Na Feira do Livro, no último dia de compras, dei por mim na
banca da
Gradiva. Depois de vasculhar a zona das promoções, encontrei 2 livros
a 5€: “
Um Almoço Nunca é de Graça” do David Lodge e “
Corpo Presente” da Anne
Enright. Não tinha lido nada de nenhum dos autores, mas estavam os 2 bem
referenciados: um esteve na shortlist do Booker, o outro ganhou-o. Alguns
amigos defendem ardentemente o valor do David Lodge, mas li os textos das
contracapas e pareceram-me ambos interessantes. Que livro acabei por comprar? O
de Anne Enright, e podia aqui arranjar mil e uma justificações pomposas, mas a
verdade é que o comprei porque a capa era mais bonita (embora não fosse nada de
especial).
Neste momento estão já os puristas da
literatura a ter um ataque e a vociferar contra a futilidade das minhas
decisões. Mas, por muito importante que o conteúdo do livro seja, a sua componente
material também o é, caso contrário, para quê comprar livros? Porque não aderir
em exclusivo aos ebooks? Para quem quer manter vivas as edições em papel dos
livros, secundarizar a importância da componente estética não é um bom caminho,
mas a verdade é que muitas editoras ainda não chegaram a esta conclusão.
Há umas semanas a The New Yorker publicava um
artigo de Tim Kreider, ensaísta e cartoonista, com um título bem sugestivo: “The Decline and Fall of the Book Cover”. Kreider abre-nos as portas para os
bastidores do mundo editorial e dos processos de decisão a respeito das capas,
quase totalmente controlados pelas equipas de Marketing. E uma realidade parece
óbvia: as capas dos livros são cada vez mais semelhantes. Chegamos então ao
cúmulo de os marketeers, que deveriam advogar a diferença e lutar para que o
produto, neste caso o livro, se diferencie no mercado, se tornaram em
defensores do “vamos fazer como os outros”. Dominados pelo medo de ferir
susceptibilidades, de tomar alguma decisão que não agrade a alguém, criam-se
capas estéreis, banais, que são tão neutras que se tornam irrelevantes.
É verdade que a capa não é o factor determinante na decisão
de comprar um livro. Mas importa também distinguir 2 realidades: comprar um
livro de um autor conhecido e de um autor desconhecido. Se conhecemos o autor,
a capa terá uma importância muito secundária. Não vou deixar de ler Tolstoi porque
o livro tem a capa feia. Afinal de contas é Tolstoi! Mas se calhar, se estiver
com o “Guerra e Paz” numa mão e o “Anna Karénina” noutra, a capa mais interessante
é capaz de me convencer. No caso de um autor desconhecido, se não tenho
qualquer informação adicional, que remédio tenho se não deixar que a capa me
revele algo sobre a qualidade do livro.
E falando das capas enquanto reveladoras da qualidade dos
livros, um grande flagelo do mercado editorial actual é a percepção do género
do público a que o livro se destina e a adequação da capa em sua função.
Maureen Johnson escreveu no Huffington Post a respeito desta questão, e há que
reconhecer: a tendência é para que uma escritora tenha uma capa “feminina”, o
que limita de imediato o livro a ser “um livro para gajas”, ou seja, de fraca
qualidade. Maureen propôs inclusive um exercício chamado
Coverflip, em que o
desafio é simples: imaginar que capa teria um livro se o seu autor tivesse sido
alguém do sexo oposto. E de facto, os resultados dão muito que pensar.
Facilmente nos apercebemos do poder manipulador que algumas capas têm.
Recentemente deparei-me no nosso mercado com um caso
paradigmático de como uma capa pode limitar o público de uma escritora. Falo da
Isabel Allende e das reedições das suas obras pela
Porto Editora. Um grave erro
foi cometido! É praticamente impossível um homem (e algumas mulheres!)
comprar alguns dos livros sem se sentir extremamente ridículo. Fiquei contente
quando soube que, após o desaparecimento da Difel, a Porto Editora tinha
decidido reeditar a obra da Isabel Allende. Estava com muita vontade mesmo de
comprar o “
Paula”, mas quando vi a capa pensei “NÃO!!!” Um erro. Um enorme
erro. Limitar Isabel Allende à categoria de escritora para mulheres é um
preconceito enorme e uma total falta de compreensão da importância da sua obra.
Mas nem só de capaz más e preconceituosas vive o mercado.
Kreider dizia no seu artigo que a época das capas com ilustrações tinha
terminado. Já ninguém o fazia. E eu pensei “a
Tinta da China faz!” E de facto,
falar da importância do design dos livros em Portugal é falar da Tinta da
China, uma das poucas editoras a perceber que concebendo o livro como uma peça
artística, as pessoas têm uma maior percepção do “value for money” e que, em
vez de 15€ por um livro, se calhar estão dispostas e pagar 25€. É um risco? É
sim. Mas tanto quanto sei a vida não tem corrido mal à Tinta da China,
portanto, se calhar, correr riscos compensa. Há outras editoras que se destacam
também pelo cuidado gráfico nas suas edições: a
Relógio d’Água, a
Quetzal, a
Sextante, a
Antígona, a
Divina Comédia e a
Cavalo de Ferro, por exemplo. Na Leya depende muito do autor (as colecções
do
Saramago e do
Vargas Llosa são bons exemplos de edições cuidadas, mas outros
autores não têm a mesma sorte). Mas a Tinta da China joga noutra liga, no que
ao design diz respeito.
Acima de tudo, parece-me que algumas editoras têm de acarinhar mais os seus
livros. Eu posso ter um filho e gostar muito dele e pensar que ele tem grandes
qualidades intelectuais, mas se o mandar mal vestido para a escola estou a
condicionar a percepção dos outros. E nos tempos que correm a percepção é tudo.
Já dizia o outro: não basta sê-lo, há que parecê-lo.