Mostrar mensagens com a etiqueta Edgar Allan Poe. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Edgar Allan Poe. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Contando contos de Edgar Allan Poe: “Revelação Mesmérica”

Poe parece empenhado em converter todos os seus escritos em pequenas dissertações que servem para pouco mais do que expor as suas capacidades retóricas. Desta vez é o hipnotismo o tema em análise, procurando convencer-nos inicialmente da sua capacidade para conduzir o indivíduo a um estado elevado de consciência, no qual se acede a uma espécie de verdade suprema.

Estando o Sr. Vankirk moribundo, o narrador da história é chamado a submete-lo a uma sessão de hipnotismo, prática que parece aliviá-lo. Aproveitando a visão clarificadora que essa condição supostamente proporciona, o Sr. Vankirk discorre sobre a existência de Deus com uma certeza directamente proporcional ao ridículo da sua tese de que Deus é aquilo a que chama matéria impartível, uma matéria una que tudo atravessa.

No final, e apenas para dar um ar da sua graça, Poe ainda nos atiça a curiosidade quanto à capacidade de a alma, quando submetida ao hipnotismo, sobreviver ao corpo. Enfim, não sei o que me espera dos seguintes contos incluídos em "Todos os Contos" de Edgar Allan Poe, mas espero que a qualidade melhore, caso contrário só mesmo sob hipnotismo é que conseguirei levar a sua leitura a bom porto.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Contando contos de Edgar Allan Poe: “Von Kempelen e a Sua Descoberta”


Que Poe gosta de um bom embuste não é novidade para ninguém, ou não fosse este o terceiro exemplar do género nos quatro contos que li de "Todos os Contos", publicado pela Temas e Debates. Mas não, desta vez não são épicas viagens de balão, valha-nos isso. O cenário é até bastante caseiro e relaciona-se com uma figura clássica do género fantástico: o alquimista.

Num artigo publicado no jornal “The Flag of Our Union”, Poe relata a descoberta de Von Kempelen, que foi bem-sucedido na sua tentativa de transformar chumbo em ouro. Numa altura em que uma enchente de aventureiros invadiu a California a meio do século XIX em busca de ouro, naquela que ficou conhecida como a California Gold Rush, Poe relativiza o valor do ouro argumentando que, perante o feito (fictício) de Von Kempelen, se tornava num metal precioso de importância secundária, menos valioso do que a prata.

Na verdade, nem Von Kempelen fabricou ouro, nem este artigo merece mais do que o estatuto de “curiosidade”na obra de Poe. 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Contando contos de Edgar Allan Poe: “O Embuste do Balão”


Poe parece ter uma obsessão com balões. Depois de em “A Aventura Sem Paralelo de Um Tal Hans Pfaall”, a história que abre "Todos os Contos", nos relatar uma falsa viagem de balão que teria levado Hans Pfaall à Lua, decide agora ver se acreditamos que em 1844 um balão atravessou o Atlântico em 75 horas, num embuste com direito a publicação no New York Sun.

Rico em pormenores técnicos, na verdade “O Embuste do Balão” pouco mais é que uma versão simplificada de “A Aventura Sem Paralelo de Um Tal Hans Pfaall”. Até mesmo a base para a narrativa - um diário mantido durante a viagem – é a mesma em ambas as histórias. Nem sequer a viagem em si é particularmente excitante. É tudo muito fácil, muito sereno, muito rápido. Há portanto pouco que possa ser dito sobre o valor literário deste artigo.

O facto mais curioso talvez seja que apenas em 1978 seria completada a primeira travessia do Atlântico por balão, pelo Double Eagle II, demorando mais de 137 horas. Poe era afinal um optimista!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Contando contos de Edgar Allan Poe: “O Escaravelho de Ouro”


Criativo, capaz de criar uma narrativa envolvente com poucas personagens, Edgar Allan Poe constrói contos de aventura que representam o que de mais clássico se faria no género, explorando em “O Escaravelho de Ouro” de um tema habitual: a demanda pelo tesouro escondido de um pirata.

Numa visita a Legrand e ao seu criado negro, o narrador toma conhecimento de uma recente descoberta do seu amigo: uma espécie única de escaravelho, que o criado insistentemente afirma ser feito de ouro. Camuflada de loucura ou de uma espécie de febre alucinatória causada pela picada do escaravelho, os três partem em busca de algo que só Legrand sabe o que é.

