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domingo, 28 de dezembro de 2014

Não voltarei a ler Lobo Antunes


Imaginem-se num país estranho. O chão parece todo coberto de mármore rosa, mas quando olham de perto percebem que são reles placas de vinil pintadas. E pensam “onde está o reino de mil maravilhas que me foi prometido?”. Rumam sem rumo, procurando algo que faça a viagem valer a pena. De repente dão por vós junto a uma escadaria enorme, íngreme, com minúsculos degraus. A sinalética indica que no topo da escadaria há um restaurante paradisíaco, digno de receber os deuses sedentos de ambrosia. A custo, decidem subir, e vão andando e andando, já vos dói os calcanhares, escorregam uma série de vezes, quase desistem a meio e, quando já as últimas forças vos abandonavam, chegam ao topo. E à vossa espera… a maior chafarica de sempre! Cadeiras velhas e desconfortáveis, baratas pelo chão, com sorte comem um prego de pão duro e carne cheia de nervo. Para mim ler Lobo Antunes foi isto.

Li o “Exortação aos Crocodilos” há 7 anos. Foi-me oferecido por uma grande amiga, a Sílvia, que coitada mais não fez do que satisfazer um desejo meu e é em nome dela que aceito que este livro permaneça sob o meu tecto. Para perceberem a dimensão da desgraça, ia eu na página 200 quando me apercebi que as narradoras do livro eram 4 mulheres e não apenas 3 e segui em frente, como se nada fosse, nem sequer ponderando voltar ao início. O estilo de escrita, muito baseado em vozes que se emaranhavam, em constantes movimentos de aproximação e afastamento, até me pareceu interessante, mas noutro contexto. Não ali. Tudo era tão estéril, tão masturbatório… Mas mantive-me fiel ao meu princípio de dar uma segunda hipótese a escritores e predispus-me a voltar a Lobo Antunes no futuro. Com esse objectivo em mente, há dois anos comprei na Feira do Livro o “O Manual dos Inquisidores” e coloquei-o em lista de espera, sem pressa.

Cruzei-me pouco com Lobo Antunes nestes anos. Fui ouvindo algumas declarações dele, polémicas por norma, mas já conhecia a sua fama de quando passei pelo Cenjor e uma entrevista que lhe foi feita pela Isabel Stilwell, penso eu que para o Diário de Notícias, era apresentada como exemplo do que não fazer. Mas foi no início deste ano, também por causa da Sílvia, que me ofereceu o “Os Escritores (Também) Têm Coisas a Dizer”, que voltei a contactar com Lobo Antunes mais de perto. A entrevista dele ao Carlos Vaz Marques incomodou-me, mas segui em frente, e até já estava convencido a ler o “Explicação aos Pássaros” quando li há poucas semanas outra entrevista de sua excelência no Diário de Notícias, que eu qualificaria como uma das coisas mais lamentáveis de sempre. Não por culpa do jornalista, coitado, que depois deve ter sido colocado a soro para limpar o organismo (um banho de salva, também não era mal pensado). Tanto disparate, tanta arrogância, tanta maldade proferida por alguém que diz considerar a bondade aquilo que mais admira nas pessoas. E assim fui empurrado para uma resolução: expurgar Lobo Antunes da minha vida. Não, não voltarei a ler Lobo Antunes. Já doei o “O Manual dos Inquisidores” a uma amiga. E passei estas semanas a recolher pérolas desta pessoa adorável para fundamentar a minha decisão.

Atenção: isto não quer dizer que eu considere que temos de gostar do escritor para gostar da obra, por norma a figura do escritor é-me indiferente, mas o Lobo Antunes esgotou a minha paciência e não quero perder mais tempo com ele. Prossigam neste texto por vossa conta e risco. Se são sensíveis a incoerências, ao chico-espertismo e carícias ao próprio ego fujam já, que o que se segue não é bonito.


A genialidade humilde do melhor de sempre


Lobo Antunes acha-se uma pessoa desinteressante. Ele não importa nada, o que importa são os livros. Mas os livros, é impossível falar deles. Ora, o que fazer então quando o autor não interessa e não se pode falar dos livros? Alguns de vocês, maldosamente, pensarão em “estar calado”, mas há que desafiar essas imagens feitas e falar desalmadamente, ter quase um guião montado que se repete de entrevista em entrevista. Dizer que se detesta entrevistas em entrevistas dadas no espaço entre entrevistas. Falar, falar, falar.

E porque os livros valem por si, e não precisam de mais nada, façam-se vídeos promocionais. Em que o autor se senta naturalmente junto a um piano, um candeeiro e um poster, que por acaso ali se encontram, e fala acompanhado por uma toada melancólica, risos em câmara lenta, citações e palavras que surgem para logo se desvanecerem. E viva a literatura pura!



Numa entrevista publicada na Única em 2010, Lobo Antunes falava do início da sua vida como escritor. “Ao contrário da minha família, que pensava que eu ia acabar na miséria, a vender pensos rápidos, eu tinha a certeza que não. Estava seguro do meu génio. Era uma coisa que não oferecia qualquer discussão.” Confiante o jovem Antunes, que há umas semanas afirmava no Público que “todo o escritor se acha o melhor senão não vale a pena escrever. Para não ser o melhor não vale a pena”, questão que felizmente para ele não é um problema, que sem pejo nenhum disse, numa entrevista à Fátima Campos Ferreira emitida pela RTP, “eu acho que sou o melhor”.

