Um pequeno recital de poesia a assinalar o Dia Mundial da
Poesia que hoje se comemora. E para mim, nos últimos tempos, poesia tem sido
sinónimo de Adília Lopes, uma figura que me tem fascinado pela simplicidade
aparente dos seus poemas, quase ingénuos, e pela sua existência num mundo tão
distante do nosso, de olhares bucólicos para um tempo que passa devagar.
Em 1994, passados 10 anos da morte de Julio Cortázar, Tristán Bauer homenageou o escritor com “Cortázar”, um documentário concebido como se fosse um livro de Cortázar, com múltiplos recortes que se sobrepõem na esperança de chegar a uma realidade última, um sentido para lá do sentido racional das coisas.
Excertos de entrevistas, gravações áudio feitas pelo próprio Cortázar, leituras de textos seus e até tangos que ajudou a criar, compõem esta pequena mas profunda viagem que humaniza alguém que de outra forma seria apenas palavras escritas em papéis reunidos em livro.
“A minha obra foi feita na solidão. Foi feita na pobreza. Foi feita sem o menor apoio editorial e quando os editores despertaram para os meus livros, os de Fuentes, os de García Márquez, os de Vargas Llosa, despertaram porque as precárias e difíceis primeiras edições haviam sido bruscamente lidas por uma grande quantidades de pessoas, que as passou de mãos em mãos. E os editores, que não são tontos e que existem para ganhar dinheiro, compreenderam perfeitamente que tinham de editar esses escritores. Eles não nos inventaram. Nós escreveos sós.” – Julio Cortázar
“A partir do momento em que eu entro num lugar onde eu nem
sequer estou no real, pode entrar quem quiser.” (no programa O Que
Fica do Que Passa, do Canal Q)
“Worn Out
With Desire to Write”: Documentário sobre Marguerite Duras, realizado pouco
tempo depois da publicação de “O Amante” e da atribuição do Prémio Goncourt.
“Precisava
de tempo porque não queria falar sobre a minha vida, não queria falar sobre a
minha experiência. Queria propor uma reflexão sobre a perda.” (Dulce Maria
Cardoso no “Ler +, Ler Melhor” da RTP2, sobre o livro “O Retorno”, editado pela
Tinta da China)
«He is
condemned to go through life with that terrible and imposing expression, which
really does a great deal of injustice to his kindly nature.» (George Bernard
Shaw a respeito de Mussolini)
O momento em que um grupo de jornalistas anuncia a Doris
Lessing que acabou de ganhar o Nobel da Literatura é um clássico, uma
inesgotável fonte de diversão. “Oh Christ!” diz Lessing, como quem diz “Isto
agora é que não vinha nada a calhar! Se eu soubesse não tinha ido às compras e
tinha-me arranjado um bocadinho melhor”. A surpresa de Lessing era de resto
bastante representativa do sentimento de quase todo o mundo literário.
Há uns meses li um artigo
na New Yorker que vos recomendo vivamente, intitulado “Doris Lessing and the Perils of the Pseudonymous Novel” e que, a respeito da revelação de que J. K.
Rowling tinha escrito um livro usando um pseudónimo, recorda um feito
semelhante de Doris Lessing, que apresentou “The Diary of a Good Neighbour” a
uma editora como sendo a primeira obra de Jane Somers. O livro foi
absolutamente dilacerado por um jovem leitor contratado pela editora (o
penitenciado autor do artigo, importa referir), facto que na altura gerou muita
polémica. O que levanta muitas questões sobre os méritos próprios dos livros e
a forma como o prestígio de um autor condiciona a crítica, mas isso será tema para aprofundar noutra altura.
Agora que Doris Lessing morreu, momento propício a reflexão, não deixa de ser importante referir que a edição das obras desta autora em Portugal tem sido errática e estranha, estando dispersas por várias editoras (Presença, Ulisseia, Europa-América, Cotovia…) e sem que"The Golden Notebook", o livro mais importante da autora, tenha sido publicado.
Quanto à minha relação com Lessing, até ao momento comprei dois livros seus, “O Sonho Mais Doce” editado pela Presença e “Gatos e Mais Gatos” da Cotovia, mas confesso que
ainda não li nenhum, pelo que não posso defender a sua qualidade literária,
embora tenda a acreditar que um autor que ganhe o Nobel tem de ter qualidade (teoria que acidentes de percurso, como Herta Müller, me levam a questionar). Mas pode ser que alguma editora portuguesa se lembre entretanto que “The Golden
Notebook” existe e nos surpreenda, compelindo-me a ler Doris Lessing com urgência. Será?
«Quando eu escrevo é uma atitude quase científica. Eu preciso de conhecer, eu preciso de saber, eu preciso de explicar.» (Documentário “Agustina
Bessa-Luís: nasci adulta e morrerei criança”)
“That often happens with artists. The act of remembering, saying “this is how it was”, runs up against official truth.” (Salman Rushdie em entrevista ao Times Talks)
"Only a very great artist can say everything without saying anything."
(George Steiner no programa "O Belo e a Consolação", quando se preparava para editar "Errata")