Tal como no conto anterior apresentado em "Todos os Contos", Poe peca por por vezes estar mais interessado em demonstrar a sua inteligência do que em criar um bom momento na narrativa, perdendo demasiado tempo com a explicação da solução do enigma que confere sentido à história. E as personagens esgotam-se na acção do conto, não havendo qualquer propósito externo para a sua existência que não seja o da narrativa, nunca passando de construções unidimensionais. De qualquer forma, Poe é sempre bem-sucedido na arte de entreter.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Contando contos de Edgar Allan Poe: “A Aventura Sem Paralelo de Um Tal Hans Pfaall”


Ano novo, rubrica nova. Nos últimos meses de 2014 ganhei num passatempo o “Todos os Contos” de Edgar Allan Poe, recentemente editado pela Temas & Debates e desde logo se desenhou na minha mente o plano de semanalmente (tendencialmente!) ir lendo os contos e partilhando convosco a minha experiência na descoberta de um autor verdadeiramente icónico. Bem dito, bem feito, e começamos hoje esta longa viagem.

Um estranho homem, a bordo de um balão, aproxima-se da cidade de Roterdão suscitando uma onda de interesse e incredulidade. Mas a sua missão é apenas entregar uma missiva ao burgomestre Von Underduk e ao professor Rubadub, respectivamente presidente e vice-presidente do Colégio de Astronomia de Roterdão, e rapidamente desaparece. A carta escrita por Hans Pfaall ocupa a quase totalidade do conto e relato-nos a viagem que Hans decide realizar para fugir às dificuldades económicas que assolaram a sua vida. Tentado a suicidar-se, Hans inspira-se num livro de astronomia para programar uma viagem de balão… à Lua!

Com sentido de humor e ironia, Poe procura tornar verosimilhante o mais ridículo dos cenários, apoiando-se nos conhecimentos científicos da época e em pressupostos tidos como inegáveis para tornar a viagem plausível. Poe peca um pouco por se centrar, muito detalhadamente, nas questões práticas da viagem e na descrição da sua evolução, sem explorar devidamente os acontecimentos posteriores à suposta viagem.

Com pormenores muito divertidos, como o facto de Hans Pfaall ter fugido com a conivência dos seus credores que, não obstante o dinheiro que ele lhes devia e a perseguição que lhe fizeram e que motivou o seu desejo de fuga, o ajudam a preparar a viagem de balão (supostamente). Que Hans Pfaall tenha viajado com uma gata que durante a viagem decide parir uma ninhada torna tudo ainda mais surreal, embora o destino dos pobres gatinhos não seja propriamente risonho…

Um começo interessante para um autor que eu esperava que fosse soturno e melodramático.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A dependência dos livros - edição Fevereiro de 2014


Compras de grande envergadura. Assim descreveria o meu mês de Fevereiro, dedicado que foi à compra de duas obras fundamentais de dois escritores incontornáveis, que já estavam no meu radar há bastante tempo. Falo de “Todos os Contos” de Edgar Allan Poe editado pela Quetzal, cujo primeiro volume infelizmente há muito que está esgotado e o segundo não vai tardar muito a também desaparecer dada a descida de preço de 40€ para menos de 18€. Um dos meus hábitos é ver-me livre de capas descartáveis de livros sempre que estas não me agradam e neste caso a horrorosa capa de folhas secas que cobria o livro escondia uma capa dura trabalhada com todo o primor. Nem precisei pensar duas vezes.

Curiosamente, o segundo livro que comprei, a “Poesia Completa” de Miguel Torga (um pack da Dom Quixote bem bonito, com 2 volumes), também se encontrava com uma baixa de preço significativa, tendo passado de mais de 40€ (segundo me recordo) para cerca de 30€. Parece caro? Bom, considerando que a “Antologia Poética” recentemente editada custa cerca de 23€ e cada volume separado da “Poesia Completa” está perto dos 25€, eu diria que é uma excelente compra. Se querem ter poesia do Torga não façam-se à vida porque já há poucos packs nas lojas. Comprei o meu na loja online da Leya ( já não está disponível), mas pelo que sondei ainda se avistam exemplares do livro na Ferin e na Bulhosa.

E para completar este belo ramalhete, que tal um livrinho de um Prémio Nobel por truta e meia? Neste caso, por 4.5€, que foi quanto me custou “O Amor e o Escárnio” de Dário Fo editado pela Gradiva. Um mês em grande!