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quinta-feira, 10 de abril de 2014

A ESTANTE é lançada hoje pela FNAC


“No dia 10 de Abril a FNAC vai oferecer estantes”, referia a primeira de um conjunto de mensagens enigmáticas que a FNAC colocou na sua página de Facebook. A grande maioria das pessoas terá pensado que se tratava de mais um passatempo, expectavelmente com alguma ligação ao mundo dos livros. E de facto, é de livros que a FNAC nos quer falar, mas a respeito de algo bem mais excitante que um passatempo.

Hoje, pelas 18h30, juntam-se na FNAC do Chiado Valter Hugo Mãe, Teolinda Gersão e Rui Zink para apresentarem a ESTANTE, uma revista trimestral com a chancela da FNAC, que promete boas leituras para os amantes de literatura, tendo o primeiro número como tema central os 800 anos da língua portuguesa. De referir que a primeira ESTANTE, que será gratuita (os restantes números custarão 1.5€, segundo o que consegui apurar), terá um editorial da autoria de Valter Hugo Mãe, que se for tão bom como o texto que escreveu para a Granta estaremos certamente muito bem servidos.

Segundo Jorge Guerra e Paz, responsável de Comunicação Institucional e Cultural da FNAC, “esta é uma revista para viver fora da estante. Sem limites de suporte. É uma revista para quem não se cansa de folhear páginas, de sentir o papel nas mãos e de o ler. A ESTANTE são páginas para amantes de livros, sobre livros, autores, ideias, mas também sobre o mundo em que vivemos e como interagimos.”

A Estante, que será a revista de cultura com maior tiragem em Portugal, contará com quatro secções: vírgula (introdução e breves), parênteses (grandes entrevistas e artigos de fundo), reticências (novidades literárias) e ponto de interrogação (infantil).

Parece-me sinceramente que esta é uma acção muito bem pensada pela FNAC, que lhe granjeará certamente uma maior credibilidade institucional e lhe permitirá cada vez mais apresentar-se como um dinamizador cultural na área da literatura e não apenas como uma loja onde se compram livros. Resta-nos agora esperar pela revista, que estará pelas lojas a partir de dia 11 de Abril. Para já, fiquemos com o vídeo de apresentação.




domingo, 9 de março de 2014

O que é que a Granta tem? “Rescaldo” de Rachel Cusk



Cunfuso. Assim se descreve da melhor forma o meu estado de espírito após ler o conto de Rachel Cusk, em que o divórcio e os papéis de género são os temas principais. Na verdade o divórcio é o ponto de partida, mas é a problemática do género que assume um maior destaque, num discurso tendencialmente racionalizante mas com pitadas de arrebatamentos emocionais.

No início ficamos com a ideia que Cusk nos levará a uma visão esclarecedora e pouco óbvia do papel da mulher na sociedade moderna. Fala-nos mesmo de como o papel de mão e de dona de casa afastaram a sua mãe do seu lado feminino, a tornaram menos mulher. O conceito de mulher está então aqui associado a uma pulsão sexual e, ao reprimi-la, reprime-se a feminilidade. Faz sentido. Ou faria, se todo o restante discurso no conto não fosse contraditório e, de repente, Cusk não categorizasse a educação académica como uma experiência que masculiniza a mulher, culpabilizando a sua mãe por a ter condicionado a agir como um homem. Tenho alguma esperança que este discurso seja irónico, embora não parece sê-lo, e é de resto apenas um dos exemplos de categorizações no texto de actividades masculinas ou femininas, cujo ex libris é a referência a si e ao seu ex-marido como “travestis” porque ele estava em casa a tomar conta das filhas (tornando-se numa mulher), enquanto ela trabalhava (tornando-se num homem).

