e se converta em infinito, a mudança virá e, como uma torrente de água, levará consigo tudo o que encontrar à sua frente. Assim acontece com a família de “Uma Barragem Contra o Pacífico”, uma obra-prima por direito próprio, que apenas não é a grande obra de Marguerite Duras porque muitos anos mais tarde “O Amante” seria escrito, e o que poderia haver de imperfeição no primeiro livro foi obliterado pela pureza aprimorada do segundo.

O ponto de partida para ambas as histórias é o mesmo: uma viúva com filhos para criar decide investir as suas economias numa concessão atribuída pelo governo da Indochina, com a esperança de que a exploração dessa terra seja a solução para os seus problemas financeiros e uma porta para a riqueza. O pior acontece quando percebe ter sido enganada, assistindo indefesa às terras da sua concessão serem dragadas pelas águas do Pacífico durante grande parte do ano, impossibilitando o seu cultivo. Numa tentativa desesperada, manda erguer uma espécie de barragem para conter as águas do mar, sem que o seu propósito seja alcançado. Vê-se então sozinha em plena selva da Indochina, com os seus filhos e sem forma de subsistir, condenada a uma vida de miséria

A irmã, o irmão e a mãe de “Uma Barragem Contra o Pacífico” conhecerão portanto uma nova existência em “O Amante”, mas com algumas diferenças. Nesta primeira história a rapariga, Suzanne, uma personificação de Duras enquanto jovem na Indochina, é menos melancólica e ensimesmada, assim como o irmão é também mais vivaz. A mãe permanece inalterável. Mas fora deste núcleo familiar, há diferenças consideráveis nas duas histórias: em “Uma Barragem Contra o Pacífico” não há irmão mais velho, o irmão cruel que absorverá todo o amor da mãe, e também não há sentimentos genuínos pelo amante. O Sr. Jo, o rico pretendente deste livro, está muito distante da figura sedutora e intensa de “O Amante”, uma figura capaz de fazer uma jovem desesperada sentir amor. O Sr. Jo resume-se ao ridículo e à perversidade, numa existência plena de humilhação e cobardia.

Enquanto em “O Amante” há uma dinâmica entre forças endógenas e exógenas à família, em “Uma Barragem Contra o Pacífico” tudo é a família e, mais que isso, tudo é a mãe, essa mulher louca, tão profundamente destruída pela vida que, começando por ser uma heroína estóica, se torna numa mulher dominada pela injustiça e pela incapacidade de fazer algo, numa mulher que nada mais tem do que os seus dois filhos. E o amor que os une, embora seja um sentimento sobretudo destrutivo (mas o amor em Duras é sempre uma força destruidora), é o ponto criador de equilíbrio e que permite à família sobreviver a tudo. A partida de Joseph, o irmão, há tanto antevista e temida pela mãe, terá por isso uma importância tão significativa, acabando por ser o início do fim e um mero prelúdio do inadiável desfecho da história.

O desejo incestuoso da Suzanne pelo seu irmão, embora nunca seja afirmado de forma peremptória, é neste livro mais presente. No final é por ele que ela espera junto à estrada, em frente da casa, embora queira fazer crer que aguarda por um homem que a leve dali e ao qual se renderia de imediato porque sabe que não é mais do que uma mercadoria sem outra utilidade que garantir o salvamento económico da família.

Suzanne e a mãe desejam, acima de tudo, que o tempo pare e que possam viver eternamente naquele bungalow, construído junto à sua estéril concessão, com Joseph. Os três alimentando um ódio silencioso, estridente aquando dos ataques da mãe, contra as autoridades coloniais que os enganaram, contra os homens ricos que cobiçarão Suzanne e que pensarão que a poderão comprar com o seu dinheiro. Mas esse tempo acabará, sem que nenhuma barragem o consiga evitar, porque no fim apenas haverá a solidão e a certeza de que o destino, como a água do mar, seguirá o seu rumo.

“Uma Barragem Contra o Pacífico” apresenta-nos uma Duras disciplinada, seguindo um modelo mais tradicional de romance, num estilo que, possuindo já os motivos que caracterizariam toda a sua obra, não se encontrava ainda completamente formado. Mas a capacidade de evocar imagens poéticas e de chocar pela profundidade honesta dos sentimentos revela uma escritora com uma capacidade única: a de criar uma história que nos incomoda, nos faz sair do nosso centro e que gera entre nós e as personagens, mesmo aquelas que não nos são muito simpáticas, um elo de compreensão. Um romance maior do séc. XX.