Mas se pensam que esta atitude revela falta de modéstia estão completamente enganados. Vejam bem, também na entrevista da Única, Lobo Antunes dizia: “Vou ficar. Estive a ler o texto de um crítico do "El País" que diz que daqui a cinco mil anos vou ser lido com paixão. Acho que ele tem razão.” No fundo é apenas uma vontade muito grande de não contrariar um crítico do El País, é um gesto de generosidade. Mas espera lá… o Lobo Antunes de 2014, no Diário de Notícias, quando confrontado com a excelente recepção que tem por parte da crítica portuguesa, e não apenas da internacional, não disse “não estou a falar em crítica de jornal, impressionista, mas da séria”? Estou algo confuso! Então a crítica em jornais é má, mas se for no El País a louvar o escritor já é boa? Mas se for em Portugal, com o mesmo louvor, já é má? E se não for a louvar, no estrangeiro? Muitas questões, cujas respostas estarão certamente nas múltiplas vozes que ecoam na cabeça de Lobo Antunes.

Se há coisa que Lobo Antunes faz questão de dizer é que tem muito orgulho de ser português. E do que é que ele não tem orgulho? Da literatura  portuguesa. “Porque é que a literatura portuguesa é tão má?”, dizia este grande nacionalista na entrevista ao Público. E na entrevista ao Diário de Notícias que motivou este meu artigo há a menção a Eça e Camilo como “pigmeus”, isso mesmo, autores sem capacidade de competir com os seus contemporâneos estrangeiros. Eu acho que o Lobo Antunes devia tomar um banho de álcool e fazer um jejum mínimo de uma semana antes de sequer mencionar os nomes de Eça e Camilo, mas quem sou eu!

Mas há algo que o Lobo Antunes gosta mais de fazer do que criticar os outros. Diz-se que a vida é feita de equilíbrio, e de facto uma pessoa tão rigorosa e exigente com os outros terá depois dificuldades em aplicar os mesmos padrões a si próprio (vá, vamos fingir que acreditamos nisto). O auto-elogio é uma das artes Lobo Antonianas, geralmente atribuído a outra pessoa e proferido com aquele ar de enfado que é um dos charmes de tão prestigiada figura. “O Christian Bourgois editor francês da obra de Lobo Antunes, com quem não falava de livros, escreveu-me uma carta, antes de morrer, em que diz: "Tu és meu irmão e não há escritor no mundo que admire tanto." Nunca me tinha dito isto. Era um homem que parecia seco, mas por baixo dessa frieza aparente havia um calor humano extraordinário”, revelava humildemente à Única, com o bónus da falar de si na 3ª pessoa, o que se compreende perfeitamente porque o homem é uma instituição. Em várias entrevistas esse mesmo tipo de admiração é atribuída a Cardoso Pires, Eugénio de Andrade e Jorge Amado. Curiosamente são sempre pessoas que morreram… Minto, o Steiner também está neste grupo que, segundo o modesto escritor confessou ruborizado à Estante, “disse numa entrevista que tinha vergonha de me conhecer porque era pequeno de mais ao pé de mim.“ O Steiner é uma pessoa de uma enorme elegância e é possível que tinha dito tal coisa, movido sobretudo pela educação. O que não é nada elegante é o destinatário de tais comentários fazer deles gáudio em entrevistas. Mas como vamos ver a elegância não é um dos fortes de Lobo Antunes.


Não te perguntes o que podes fazer pela tua editora, critica-a em público


Ai o grupo Leya… Coitados. Não deve ser pêra doce ter de gerir alguém como o Lobo Antunes. O mais espantoso nesta frustrante história é que já em 2008, na entrevista ao Carlos Vaz Marques, Lobo Antunes se queixava que não estava contente com a editora, dizendo que “não havia, não se sentia, não se via uma linha orientadora, um projecto editorial coerente”. Mas, quando a Dom Quixote foi integrada na Leya prometeram-lhe que seria uma editora de literatura sem concessões (introduzir riso). Pois bem, passados 6 anos e livros da Ana Zanatti e da Rita Ferro, livros infantis da Madonna e um sortido de policiais de ar duvidoso, terá a Dom Quixote conseguido esconder as suas opções de Lobo Antunes?

Na famigerada entrevista ao Diário de Notícia diz-se em alto e bom som: “o Grupo Leya tem muitas deficiências e não tem editores no sentido em que eu o entendo. São pessoas que publicam livros.” Isto depois de desacreditar o Prémio Leya, dizendo que os livros que ganharam não têm grande qualidade. Quantos terá ele lido? Ah, e diz também que o prémio tem muito dinheiro. Esses escritores pá, uns lambões a abotoarem-se com aquela dinheirama. Pouca vergonha! E as editoras a darem dinheiro a escritores?! Este mundo está perdido. Se ao menos eles fossem como o Lobo Antunes que diz que os prémios lhe dão jeito, sobretudo quando vêm com dinheiro… O quê?! Ai, querem ver que há aqui outra incoerência!

Não digo que algumas das crítica do Lobo Antunes à Leya e à Dom Quixote não sejam merecidas. Mas a relação autor/editora deve ser de confiança e de interajuda, caso contrário, de que vale todo o trabalho? O autor tem todo o direito a fazer críticas, mas à porta fechada. Mais uma vez, uma questão de elegância. Em última análise, se não é ouvido, tem bom remédio: mudar de editora! O que nos leva à pergunta que não quer calar: o que prende Lobo Antunes à Dom Quixote? Falta de opção não será. Ele dizia ao Carlos Vaz Marques que não era questão de dinheiro, que ele se borrifava para isso. Então, porque não tornar-se um eremita literário numa pequena editora? É curioso que os autores que clamam independência e criticam a lógica comercial acabem sempre em grandes grupos, uns a fazerem vídeos, outros a gravarem cds… A superioridade moral é de facto algo fácil quando se limita à verborreia. Há uma expressão americana que encaixa aqui que nem uma luva: put your money where your mouth is!