Interessante que em todo o conto não haja espaço para falar de sentimentos e de amor, mas apenas de categorias pouco criteriosas percepcionadas por uma sociedade indefinida. Fiquei com a sensação que Rachel Cusk é uma daquelas feministas de trazer por casa, que se serve das causas quando lhe é conveniente: igualdade de género nos direitos que a beneficiam, mas condição de excepção quando já não é o caso – como quando o que está em causa é a guarda das filhas e o argumento “as filhas são da mãe” é demasiado sedutor. Um momento não muito brilhante.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Como publicar um conto na Granta


O Natal já passou, mas pelos vistos a Granta reservou um mega presente para alguns felizardos e criou um desafio que permitirá a jovens escritores de língua portuguesa (nascidos após 1 de Maio de 1975) terem os seus contos publicados numa edição especial da revista, à semelhança do que já é tradição na edição inglesa.

Segundo Carlos Vaz Marques "no mundo de língua inglesa, o número especial que, de dez em dez anos (desde 1983), é dedicado aos "twenty under forty" já é um marco, tendo ajudado à projecção de autores como Julian Barnes, Martins Amis e Kazuo Ishiguro. A nossa ambição é fazermos o mesmo para a língua portuguesa."

Jovens escritores talentosos do mundo lusófono eis a vossa oportunidade. Submetam o vosso conto, com um mínimo de 10 mil caracteres e um máximo de 50 mil, até 31 de Julho e arrisquem-se a vê-lo publicado na revista que chegará aos escaparates em Maio de 2015. Já tinha referido que esta edição será também traduzida para inglês e distribuída além fronteiras?


Podem consultar o regulamento aqui.

domingo, 19 de janeiro de 2014

O que é que a Granta tem? “Gente famosa” de Orhan Pamuk


Personagens que em pouco mais de 20 páginas ganham vida própria, são movidas por vontades, têm carne e osso, não sendo meras criações unidimensionais de um escritor que lhes indica o caminho que vão percorrer. As personagens de Pamuk andam pelos seus pés, e o escritor acompanha-as, registando os seus percursos, eternizando na escrita as suas vidas. E é essa a magia de um conto no qual não acontece nada de notável, mas que no pulsar dos pequenos momentos inscreve no leitor impressões profundas.

Através de Pamuk ficamos a conhecer a história de dois irmãos que, noutros tempos mais simples, se entretinham a brincar com cromos de pessoas famosas que saíam nas pastilhas elásticas. Entre os jogos do “Cima ou Baixo”, que lhes permitiam ir trocando cromos, há uma tragédia familiar que se vai discretamente desenrolando: o pai das crianças parece ter abandonado a família. Ali, um dos irmãos, pelos olhos de quem vemos a história, estando consciente da ausência do pai, como criança que é, está mais preocupado em desafiar o irmão e completar a sua colecção de cromos. E enquanto a mãe sofre com a partida do marido, Ali sofre com a perda dos seus cromos para o irmão.

Esta foi a minha primeira leitura de Orhan Pamuk, Prémio Nobel da Literatura, e não poderia ter ficado com uma melhor impressão. Mais do que procurar cenários novos, Pamuk apresenta-nos o que nos é familiar, mas sobre um novo ponto de vista. Sem grandes artifícios. Sem esforço para surpreender. Apenas partilhando vivências. Um autor a descobrir.

domingo, 22 de dezembro de 2013

O que é que a Granta tem? “Espelho da água” de Rui Cardoso Martins


Uma manhã normal a bordo de um cacilheiro que atravessa o Tejo, levando para Lisboa as suas hordas de trabalhadores. É assim que começa o conto de Rui Cardoso Martins, em que a normalidade rapidamente é colocada de lado quando os esforços para pescar um choco (outro choco na Granta?!) são interrompidos pelo cadáver de uma mulher a boiar nas águas do rio. Desse avistamento perturbante parte-se para um périplo por alguns dos viajantes do barco, que em breves instantes nos revelam o que lhes vai pela cabeça.

