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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Contando contos de Edgar Allan Poe: “Revelação Mesmérica”

Poe parece empenhado em converter todos os seus escritos em pequenas dissertações que servem para pouco mais do que expor as suas capacidades retóricas. Desta vez é o hipnotismo o tema em análise, procurando convencer-nos inicialmente da sua capacidade para conduzir o indivíduo a um estado elevado de consciência, no qual se acede a uma espécie de verdade suprema.

Estando o Sr. Vankirk moribundo, o narrador da história é chamado a submete-lo a uma sessão de hipnotismo, prática que parece aliviá-lo. Aproveitando a visão clarificadora que essa condição supostamente proporciona, o Sr. Vankirk discorre sobre a existência de Deus com uma certeza directamente proporcional ao ridículo da sua tese de que Deus é aquilo a que chama matéria impartível, uma matéria una que tudo atravessa.

No final, e apenas para dar um ar da sua graça, Poe ainda nos atiça a curiosidade quanto à capacidade de a alma, quando submetida ao hipnotismo, sobreviver ao corpo. Enfim, não sei o que me espera dos seguintes contos incluídos em "Todos os Contos" de Edgar Allan Poe, mas espero que a qualidade melhore, caso contrário só mesmo sob hipnotismo é que conseguirei levar a sua leitura a bom porto.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Diário da Feira do Livro 2015: 29 de Maio


Hoje é o meu primeiro dia de Feira e só de imaginar aquelas bancas recheadas de livros a bons preços sinto logo um sorriso a rasgar-me a cara. Paragens obrigatórias no stand das promoções da Relógio D’Água, cujos caixotes são há alguns anos o ponto alto da Feira do Livro e uma fonte inesgotável de alegria, e no stand da Antígona, que este ano aumentou a sua presença para apresentar uma área com grandes oportunidades. Veremos!

E entre os Livros do Dia de hoje destaque para:

Grupo Porto Editora
“A Ilha Debaixo do Mar” de Isabel Allende - 9,4€ (banca da Porto Editora)
“Bufo & Spallanzani” de Rubem Fonseca - 8,3€ (banca da Sextante)
“Lunário” de Al Berto - 5,75€ (banca da Assírio & Alvim)
“O Cânone Ocidental” de Harold Bloom - 9,95€ (banca da Temas e Debates)

Relógio D’Água
“A Poesia do Pensamento” de George Steiner - 12€
“Do Lado de Swann” de Marcel Proust - 13€
“Fausto” de Johann W. Goethe - 16€
“O Feiticeiro de Oz” de L. Frank Baum - 9€

Alfaguara
“Os Enamoramentos” de Javier Marías - 11,94€

Antígona
“1984” de George Orwell - 8€

Cavalo de Ferro
“O Barril Mágico” de Bernard Malamud - 8,5€

Tinta-da-China
“O Bom Soldado Svejk” de Jaroslav Hasek - 19,2€
“Obra Completa” de Álvaro de Campos - 15€

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Contando contos de Edgar Allan Poe: “Von Kempelen e a Sua Descoberta”


Que Poe gosta de um bom embuste não é novidade para ninguém, ou não fosse este o terceiro exemplar do género nos quatro contos que li de "Todos os Contos", publicado pela Temas e Debates. Mas não, desta vez não são épicas viagens de balão, valha-nos isso. O cenário é até bastante caseiro e relaciona-se com uma figura clássica do género fantástico: o alquimista.

Num artigo publicado no jornal “The Flag of Our Union”, Poe relata a descoberta de Von Kempelen, que foi bem-sucedido na sua tentativa de transformar chumbo em ouro. Numa altura em que uma enchente de aventureiros invadiu a California a meio do século XIX em busca de ouro, naquela que ficou conhecida como a California Gold Rush, Poe relativiza o valor do ouro argumentando que, perante o feito (fictício) de Von Kempelen, se tornava num metal precioso de importância secundária, menos valioso do que a prata.

Na verdade, nem Von Kempelen fabricou ouro, nem este artigo merece mais do que o estatuto de “curiosidade”na obra de Poe. 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Contando contos de Edgar Allan Poe: “O Embuste do Balão”


Poe parece ter uma obsessão com balões. Depois de em “A Aventura Sem Paralelo de Um Tal Hans Pfaall”, a história que abre "Todos os Contos", nos relatar uma falsa viagem de balão que teria levado Hans Pfaall à Lua, decide agora ver se acreditamos que em 1844 um balão atravessou o Atlântico em 75 horas, num embuste com direito a publicação no New York Sun.

Rico em pormenores técnicos, na verdade “O Embuste do Balão” pouco mais é que uma versão simplificada de “A Aventura Sem Paralelo de Um Tal Hans Pfaall”. Até mesmo a base para a narrativa - um diário mantido durante a viagem – é a mesma em ambas as histórias. Nem sequer a viagem em si é particularmente excitante. É tudo muito fácil, muito sereno, muito rápido. Há portanto pouco que possa ser dito sobre o valor literário deste artigo.

O facto mais curioso talvez seja que apenas em 1978 seria completada a primeira travessia do Atlântico por balão, pelo Double Eagle II, demorando mais de 137 horas. Poe era afinal um optimista!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Contando contos de Edgar Allan Poe: “O Escaravelho de Ouro”


Criativo, capaz de criar uma narrativa envolvente com poucas personagens, Edgar Allan Poe constrói contos de aventura que representam o que de mais clássico se faria no género, explorando em “O Escaravelho de Ouro” de um tema habitual: a demanda pelo tesouro escondido de um pirata.