Lobo Antunes versus Saramago: nem a morte os separa


A rivalidade entre os dois escritores é famosa, ou melhor, de Lobo Antunes com Saramago, porque para ser sincero nas vezes que vi Saramago a falar de Lobo Antunes foi para relativizar ou defender-se. Aliás, ler a entrevista a Saramago seguida à de Lobo Antunes em “Os Escritores (Também) Têm Coisas a Dizer”, de Carlos Vaz Marques, permite identificar facilmente diferenças de atitude. Podia ter feito desta rivalidade o centro do meu artigo, mas as duas referências que encontrei a Saramago em entrevistas do Lobo Antunes são suficientemente elucidativas e sinceramente, sendo eu um fã confesso de Saramago, quis poupar-me a mais irritações. Vou por isso ser sintético e directo, sem adjectivar muito o que foi dito, porque não há necessidade de fazê-lo.

Na entrevista já aqui mencionada a Carlos Vaz Marques, em 2008, a respeito da inclusão da Dom Quixote no grupo Leya, o entrevistador provocou-o referindo que assim Lobo Antunes e Saramago estão no mesmo grupo. A irritação é logo evidente e, entre afirmações de que nunca leu nada de Saramago (ler um pouquinho dos “Cadernos de Lanzarote” e folheou um ou outro romance – daqui a minha saudação às pessoas que formam opiniões sobre um livro folheando-o), saiu-lhe a seguinte frase: “Ó Carlos, se me quiser arranjar competições arranje-me pessoas do meu tamanho.” (Vamos fazer um pequeno intervalo para recuperar a calma. Acho que todos precisamos… É nestes momentos que uma pessoa gostaria de fumar.)

E perguntam vocês: o que é que pode ser pior do que autonomear-se melhor do que um escritor que venceu o Nobel? Fazer pouco desse autor depois de ele ter morrido. Lembram-se da história da elegância de que falava no início, acho que se havia um resquício dessa palavra que pudesse ser associado a Lobo Antunes, na próxima passagem tudo terminará. O ponto alto da entrevista publicada em Novembro no Diário de Notícia, a respeito do Nobel:

Lobo Antunes: (…) Se um português ganhasse aquele prémio, como é tão importante seria uma alegria para as pessoas da nossa terra.

Entrevistador: Isso foi o que disse José Saramago!

Lobo Antunes: Ele disse isso? Então em alguma coisa acertou. Ele disse que era uma alegria para os portugueses?

Entrevistador: Sim, que cresceram 3 centímetros.

Lobo Antunes: Ele disse isso… Então quantos metros não cresceu ele na própria cabeça. É um homem especial e tem de ser visto da maneira como ele era, mesmo que agora tudo se vá desvanecendo devagarinho.

Quem cresceu uns metros na sua própria cabeça foi certamente Lobo Antunes quando recebeu o Prémio Jerusalém. “O Prémio quê?!”, perguntam vocês. “O Prémio Jerusalém!”, respondo eu com um ar ainda mais incrédulo. Como é que é possível que não conheçam o Prémio Jerusalém, que é o mais prestigiante do mundo literário segundo… Lobo Antunes, o único português que o recebeu, em entrevista à Fátima Campos Ferreira. Diz a sabedoria popular que uma mentira mil vezes repetida se transforma em verdade. Vamos tentar. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. (estão a sentir alguma coisa?) O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. (do meu lado nada!) O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. (acho que isto não vai resultar…)


Em jeito de conclusão


De quem é a culpa disto tudo? Das pessoas. Porque são elas que legitimam este actos ao acharem que alguém genial pode ser arrogante e dizer o que lhe vêm à cabeça e que nós, pobres mortais, nos devemos prostrar e sentir-nos abençoados por podermos assistir. Para mim com um grande talento, vem uma grande responsabilidade, o que ainda torna menos desculpáveis actos pouco dignos.

Não ponho em causa o valor literário da obra de Lobo Antunes. Não gostei do que li, mas acredito que haja outros livros bons. Mas também acredito que não se encaixam naquilo que é para mim um livro bom, porque os malabarismos literários, quando não são bem sustentados em boas histórias, não fazem muito o meu género. E fazendo uma análise custo benefício, acho sensato que o meu caminho e o de Lobo Antunes não se voltem a cruzar. De qualquer forma, ele próprio dizia que ninguém escreve bons livros depois dos 70 e tal anos…

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Em estado crítico: "No Café da Juventude Perdida" de Patrick Modiano


“A partir daquele momento, houve uma ausência na minha vida, um clarão que não só me causou uma sensação de vazio, como me impediu de ver. Toda aquela claridade cintilava em mim como uma luz viva, radiosa. E assim será, até ao fim.”


À deriva. Caminhando por ruas sem destino, na esperança de que o acaso nos leve a um lugar em que haja um sentido maior que se evidencie e que nos revele quem somos, o que devemos fazer, o porquê das coisas terem acontecido assim. E que essa descoberta nos dê o oxigénio que necessitamos para continuar, para que as miragens se convertam em realidade e das frustrações nasçam forças.