O conceito deste conto é interessante, sem dúvida, mas parece-me que a forma como as personagens foram compostas não contribui muito para o sucesso da história. Os detalhes das vidas das personagens, a forma como falam, até mesmo o tipo de personagens que encontramos naquele barco, tudo parece estar perigosamente próximo do cliché. Ao que acresce uma falta de coesão que é tanto consequência de um discurso diletante, com saltos abruptos entre discurso directo e indirecto que não conseguem tornar a leitura mais cativante, como de um ângulo não muito claro da história. Em alguns dos relatos confessionais dos passageiros, o cadáver a boiar parece ser uma ponte para os seus pensamentos, noutras nem por isso. A mulher morta e aquelas personagens estão portanto ali por acaso? Os pensamentos das personagens seriam os mesmos se não houvesse a morta? Talvez o objectivo seja só relatar uma viagem de pessoas que vão para Lisboa, numa abordagem de mera observação, sem qualquer propósito narrativo maior. Mas será relevante fazê-lo?

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O que é que a Granta tem? “Diário de um fumador” de Simon Gray



Equilíbrio. A boa escrita é um jogo de equilíbrio, um tapa e destapa constante que envolve o leitor, proporcionando-lhe uma viagem emocional, e não apenas  a leitura das palavras que alguém escreveu. Seria demasiado fácil para Simon Gray apresentar-nos um relato dramático da doença e dos inconvenientes da velhice, ainda por cima no formato de diário, tão convidativo a um tom excessivamente confessional e frequentemente indulgente. Mas Simon Gray não quer lágrimas, se algo o move é a partilha das histórias e dos pensamentos que ainda tem em si.

A doença e a velhice estão lá, mas quase sempre vivenciadas por outras pessoas: Harold Pinter, por exemplo (sim, estamos a falar do vencedor do Prémio Nobel da Literatura), ou um homem cujas peripécias Simon acompanha ao longe, durante as férias, e a que carinhosamente chama o “Sr. Alzheimer”, embora no final comece a ter dúvidas que ele tenha de facto Alzheimer. Na preocupação com a doença de Harold Pinter percebe-se um efeito espelho, uma preocupação consigo próprio e com a doença que o assombra, mesmo que inconscientemente, ou não fosse ele um fumador convicto.

Pelo meio há histórias de infância, algumas melancólicas (o tempo passado na casa dos avós), outras divertidas (a obsessão pela literatura de laivos eróticos de Hank Janson). Há também teorias sobre a importância histórica das hemorróidas, silenciosos conflitos com outros hóspedes pela conquista do melhor lugar no areal do hotel e breves momentos em que o cansaço e um sentimento de derrota se apoderam da escrita.


E é nesta gestão daquilo que nos conta que se revela a excelência de Simon Gray, que domina como ninguém a técnica do diário, à qual confere um registo de oralidade que torna a leitura ainda mais envolvente. Na verdade não estamos a ler algo, estamos a conversar com um amigo, um amigo com muito para contar. Obrigado Granta.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O que é que Granta tem? "Jazz, rosas e andorinhas" de Afonso Cruz



Dizia um professor meu que a objectividade era a explicitação de subjectividades. Sábias palavras que me obrigam a dizer-vos, desde já, que comecei a ler o conto do Afonso Cruz, “Jazz, rosas e andorinhas”, com um pé atrás e alguma curiosidade (ainda não tinha lido nada dele). Em tempos, na Pó dos Livros, folheei a “Enciclopédia da Estória Universal” e “O Livro do Ano” e de imediato se formou na minha cabeça a ideia de que o Afonso Cruz era um escritor algo pedante. Tenho uma tendência natural para achar que quem aposta demasiado na forma é porque não tem muito para dar em termos de conteúdo e aquela rejeição ostensiva de uma estrutura tradicional suscitou-me reservas. Mas estou sempre disposto a ler e a destruir os meus preconceitos.