Classificação: 19/20

quarta-feira, 19 de março de 2014

Em estado crítico: "A Letra Encarnada" de Nathaniel Hawthorne


Uma cadeia, um cemitério e uma roseira brava. Assim começa Nathaniel Hawthorne a história de “A Letra Encarnada”. E, numa pequena descrição de duas páginas, o essencial é dito, sem ser necessário dizê-lo palavra por palavra: na história que nos vai ser contada haverá um crime, alguém morrerá e tudo terá uma motivação passional.

Mas porquê “A Letra Encarnada”? O que levou Hawthorne a escolher um título à partida pouco claro e desinteressante? A explicação está contida na própria história e no ângulo escolhido por Hawthorne para contá-la. A letra encarnada é o símbolo que Hester Prynne se vê condenada a utilizar cozido na roupa, junto ao coração, como pena por ter cometido um dos maiores pecados de acordo com a moralidade então vigente: ter engravidado sem ter junto a si o seu marido. Hester tinha sido enviada para o Novo Mundo pelo marido, que deveria segui-la, mas de quem não havia notícias há um par de anos. Pensando que o marido teria morrido, Hester cai na tentação de amar outro homem. O que ninguém sabe é que esse homem é o padre Arthur.

Mas então, com um tema tão sugestivo, para quê este título? Porque não “O Crime do Padre Arthur” ou “O Celibatário Pecador”, algo que chocasse consciências e atraísse leitores com o chamariz do proibido? A razão é simples. O livro de Hawthorne não tem objectivos moralizantes, pelo menos não no que diz respeito ao pecado de Hester e do Padre. Eça, em “O Crime do Padre Amaro”, queria expor a atitude hipócrita e libidinosa do clero. A mensagem de Hawthorne é outra. Apenas sentimos uma atitude de crítica do autor em relação à sociedade da época e à forma como julga os comportamentos de Hester. São as convenções sociais o principal focus de Hawthorne, mostrar o quão patéticas são, mas também o quão facilmente podem ser quebradas. E por isso temos a letra encarnada na capa, para não nos esquecermos disso.

As ignomínias vividas por Hester Prynne só o são porque assim estão catalogadas. Hester não é espancada, não lhe tiram a filha, não a prendem. O seu único castigo é um acto público de condenação e o símbolo que se vê obrigada a usar. Ninguém a impede de partir para outro lugar e deixar de usar a letra. O castigo só é eficaz porque Hester se avexa em parte pelos seus actos e reconhece no conhecimento público uma fonte de vergonha. Colocando tudo em perspectiva, é quase ridículo que a vida de uma pessoa seja arruinada por ter de usar uma letra encarnada bordada na roupa!

Hawthorne é de resto muito compreensivo com os actos de Hester e de Arthur, havendo no entanto críticas veladas a Arthur, pela boca de Pearl, a criança que nasceu da união proibida, que questiona a sua atitude de não a acarinhar em público como o faz em privado, o que implicaria arcar com a responsabilidade de ser seu pai. Essa é a maior falha de Arthur, o não assumir perante todos a cumplicidade com Hester no acto cometido, deixando-a pagar sozinha por tudo. Em momento nenhum o envolvimento sexual dos dois é apresentado como algo aviltante. Pelo contrário: num dos momentos altos da história, o capítulo em que Hester e Pearl se encontram com Arthur na floresta, equaciona-se um final feliz, e que seria a partida dos três para outro país ou para junto dos indígenas, consumando assim o amor que os une longe dos olhares de quem os poderia condenar.

Numa história em que uma mulher casada engravida de um padre seria de esperar que a mulher ou o padre assumissem o papel de vilão. Mas, a haver um vilão nesta história, será o marido traído, cuja degeneração se acentua à medida que se deixa consumir pela vingança, sem nunca conseguir assumir uma importância determinante para a história. Roger torna-se mais numa manifestação do sentimento de culpa de Arthur, numa sombra insignificante mas incómoda, que assombra todos os seus passos.

“A Letra Encarnada”, editado em Portugal pela Dom Quixote na colecção Biblioteca António Lobo Antunes, é um clássico e não o é por acaso. Nathaniel Hawthorne questiona moralidades, lança uma luz sobre as motivações humanas e propõem um caminho de compreensão. Seria fácil fazer de Hester uma personagem acanhada, conformada na sua desonra. Mas Hester empunha a sua letra encarnada de uma forma quase orgulhosa porque, se acha que o seu acto merece aquela punição, em certa medida também a encara como o símbolo do sentimento que a uniu a Arthur e que as pessoas que a condenam, fechadas que estão num mundo em que as liberdades individuais são limitadas por axiomas religiosos, nunca poderão sentir. E por isso a letra encarnada é bordada por ela com requinte, como se de um adorno se tratasse. Assim esse adorno não lhe tivesse dificultado tanto a vida…

Classificação: 18/20