Modiano fala-nos em “No Café da Juventude Perdida” sobretudo de identidade. A memória, elemento comummente associado à sua obra, tem o seu contributo, mas que é secundário face às preocupações existencialistas condensadas na jovem Louki, que um dia, inesperadamente, entra na vida dos clientes habituais do café Condé. Louki? Ou devemos antes dizer Jaqcqueline Delanque? Logo no nome da protagonista a problemática começa-se a evidenciar. Jacqueline deixa que a clientela do Condé a trate por Louki, sem nunca os corrigir, porque no fundo um ou outro nome não fazem a diferença, ela continua sempre a ser a rapariga sem pai, com uma mãe distante, que a deixou deambular sozinha pelas ruas, a tentar encontrar respostas.

Na rua Jacqueline conhece Jeannette, apropriadamente conhecida como Caveira, e naquele momento o seu destino sela-se. Modiano não é muito claro sobre o que une as duas raparigas, deixam-se no ar insinuações de que pode ter ocorrido um episódio de violência sexual com dois conhecidos, mas nada é dito com clareza. O que sabemos é que a presença de Jeannette suscita em Jacqueline más recordações e que há uma certa tentativa de distanciamento quando decide casar com um homem que conhece mal, sem muitas mais razões do que ele afirmar que quer cuidar dela.

Mas o casamento é mais uma deambulação de Jacqueline e apenas serve para que tenha a certeza que aquele não é o seu lugar. E do casamento foge para umas sessões sobre ciências ocultas e, finalmente para o Condé, conhecendo pelo caminho Rolland que, curiosamente ou não, também não é conhecido pelo seu verdadeiro nome.

O percurso de Jacqueline até se tornar em Louki, a namorada de Rolland, é-nos apresentado por Modiano neste breve livro, divido em cinco partes, com a perspectiva de quatro personagens. Modiano, que é frugal na escrita, opta por uma construção da narrativa um pouco mais complexa e sobre a qual tenho algumas dúvidas, porque acredito que se a visão de Rolland ocupasse todo o livro o resultado final seria melhor. Na verdade Modiano é desde o início muito bem-sucedido na construção do ambiente, na espécie de sedução mística em que envolve a figura de Louki, na comunhão na desorientação que caracteriza os clientes do Condé. Mas a verdadeira dimensão do livro só se revela quando Rolland assume o controlo e deixamos de ter uma história interessante para termos algo que pressentimos ter um significado mais profundo.

Mas, contas feitas, que revela “No Café da Juventude Perdida”, o romance que a revista Lire considerou o melhor publicado em 2007, sobre as qualidades de Patrick Modiano? Diz muito. A suavidade de Modiano, a simplicidade da sua escrita, parecem à partida converterem-no num escritor olvidável. Mas é exactamente através dessas dimensões da sua escrita, que ele domina magistralmente, que consegue criar um elo com o leitor, talvez porque de início nos convença que vamos ler um livro emocionalmente distante e contido e, quando baixamos as guardas, nos surpreenda com uma intensidade cirúrgica de beleza delicada. Modiano promete!

“No Café da Juventude Perdida”
Patrick Modiano
Edições ASA

Classificação: 17/20

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Patrick Modiano, o Prémio Nobel que quase ninguém conhecia


Quem, fora da França, quando se levantou ontem, sabia quem era Patrick Modiano? Quase ninguém. O próprio Modiano possivelmente duvidava que a Academia Sueca sequer soubesse quem ele era. E lá estava ele, num jardim, a dar um tranquilo passeio matinal, quando a filha lhe liga para lhe dar a boa-nova. Coitado do homem que contava ter um dia normal e de repente tem pessoas da organização do Nobel a quererem entrevistá-lo por telefone. Modiano não consegue esconder o seu nervosismo e surpresa, gagueja, perde-se nas frases, balbucia respostas pouco coerentes. O resultado é este:

(podem ler uma transcrição da entrevista em inglês aqui)

Sempre que o vencedor do Prémio Nobel é um autor desconhecido erguem-se logo vozes. “Tem algum jeito receber cicrano o prémio e beltrano ficar de mãos a abanar?!”, dizem toldados por esse que é o mais nobre dos sentimentos – a indignação. Eu, que até sou uma pessoa que se indigna bastante, no que diz respeito ao Prémio Nobel da Literatura sou todo paz e amor. Se vencer um autor que eu conheça e goste (como no ano passado), perfeito. Se vencer alguém desconhecido, óptimo, porque isso quer dizer que vamos ter a oportunidade de conhecer um novo escritor. Livros serão traduzidos, livros esgotados serão reeditados e todos nós poderemos ler um autor que em princípio será de qualidade e que de outra forma se calhar nunca viríamos a conhecer.

Recebi por isso esta notícia com alegria e, nunca sequer tendo ouvido falar de Patrick Modiano, prontamente me dirigi à Wook onde, por sorte, ainda estava disponível “No Café da Juventude Perdida” a 4.9€, livro que prontamente encomendei e que passados 10 minutos já estava esgotado. Depois pesquisa-se um pouco sobre Modiano e afinal percebemos que às tantas nós é que andámos este tempo todo distraídos. Venceu o Goncourt, o Grand prix du roman de l'Académie française e o Austrian State Prize for European Literature. E até tem bastantes livros publicados em Portugal:

“Domingos de Agostos” e “Um Circo que Passa” editados pela Dom Quixote 
(ambos esgotados)

Na Rua das Lojas Escuras” editado pela Relógio d’Água 
(quase quase a esgotar)