Tendo lido “Jazz, rosas e andorinhas” tenho coisas más para dizer, mas também tenho coisas boas. Comecemos pelo mais difícil. Não gostei dos diálogos, achei-os muito pouco naturais. Convenhamos, conversar com um estranho que nos invadiu o quarto de hotel sobre a natureza do “eu” não é algo muito verosímil. E o diálogo, no início do conto, entre a personagem principal, Erik, e o seu amigo Isaac, deixa muito a desejar. Parece um aglomerado de frases pré-feitas às quais se tenta impor um sentido de coerência, mas que pouco mais conseguem do que uma conversa de surdos. A estes diálogos mancos junta-se um conceito excessivamente cerebral, que dá ao conto uma aura de superficialidade e de distanciamento que não me agrada, e uma imagem inicial, a do desiludido por amor que abraça nu um canteiro de rosas, que consegue a proeza de ser forçada mas ao mesmo tempo um cliché. E pronto, estamos falados quanto a defeitos.

Dito isto, o conto não é mau. A ideia, apesar de muito cerebral, é pelo menos interessante e memorável. Há um bom timming de narrativa, que torna a leitura fluida, mesmo que a escrita nem sempre seja tão musical quanto seria desejável. E há algumas ideias bastante poéticas, como a do homem que insiste em telefonar para uma casa vazia na esperança de encontrar a mulher que o deixou. Perante esta imagem, estamos até dispostos a esquecer o percalço inicial do abraço às rosas.


Resumindo e concluindo, “Jazz, rosas e andorinhas” não é um dos pontos altos da Granta, mas também não é um mau momento. É um conto eficaz o suficiente para deixar um leitor que não conheça Afonso Cruz com vontade de ler mais coisas suas. Eu vou ler, sem dúvida.

domingo, 6 de outubro de 2013

O que é que a Granta tem? "Esboço para um Livro" de Ryszard Kapuściński


O poder da oratória na política foi-se perdendo, acompanhando o crescente descrédito da palavra dos políticos. Parece-nos por isso exótico o mundo que Ryszard Kapuścińsk nos apresenta, em que países clamam pela liberdade, gente alheia aos media toma decisões com base em contactos directos que tem com os políticos, e jornalistas idealistas colocam a sua vida em risco para cobrir acontecimentos que lhes parecem incontornáveis. Há neste mundo uma inocência comovente, de quem ainda não foi pervertido. Mas será mesmo assim? Não me parece que usar o racismo como resposta ao racismo seja um acto inocente…

“Esboço para um Livro” é um texto interessante de Ryszard Kapuścińsk, que nos dá que pensar, sem ser politicamente correcto, embora não percebamos exactamente onde é que o tema do “EU” encaixa, mas esse é um problema editorial que nada tem a ver com Kapuścińsk. Há um estilo jornalístico muito vincado no texto (já vos disse que Kapuścińsk é um conceituado jornalista?) e confesso que, desde o desaire de “Por Quem os Sinos Dobram” do Hemingway, a minha relação com híbridos de jornalismo e literatura nunca mais foi a mesma. Talvez por isso sinta que falta uma dinâmica narrativa mais forte, capaz de prender e marcar o leitor. Mas não deixa de ser uma leitura agradavelmente descontraída.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O que é que a Granta tem? Poemas inéditos e reeditados de Fernando Pessoa



Pisamos terreno sagrado e perigoso. Manda o bom senso que duas ressalvas iniciais sejam feitas. A primeira para realçar a genialidade inquestionável de Fernando Pessoa. A segunda para reconhecer a sensatez do director da Granta ao decidir publicar inéditos do espólio pessoano.

Talvez pelas justificadas elevadas expectativas que o nome Pessoa suscita, serei obrigado a dizer que, por muito sedutora que seja a ideia de ler inéditos do autor, os poemas apresentados não me deixaram extasiado. Jerónimo Pizarro e Carlos Pittella-Leite propõem-nos oito sonetos de Fernando Pessoa, cinco inéditos – três reeditados, cinco completos – três inacabados. A decisão de incluir poemas inacabados parece-me particularmente questionável. Iria mais longe: a decisão de quem gere a obra literária de Fernando Pessoa de permitir a publicação deste tipo de poemas pode ser até danosa para a imagem do poeta, tão dado à perfeição. Compreendo que, dado o relevo de Pessoa, haverá um interesse académico por estes escritos, mas convenhamos: será relevante para o leitor conhecê-los? E seria da vontade do autor que fossem publicados? Não me parece. Mas, falarei com maior profundidade da questão das publicações póstumas nas próximas semanas, voltemos agora à Granta.