Numa visita a Legrand e ao seu criado negro, o narrador toma conhecimento de uma recente descoberta do seu amigo: uma espécie única de escaravelho, que o criado insistentemente afirma ser feito de ouro. Camuflada de loucura ou de uma espécie de febre alucinatória causada pela picada do escaravelho, os três partem em busca de algo que só Legrand sabe o que é.

Tal como no conto anterior apresentado em "Todos os Contos", Poe peca por por vezes estar mais interessado em demonstrar a sua inteligência do que em criar um bom momento na narrativa, perdendo demasiado tempo com a explicação da solução do enigma que confere sentido à história. E as personagens esgotam-se na acção do conto, não havendo qualquer propósito externo para a sua existência que não seja o da narrativa, nunca passando de construções unidimensionais. De qualquer forma, Poe é sempre bem-sucedido na arte de entreter.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Contando contos de Edgar Allan Poe: “A Aventura Sem Paralelo de Um Tal Hans Pfaall”


Ano novo, rubrica nova. Nos últimos meses de 2014 ganhei num passatempo o “Todos os Contos” de Edgar Allan Poe, recentemente editado pela Temas & Debates e desde logo se desenhou na minha mente o plano de semanalmente (tendencialmente!) ir lendo os contos e partilhando convosco a minha experiência na descoberta de um autor verdadeiramente icónico. Bem dito, bem feito, e começamos hoje esta longa viagem.

Um estranho homem, a bordo de um balão, aproxima-se da cidade de Roterdão suscitando uma onda de interesse e incredulidade. Mas a sua missão é apenas entregar uma missiva ao burgomestre Von Underduk e ao professor Rubadub, respectivamente presidente e vice-presidente do Colégio de Astronomia de Roterdão, e rapidamente desaparece. A carta escrita por Hans Pfaall ocupa a quase totalidade do conto e relato-nos a viagem que Hans decide realizar para fugir às dificuldades económicas que assolaram a sua vida. Tentado a suicidar-se, Hans inspira-se num livro de astronomia para programar uma viagem de balão… à Lua!

Com sentido de humor e ironia, Poe procura tornar verosimilhante o mais ridículo dos cenários, apoiando-se nos conhecimentos científicos da época e em pressupostos tidos como inegáveis para tornar a viagem plausível. Poe peca um pouco por se centrar, muito detalhadamente, nas questões práticas da viagem e na descrição da sua evolução, sem explorar devidamente os acontecimentos posteriores à suposta viagem.

Com pormenores muito divertidos, como o facto de Hans Pfaall ter fugido com a conivência dos seus credores que, não obstante o dinheiro que ele lhes devia e a perseguição que lhe fizeram e que motivou o seu desejo de fuga, o ajudam a preparar a viagem de balão (supostamente). Que Hans Pfaall tenha viajado com uma gata que durante a viagem decide parir uma ninhada torna tudo ainda mais surreal, embora o destino dos pobres gatinhos não seja propriamente risonho…

Um começo interessante para um autor que eu esperava que fosse soturno e melodramático.

domingo, 30 de março de 2014

Cheiro a livro novo - Março de 2014


Março tem sido um mês interessante para os autores portugueses, com vários livros de grandes nomes a chegarem às livrarias. No espaço de poucas semanas a Tinta da China trouxe-nos “Tudo São Histórias de Amor” de Dulce Maria Cardoso, que reúne 12 contos de autora que, tendo em conta o desempenho na abertura da 1ª Granta portuguesa, prometem muito. Também a Sextante decidiu avançar com uma autora de peso e fez chegar às livrarias “Passagem” de Teolinda Gersão. E, como onde há duas há três, não é de estranhar que também a Dom Quixote tenha publicado um novo livro de Lídia Jorge, “Os Memoráveis”, mesmo a tempo das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril, data também aproveitada pela Quetzal, que edita finalmente no nosso país “Portugal, a Flor e a Foice” de Rentes de Carvalho. Dois livros que se propõem rever os mitos do 25 de Abril. Uma verdadeira luta de editoras.

E por falar em luta de editoras, um dos grandes mistérios editoriais dos últimos tempos é a decisão da Relógio D’Água e da Presença (duas editoras em espectros profundamente opostos do mundo editorial, diga-se de passagem) de editarem em simultâneo “Doze Anos Escravo” de Solomon Northup. A sério?! Como se não houvesse livros suficientes no mundo para serem editados ou clássicos que há muito tempo desapareceram das livrarias. Sinto-me revoltado.

A Relógio D’Água prometia ter um mês interessante mas poucos livros viram para já a luz do dia, parecendo-me justo destacar “Sobre Literatura” de Umberto Eco. De resto, a Temas e Debates editou também este mês um ensaio sobre literatura que me parece muito interessante, “Génio - Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura" de Harold Bloom.

Para terminar, menção obrigatória à edição pela Presença de “Colheita” de Jim Crace, um dos finalistas da última edição do Man Booker Prize (que, a julgar pela capa, ninguém diria que não se trata de um livro de literatura light) e, pela Cavalo de Ferro, de “Gostamos Tanto da Glenda” de Julio Cortázar, um volume de contos nunca antes publicados em Portugal e que é um ponto de partida para as comemorações do centenário do autor, que se aproxima a passos largos.