”Dora Bruder” e “No Café da Juventude Perdida” editados pela Asa 
(ambos esgotados)

O Horizonte” editado pela Porto Editora

Após o recato e ponderação inerentes a uma leitura crítica poderemos então discutir os méritos de Patrick Modiano. Para já temos as palavras da Academia, que o elogia pela “arte da memória com que evocou os mais incompreensíveis destinos humanos e revelou o mundo quotidiano da ocupação”. A ver vamos.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Especulações sobre o Prémio Nobel da Literatura 2014


E chegámos à semana do ano em que os escritores mais conceituados do mundo sobrevivem à base de comprimidos de valeriana e de chás de doce-lima. Só o equacionar de que é possível receber o Nobel da Literatura deve ser o bastante para deixar qualquer um à beira de uma apoplexia, afinal de contas não é todos os dias que a nossa vida pode mudar por completo e, no caso do Prémio Nobel, isso acontece mesmo, não é só uma ideia senso-comum.

Pois bem, mas vamos à vaca fria: quem receberá o Prémio Nobel este ano? E comecemos já por expurgar desta conversa o nome de Murakami que, independentemente do que as apostas do Ladbrokes digam, não tem hipóteses nenhumas de ganhar o prémio, por não ter suficiente relevância literária (só li um livro dele mas cheira-me que não vou mudar de opinião) e por ser uma escolha óbvia. Diz-nos a experiência que a Academia não vai em ondas e raramente atribui o Prémio a quem manifesta querer recebê-lo e a quem tem grandes bases de apoio em campanha activa. Continuemos, dizendo que Margaret Atwood também pode estar sossegada no seu canto porque a probabilidade de duas mulheres canadianas receberem o Prémio em anos consecutivos é ínfima.

Dito isto, e tendo por base uma via meramente especulativa, é notório que há uma tendência, desde que Peter Englund assumiu o lugar de Secretário Permanente da Academia em 2009, para pagar dívidas. Vargas Llosa era a grande falha em termos de autores latino-americanos, Tomas Tranströmer era um eterno candidato e há 15 anos que o Prémio Nobel não era atribuído a um poeta, Mo Yan foi apenas o 2º chinês premiado (o que era um desequilíbrio gritante tendo em conta a dimensão do país e o facto do Japão já ter há muito dois laureados) e Alice Munro era uma eterna candidata e quase exclusivamente contista, género ignorado pela Academia até ao momento.

Seguindo a lógica das dívidas, na minha opinião há duas grandes falhas por parte da Academia:
  • Até hoje só receberam o Nobel da Literatura 4 autores africanos
  • Há apenas um laureado de língua portuguesa

E estes são dois problemas que a Academia tem de resolver. Resta saber qual será prioritário. Partindo destes dois grupos, eu aposto, com base no prestígio internacional, em 3 nomes. Se pesar mais o factor africano o vencedor deverá ser Ngũgĩ wa Thiong'o, pelo seu lado político (esteve preso durante 1 ano devido a uma peça de teatro) e por ter estado nos nomes apontados como favoritos nos últimos anos. Se pesar mais o factor língua portuguesa, o Brasil clama há muito por um Prémio que muitos pensavam que acabaria por ser entregue a Jorge Amado. Neste momento Ferreira Gullar parece-me ser dos autores brasileiros aquele com maior projecção internacional, e importa lembrar que para poder ser eleito para o Prémio Nobel tem de se ser nomeado previamente e a dimensão internacional tem nesse âmbito um papel fundamental.

Mas a minha grande aposta é uma 3ª via, a que concilia os factores África e língua portuguesa: Mia Couto. Será? Terá Mia Couto hipóteses? Certamente que tem e bastam dois argumentos: a vitória do Neustadt International Prize no ano passado (considerado o prémio literário de maior prestígio a seguir ao Nobel) e o facto de “Terra Sonâmbula” ser considerado um dos 12 melhores livros africanos do século XX.

Enfim, tudo isto são especulações assentes em critérios lógicos e não necessariamente em méritos literários. Mas quem sabe o que passa pela cabeça dos membros da Academia? Se muito bem calha ainda dão este ano o Prémio ao Philip Roth, depois de ele ter deixado a vida pública, só para contrariar. Tudo é possível!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Alice Munro, a mestre dos contos


«Não resistimos a revolver deste modo o passado e peneiramos factos indignos de crédito, juntamos nomes dispersos a datas e historietas dúbias, agarramo-nos a fios, insistindo em unirmo-nos aos mortos e, como tal, à vida.» 
Alice Munro em “A Vista de Castle Rock”


Há quem escreva sobre guerras, revoluções e amores épicos, emanando o dialecto do extraordinário. Frases pomposas, palavras grandiosas, personagens quase divinas, maiores que a vida, porque a vida é sempre menor que aqueles que a vivem. Alice Munro não é esse tipo de escritora. É no banal, nos pequenos momentos do quotidiano, na passagem lenta das horas, que Munro vive a sua escrita, elevando o mundano a extraordinário.

As suas personagens têm carne e sangue, e alimentam-se, e bebem água, olham o horizonte a pensar no futuro, deitam-se ao luar a recordar o passado. Vivem frustrações, vivem amores, vivem os dias. Vivem. Não são heroínas românticas, nem homens notáveis. São pessoas que vivem. Como nós.