Dos cinco sonetos inéditos, o que mais se destaca é sem dúvida “Alma de Côrno”. Porquê? Porque é surpreendentemente irreverente e bem-humorado, como uma boa dose de referências indirectas a questões escatológicas. É divertido e leva-nos a questionar a imagem séria e cerebral que temos de Fernando Pessoa. Os outros dois sonetos completos, “Soneto de Mal-Dizer e “Que Posso Eu Dar”, são interessantes mas inócuos.

Nos três poemas reeditados encontramos o melhor e o pior de Pessoa. “Mãe de Deus” é um soneto incompleto e percebe-se porque é que não foi acabado, mas a verdade é que mesmo que o tivesse sido não faria grande diferença. Já de “O Rei” apenas se pode dizer bem. Com um lirismo que caracteriza muita da poesia do ortónimo, Pessoa evidencia a transcendente superioridade do espiritual face ao terreno e corpóreo, contrapondo à figura do Rei a de Jesus.

O balanço é claramente positivo, embora as expectativas não tenham sido concretizadas. E de que melhor forma terminar do que com uma das estrofes de “O Rei”? Deixo-vos com Pessoa.

“ O Rei, cuja coroa de oiro é luz
Fita do alto do throno os seus mesquinhos
Ao meu rei coroaram-O de espinhos
E por throno Lhe deram uma cruz.”


(poema completo na p.115 do 1º número da Granta)

domingo, 15 de setembro de 2013

O que é que a Granta tem? “Mar Negro” de Ricardo Felner





Em 10 páginas Ricardo Felner serve-nos um prato cheio: o dia-a-dia de um chefe, os seus planos para um novo menu, a doença da filha, discussões entre empregados do restaurante, uma viagem a Istambul, a cura da filha, a sucesso do restaurante, críticas gastronómicas e, espantem-se, uma receita de chocos. Lemos e ficamos empanturrados. Parece que estamos a sair de um restaurante de comida a quilo, onde comemos tudo o que cabia no prato, sem critério, e agora estamos enjoados.

A personagem central do conto é um homem banal. Mas a banalidade da personagem não serve de desculpa à banalidade da escrita. A escrita tem a obrigação de elevar, de revelar o interessante mesmo nas personagens mais desprovidas de encantos. Então e se personagem não tiver nada digno de interesse? Bom, nesse caso escrever sobre ela não será a melhor ideia!

Jorge Amado experimenta em “Dona Flor e Seus Dois Maridos” a fusão entre literatura e culinária e deixa que Dona Flor nos apresente várias receitas durante o livro. Mas fá-lo com talento. As receitas têm ali um propósito: são a manifestação da sensualidade de Dona Flor. Ricardo Felner escreve sem inspiração uma receita de chocos, sem qualquer cunho pessoal da personagem. Apenas uma receita, jogada num parágrafo.

Um relato fragmentado, sem momentos de génio, termina numa cena que pretendia ser épica, à semelhança do que Valério Romão fez no seu conto. Pretendia é a palavra-chave, porque não o é. Um final como estes constrói-se, tem de haver um crescendo, uma manipulação do texto que torne credível o que vai acontecer e não seja só “tive uma ideia gira e diferente para terminar o conto”. Porque é essa a sensação com que ficamos, que aquele final é despropositado, que foi ali colocado numa tentativa de tornar o conto mais relevante. Objectivo não atingido. Quanto muito, o final acentua as falhas de um texto que quer ser muita coisa e que acaba por ser só uma amálgama de elementos díspares que não combinam uns com os outros. A Granta merecia melhor.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O que é que a Granta tem? “Intervencionados” de Hélia Correia





Saramago disse uma vez que Agustina aceitava tudo o que lhe surgia na escrita. Não era um elogio. O mesmo poderia ter dito sobre Hélia Correia se tivesse lido “Intervencionados”, o conto que escreveu para a Granta.