Eu e Munro


Alice entrou na minha vida por acaso, como normalmente o faz quem nos é mais querido. Foi pela mão de uma das minha melhores amigas, que um dia, há 2 anos, me decidiu surpreender com o “A Vista de Castle Rock”, editado em Portugal pela Relógio d’Água. A escolha do livro foi bastante aleatória: tinha ouvido falar de Munro por alto, encontrou o livro numa promoção da Bertrand, leu a contracapa e achou que era um livro para mim. A escolha não poderia ter sido mais acertada e, se não estivéssemos já suficientemente ligados um ao outro, este livro cimentaria o que já era duro como rocha.

Comecei o livro a medo. Munro era até então uma incógnita para mim e o conto não era um género que me dissesse muito. E este é de facto o livro ideal para leitores com reticiências em relação a contos, porque há nele uma unidade que extravasa a natureza fragmentada que este tipo de livros por norma tem. Alice Munro conta-nos em 11 momentos a história da sua família, desde a partida da Escócia em busca de uma nova vida num novo continente, até à sua própria existência, num registo quase biográfico, mas sem os condicionantes do rigor factual.

Na parte final do livro, em que a Munro ficcionada, tão verdadeira quanto a Munro real, parte à descoberta das campas dos antepassados que invocou na 1ª parte do livro, viajando por caminhos desertos, vagueando por cemitérios abandonados, algo de inexplicável acontece. As folhas do livro desaparecem, a capa desintegra-se e, hipnotizados pelas palavras escritas, sentimos Munro ao nosso lado, partilhamos com ela um estado de consciência, num reconhecimento profundo da solidão e do desamparo. Tudo acabará ali. Também ela será um dia pó debaixo de terra, sob lápides partidas esquecidas no tempo. A única vez que senti algo semelhante foi com “Todo-o-Mundo” de Philip Roth, também no final do livro, quando o personagem principal visita a campa dos seus pais, mortos há já algum tempo. Há um sofrimento sóbrio no luto de mortes distantes, que simboliza com uma perfeição avassaladora a perda, porque apenas o tempo lhe confere a sua verdadeira dimensão.

Desde então que Munro faz parte do meu Olimpo de escritores, e nestes 2 anos comprei “O Amor de uma Boa Mulher” e “Fugas”, também da Relógio d’Água (como o são todos os livros da autora editados em Portugal). Por força da quantidade astronómica de livros que tenho por ler (a vontade de ler, como tradicionalmente, supera em muito o tempo para o fazer), ainda não os li, mas vou passá-los à frente. “Amada Vida”, o seu último livro e considerado por muitos como o melhor, será a minha próxima compra, com a promessa de uma leitura para breve. Aguardem por novidades nos próximos meses…


O que autores conceituados dizem de Munro


«As pessoas falam de Munro como uma “mestre do conto”. Mas mais do que uma mestre no género, Munro recriou-o. As suas histórias aparentemente tradicionais são tudo menos isso. Munro alterna entre múltiplos pontos de vista e planos temporais – coisas suficientemente complexas para nos deixarem de cabelos em pé – não para se exibir, mas para encontrar uma forma de conceder às suas histórias o máximo de densidade. É a escritora mais selvagem que alguma vez li, mas também a mais terna, a mais honesta, a mais perceptiva. Este é um daqueles anos em que ninguém se pode queixar da escolha do Comité do Nobel.»
Jeffrey Eugenides, vencedor do Pulitzer, 
autor de “Middlesex” e de “As Virgens Suicidas

«Ler Munro deixa-me num estado de reflexão calma, no qual penso na minha própria vida: nas decisões que tomei, nas coisas que fiz e não fiz, no tipo de pessoa que sou, na perspectiva da morte. Munro encontra-se num grupo restrito de autores, alguns vivos, a maioria mortos, que me vêm à cabeça quando digo que a ficção é a minha religião.”
Jonathan Franzen, vencedor do National Book Award, 
autor de “Correcções” e “Liberdade

(tradução e adaptação de testemunhos publicados pelo Washington Post)

«Alice Munro está entre os maiores escritores de ficção em inglês dos nossos tempos. A crítica americana e britânica tem-lhe atribuído mãos-cheias de elogios, tem recebido muitos prémios, e tem leitores internacionais devotos. Entre escritores, o seu nome é sussurrado. Ela é o tipo de escritor do qual se diz habitualmente – independentemente do quão conhecida ela se tornar – que tem de ser melhor conhecida.»
Margaret Atwood, vencedora do The Man Booker Prize, 

(excerto de um artigo publicado pelo The Guardian)

 


Livros de Alice Munro publicados em Portugal


Num artigo anterior, apresentei a lista de obras de Munro publicadas em Portugal (todas pela Relógio d’Água). Mas, porque sei que haverá muito apetite pelos livros da autora nos próximos tempos, aqui a têm novamente:

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Desbloqueadores de conversa sobre literatura: O Prémio Nobel da Literatura? Não é eleito pelo Professor Marcelo?


Todos os anos, no início de Outubro, um escritor ascende ao estatuto de Deus. Por muitos detractores que possa ter, o seu nome será inscrito na memória colectiva pelos anos vindouros, a sua obra chegará a mais países, as livrarias serão nos próximos meses invadidas pelos seus livros, muitos livros que, legitimados pelo Prémio Nobel, serão comprados com garantia de qualidade. Mas como ascende um escritor ao Prémio Nobel da Literatura?

Bom, para começar ajuda ter uma vasta e elogiada obra ou, em alternativa, ter nascido num país nórdico (o facto de haver muitos Prémios Nobel destes países não terá certamente nada a ver com o facto de o órgão que elege o premiado ser a Academia Sueca). Mas será este processo de eleição uma experiência mística, em que uma pitonisa com ligação directa ao Olimpo se apresenta perante a Academia Sueca anualmente, sussurrando em transe o nome do eleito? De maneira nenhuma. Receber o Prémio Nobel será certamente uma experiência transcendental, mas o processo de eleição está longe de o ser.

Na próxima 5ª feira vamos conhecer o laureado de 2013, mas na verdade tudo começou há algum tempo atrás, não na ilha do Sol, mas em Setembro do ano passado, altura em que o Comité do Nobel da Literatura enviou convites a quem reunia condições para nomear o próximo premiado. Quem foram os nomeadores? Os membros da Academia Sueca e outras academias, instituições e sociedades equivalentes a nível internacional, professores de literatura e linguística, anteriores laureados e os presidentes das sociedades de autores dos diferentes países. Os nomeadores tiveram até 31 de Janeiro para remeter as suas nomeações ao Comité, que avaliou a legitimidade da sua proveniência (para garantir que apenas nomeou quem o podia fazer), apresentando à Academia uma lista inicial para ser validada. A Academia, no seu site, alerta: «It often happens that the same names are put forward time after time, until the nominee either wins the prize or dies or the sponsors give up.»

Ora bem, o Comité reuniu a lista dos nomeados dos nomeadores qualificados e apresentou-a à Academia, que com base nela tomou uma decisão, certo? Não é bem assim. Acontece que a lista de nomeados é sempre alvo de uma censura inicial, na qual são retirados pelo Comité nomes que a Academia nem se predispõe a avaliar, nomeadamente, escritores científicos cujo trabalho não tem valor literário, escritores de qualidade duvidosa e escritores nomeados por outras razões que não pelos seus méritos literários. O Comité, constituído por 4 ou 5 membros da Academia, tem por isso um papel determinante, condicionando de forma não muito clara (existem critérios exactos para eliminar nomeados com base num critério de qualidade?) os nomes que serão considerados pela Academia.

O trabalho do Comité resultou então numa lista preliminar de cerca de 20 candidatos que foi apresentada à Academia Sueca em Abril, que a aprovou, devolvendo-a ao Comité, que teve a missão de a reduzir aos 5 nomes prioritários e apresentá-los à Academia em Maio (lista que ainda pôde ser alvo de alterações). Seguiu-se um Verão de ponderação, em que os membros da Academia leram as obras dos 5 candidatos, preparando-se para as sessões de aceso debate que decorreram no mês de Setembro, até que no início deste mês mais de metade da Academia Sueca chegou a acordo relativamente ao vencedor.


E pronto, ao vencedor resta celebrar no dia 10 de Outubro e a nós resta-nos arranjarmos espaço na prateleira para mais um autor. Quem será o vencedor este ano? A minha aposta vai para um norte-americano (EUA ou Canadá), sendo os meus favoritos a Alice Munro e o Philip Roth, mas acredito que seja possível que o eleito seja Cormac McCarthy ou, quem sabe, Joyce Carol Oates. A ver vamos…

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Candidatos portugueses ao Nobel da Literatura

Quando pensamos no Prémio Nobel da Literatura, pensamos em escritores sonantes. Mas quando analisamos a listagem divulgada de nomeados ao prémio até 1950, especificamente os de origem portuguesa, deparamo-nos com 6 nomes, 4 dos quais, a bem da verdade, são ilustres desconhecidos.

A entrega dos portugueses à saudade é directamente proporcional à sua falta de memória (quanta ironia) e certamente não espantará ninguém que autores que há menos de 100 anos eram considerados incontornáveis, sejam hoje apenas nomes que nada nos dizem. Que tal lutarmos contra essa tendência tão nacional e, por minutos, dedicarmos a nossa atenção a estes escritores esquecidos? E, quem sabe, comprar uns livrinhos...


João da Câmara

O primeiro nomeado português ao Nobel da Literatura era um fidalgo, que se dedicou sobretudo ao teatro, tendo escrito cerca de 40 peças durante a sua vida. Alcançou particular sucesso com dramas históricos de cariz patriótico muito ao estilo romântico, nomeadamente “D. Afonso VI”, “Alcácer-Quibir” e “O Beijo do Infante”, sendo também marcantes os seus dramas realistas – “Os Velhos” e “Rosa Enjeitada”- e alguns simbolistas (na nomeação ao Nobel era referida a peça “Meia-Noite”).

Surpreendentemente, tendo em conta o quão pouco conhecido é João da Câmara actualmente, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) publicou o teatro completo deste autor em 4 volumes.


João Bonança

Primeiro sacerdote, depois jornalista, e por fim escritor, consta que João Bonança terá sido autor da "Historia da Luzitania e da Iberia", conseguindo a proeza de ser ainda mais desconhecido do que João da Câmara.

Consegue-se comprar o "Historia da Luzitania e da Iberia" em alguma livraria? Conseguir, consegue-se, mas apenas em alfarrabistas e a preços exorbitantes. Confiram na loja online da Avelar Machado.


António Corrêa D’Oliveira

E o homem português mais vezes nomeado para o Nobel da Literatura é…um perfeito desconhecido. O facto de ter sido nomeado 15 vezes nas décadas de 30 e 40 ao Nobel não será alheio ao facto de a sua poesia ter um forte pendor patriótico e ser considerado o poeta do regime.

Onde comprar livros deste autor? Nem é preciso procurar muito. Na loja online da Bertrand encontram o livro “Correspondência de Trindade Coelho Para António Corrêa D'Oliveira” e, na da Bulhosa, o “A Família é o Lugar”. Encontram-se também em alfarrabistas alguns livros, nomeadamente “Os Teus Sonetos” e “Auto das Quatro Estações”.
  