Os olhos esforçam-se por focar o texto, que frase após frase, deambula sobre temáticas diversas, formando uma torrente de palavras que afastam a mente das páginas. De repente já nem sabemos muito bem do que é que Hélia Correia fala, e ela tem alguma noção disso, já que sente necessidade de justificar o “luxo da deriva”, argumentando que o “eu”, tema central do seu conto e do 1º número da Granta, está em toda a parte. Poderá estar, mas um luxo como a deriva paga-se caro, paga-se com o sacrifício de leitores.

No final deste pequeno conto (que parece ser grande, tal a cadência de ideias articuladas) há uma tentativa de história. Tímida e pouco construída. Há ali um vislumbre de algo interessante mas que nunca se concretiza. Não chega.

Afinal, de que “eu” nos fala Hélia Correia? Sinceramente, não sei, mas também não fiquei com muita vontade de descobrir. Tentarei fazer as pazes com Hélia Correia lendo, algures no futuro, “Lillias Fraser” e talvez então perceba o quão injusto fui.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O que é que a Granta tem? "Memórias do Filho de um Contrabandista" de Saul Bellow



 

Facto: Saul Bellow é um dos escritores mais importantes do século XX, mais que não seja porque escreveu “Herzog”, “As Aventuras de Augie March” e “Henderson, O Rei da Chuva”, todos eles inseridos em diferentes listas de melhores livros (da Time e da Modern Library, por exemplo). E já agora, porque ganhou o Pémio Nobel da Literatura. Facto: o conto que a Granta nos apresenta da sua autoria, “Memórias do Filho de um Contrabandista”, não está à altura do nome que o escreveu.

É um texto sem sabor. Começamos a ler e a história parece interessante: os esforços de um pai, imigrante russo judeu, para singrar no Canadá, dedicando-se a vários negócios destinados ao fracasso. Mas algo falha redondamente na forma como a história é contada. Há um enorme desapego para um conto de um filho a falar do pai, há uma quase frieza, uma entediante placidez de discurso. E esperamos que aquela história chegue a algum lado, mas não chega, parece que enveredámos por uma rua sem saída e que chegamos ao fim e ficamos no carro a olhar para a parede.

Uma nota final esclarece as razões do insucesso deste conto. Na verdade Saul Bellow tinha começado a escrever um romance com o mesmo nome, mas abandonou o projecto (sábia decisão!). Anos depois, os responsáveis da Granta, tendo acesso ao manuscrito, acharam que daria um conto interessante. E, nessa tentativa de transformar algo numa coisa que não é, criou-se um conto vazio, que parece pobrezinho ao lado do do Valério Romão.

Compreendo a decisão de incluir numa revista de literatura um conto de um Prémio Nobel. Pudessem todas as revistas ter essa hipótese! Mas a verdade é que este conto não deixará boas recordações aos leitores da Granta. Esperemos que o do Orhan Pamuk seja melhor.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O que é que a Granta tem? "À medida que fomos recuperando a mãe" de Valério Romão



Começamos num cenário tradicional: uma família que acabou de perder a mãe. Quatro irmãos e um pai a tentarem refazer a vida, sem o querer o pai, porque às vezes é mais fácil desistir do que enfrentar a dor. Partindo das tentativas das crianças de o fazerem regressar à normalidade, dá-se um acontecimento estranho. A princípio apenas estranho, mas que se vai repetindo até se tornar numa banalidade, até todos aprenderem a viver com isso. E de tradicional este percurso não tem nada…

Valério Romão cria uma história que tem tanto de marcante como de perturbadora, conseguindo a proeza de nos incomodar não tanto pelo que escreve (embora também o faça), mas pelo que decide não nos dizer, pelas questões que incita a formarem-se na nossa mente. E vemos tudo por um novo prisma, e isso assusta-nos, choca-nos o contraste entre a escrita simples e a natureza estranha daquilo que é escrito. A marca de um grande escritor.