Maria Madalena de Martel Patrício

Dois factos dignos de nota: Martel Patrício ocupa o segundo lugar em termos de número de nomeações ao Nobel da Literatura (quem diria que seria uma mulher?!); e isto é praticamente tudo o que há a dizer sobre ela, uma vez que o seu rasto na internet é quase inexistente.


Teixeira de Pascoaes

Finalmente um nome conhecido! Mas o que há a dizer sobre Pascoaes? Quase um eremita, foi uma espécie de figura mística que dedicava a sua escrita à exploração da saudade, tendo sido um dos nomes cimeiros do movimento Renascença Portuguesa. Uma espécie da líder espiritual para poetas como Eugénio de Andrade e Mário Cesariny.

Se procurarem nas livrarias, em princípio não terão dificuldades em encontrar livros do Teixeira de Pascoaes, mas em caso de dificuldade a solução está no site da Assírio & Alvim, editora que tem publicado de forma exaustiva as suas obras.


Júlio Dantas

E por último, o grande Júlio Dantas. Ou melhor dizendo, o pobre Júlio Dantas, esse escritor maldito, contra quem foi escrito um manifesto que, ironicamente, será para as gerações futuras um dos únicos testemunhos da sua existência. Dantas era no seu tempo um intelectual de craveira, um dos mais prestigiados dramaturgos portugueses, tendo “A Severa” e “A Ceia dos Cardeais” um lugar de destaque entre as peças de teatro nacionais. Mas num país que precisava mudar, o tradicionalismo de Dantas condenou-o como conservador, e o seu nome foi considerado em certos círculos como o símbolo da cultura a derrubar.

A eficácia deste movimento foi tão grande que Júlio Dantas desapareceu dos catálogos das editoras e das livrarias, renegado para os alfarrabistas. Na loja Vintage da Pó dos Livros encontra-se uma edição de “A Ceia dos Cardeais”, havendo também vários livros antigos do autor na Avelar Machado, entre os quais “A Catedral”.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Cheiro a livro novo - Setembro de 2013


Setembro é o mês das grandes novidades literárias e algo ficou claro: a recta final do ano será dominada pelos grandes grupos editoriais, que já têm as suas novidades nas livrarias e prometem uns próximos meses agitados.

E porque Outubro é mês de novo Nobel da Literatura, Setembro é o mês de editar antigos premiados. Se no ano passado a Quetzal marcou o final do ano com a edição de “A Piada Infinita” do Foster Wallace, este ano parece pronta a repetir a proeza com algo inédito em Portugal: com apenas 8 dias de diferença da edição espanhola, foi editado em português o novo livro de Vargas Llosa, “O Herói Discreto”. Se isto não é algo marcante, não sei o que será. No mínimo é um precedente fantástico e que talvez aponte caminho para o futuro da edição em Portugal.

Para fazer frente a esta iniciativa de peso, a Dom Quixote acena com a edição do último livro de Coetzee, “A Infância de Jesus”. Mas porquê ter apenas um Prémio Nobel quando se pode ter dois ou três, certo? Não fosse Coetzee sair-se mal no confronto com Vargas Llosa, a Dom Quixote conta ainda com a mais do que necessária reedição de “O Lobo das Estepes” de Hermann Hesse (que não se encontra nas livrarias desde a falência da Difel) e na edição de mais um livro de William Faulkner, “Mosquitos”.

Fora dos grandes grupos, a única editora a aventurar-se para já no mundo dos Nobel da Literatura é a Cavalo de Ferro, que continua a publicação de obras de Knut Hamsun, desta vez com “Mistérios”. Mas a fidelidade da Cavalo de Ferro aos seus autores não se fica por aqui e, alguns meses após a edição do 1º livro, a publicação das obras completa de Ferreira de Castro continua, desta feita com “A Missão”, que é para já a melhor capa da reentrée literária.

E por falar em autores portugueses, a grande novidade do mês é sem dúvida o primeiro livro de Valter Hugo Mãe com a Porto Editora – “A Desumanização”. Outro marco de Setembro é a edição pela Dom Quixote da “Antologia Poética“ de Natália Correia, uma das figuras de proa da cultura portuguesa do séc. XX e que, misteriosamente, tinha desaparecido das livrarias e dos catálogos das editoras.

Fora estas novidades de literatura portuguesa, a Assírio & Alvim presenteia-nos com a reedição de obras de duas mulheres incontornáveis: Maria Velho da Costa, com “Casas Pardas”; e Sophia de Mello Breyner Andresen, cuja obra poética começa a ser reeditada com “No Tempo Dividido”, “Mar Novo”, “Poesia” e “Coral”.


E as principais novidades de Setembro são estas. Duas notas finais: primeiro, a Relógio d’Água está assustadoramente calada, falando-se em alguns artigos de imprensa que a publicação de “Ulisses” de James Joyce e de “Guerra e Paz” de Tolstói está prevista para os próximos meses, mas até ao momento não há lista de novidades de editora, como habitualmente, nem nenhum livro publicado em Setembro; segundo, a Tinta da China entrou em Setembro com várias novidades, mas algo de estranho – a ficção ficou de lado, o que é preocupante, tendo em conta que são desta editora duas das melhores colecções de ficção dos últimos anos (a de Literatura de Humor e Clássicos). Reservar-nos-á a Tinta da China novidades de ficção para breve?