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sábado, 23 de agosto de 2014

Discurso Directo: Julio Cortázar, o sentimental

Em 1994, passados 10 anos da morte de Julio Cortázar, Tristán Bauer homenageou o escritor com “Cortázar”, um documentário concebido como se fosse um livro de Cortázar, com múltiplos recortes que se sobrepõem na esperança de chegar a uma realidade última, um sentido para lá do sentido racional das coisas.

Excertos de entrevistas, gravações áudio feitas pelo próprio Cortázar, leituras de textos seus e até tangos que ajudou a criar, compõem esta pequena mas profunda viagem que humaniza alguém que de outra forma seria apenas palavras escritas em papéis reunidos em livro.






“A minha obra foi feita na solidão. Foi feita na pobreza. Foi feita sem o menor apoio editorial e quando os editores despertaram para os meus livros, os de Fuentes, os de García Márquez, os de Vargas Llosa, despertaram porque as precárias e difíceis primeiras edições haviam sido bruscamente lidas por uma grande quantidades de pessoas, que as passou de mãos em mãos. E os editores, que não são tontos e que existem para ganhar dinheiro, compreenderam perfeitamente que tinham de editar esses escritores. Eles não nos inventaram. Nós escreveos sós.” – Julio Cortázar

sábado, 9 de agosto de 2014

Discurso Directo: o cometa Matilde Campilho


“A partir do momento em que eu entro num lugar onde eu nem sequer estou no real, pode entrar quem quiser.” (no programa O Que Fica do Que Passa, do Canal Q)

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Em estado crítico: “Molloy” de Samuel Beckett


O nome de Samuel Beckett está inscrito a tinta permanente no grande livro da história da literatura. Qualquer pessoa que se interesse por ler escuta o seu nome, pronunciado em tons de idolatria, com devoção. Beckett é Beckett e ler Beckett deve ser uma experiência transformadora. Ou uma grande desilusão.

“Molloy”, editado em Portugal pela Relógio D'Água, é o primeiro livro de uma trilogia de que também fazem parte “Malone Está a Morrer” e “O Inominável”, considerado por muitos como uma das obras mais importantes de Beckett, se não a mais importante. E há certamente méritos nele que ninguém poderá negar. Se me pedissem para defender o livro, eu diria que o que “Molloy” tem de melhor é o que revela da capacidade de Beckett para criar personalidades, de se introduzir numa mente, num modo de pensar, e construir uma lógica de acção adequada, o que tem uma dificuldade ainda mais acrescida quando a narração é feita na primeira pessoa. Mais do que um romance, estamos perante um monólogo, que enquanto peça de teatro poderia funcionar bem.

Beckett divide o livro em duas partes: na primeira acompanhamos Molloy no seu percurso em busca da sua mãe e na segunda seguimos Moran na sua demanda para encontrar Molloy. As questões existencialistas são uma constante nas duas partes, seguindo as dicotomias clássicas mãe/filho e pai/filho. Molloy mais do que procurar a mãe, procura um conceito de casa, um espaço genesíaco que lhe permita encontrar-se, que torne mais claro um mundo que se tornou confuso, possivelmente devido a alguma perturbação psicológica evidenciada por um discurso errante, por vezes desconexo. E se em Molloy há procura, em Moran há recusa, sentimentos gratuitos de repúdio pelo filho, quase como se temesse que o quisesse destituir da sua posição, da sua identidade.

Aparentemente Molloy e Moran representam dois extremos, respectivamente o da perturbação e o da normalidade. As diferenças da enunciação de Moran face a Molloy são claras inicialmente, há um sentido de ordem, de ponderação, expressa até mesmo pela forma, com o discurso de Moran organizado em diferentes parágrafos e o de Molloy em apenas dois (o segundo parágrafo começa na página 8 e termina na 110!). Mas essas fronteiras vão-se esbatendo e no final pouco separa Moran de Molloy. Na realidade, apesar de sua aparente maior racionalidade, os actos de Moran superam em gravidade os de Molloy, o que nos leva a ponderar sobre o que define a normalidade mental de uma pessoa. Não estaremos todos nós a algumas páginas de nos tornarmos loucos?

As questões levantadas por “Molloy” são de facto muito interessantes e Beckett é muito eficaz na forma como as traz até nós. Mas os méritos do livro ficam-se por aí, na minha opinião. “Molloy” é um livro difícil. Acompanhar as deambulações mentais de Molloy torna-se num verdadeiro suplício. Tentar acompanhar a sua linha de raciocínio é um desafio por vezes absolutamente perdido à partida, porque não é suposto uma pessoa perturbada ter uma linha de raciocínio coerente, mas também não é suposto um leitor deliciar-se com várias páginas sobre a organização nos bolsos de pedras para chupar. Beckett cometeu na minha opinião o pecado de confundir o livro com as personagens, e a desorientação das personagens torna-se numa leitura frustrante.

Ironicamente, o que confere a “Molloy” os seus méritos literários é o que o afasta do leitor. Correndo o risco de deixar alguns fãs de Beckett enfurecidos, “Molloy” parece-me mais um exercício intelectual, muito focado na forma, do que uma obra literária. Reconheço-lhe o valor mas não gostei da experiência, nem recomendo a leitura. Continuarei em breve com a leitura dos restantes livros da trilogia. Desejem-me sorte!


Classificação: 10/20

terça-feira, 20 de maio de 2014

A última entrevista de Philip Roth


Uma pedrada no charco. Foi esse o efeito das palavras de Philip Roth quando, no final de 2012, anunciou publicamente, numa entrevista à revista francesa Les Inrockuptibles, que não voltaria a escrever. Na altura poucos acreditaram nas suas palavras, achando que o apelo da pena domaria o desejo de liberdade de um escritor esgotado. Mas há algumas semanas Roth, após uma sessão pública de leitura, afirmou que aquele seria o último evento do género que iria realizar, deixando antever uma saída mais abrangente da vida pública, que culminou com o anúncio de que a entrevista que será hoje emitida pela BBC será a sua última aparição pública.

O desgaste de Philip Roth com a vida de escritor não era segredo para ninguém, e ficou bem patente na entrevista publicada pelo The New York Times Book Review no passado mês de Março:

“Todos temos trabalhos árduos. Todo o verdadeiro trabalho é árduo. Acontece que o meu trabalho é também irrealizável. Manhã após manhã durante 50 anos, enfrentei a próxima página indefeso e mal preparado. Escrever para mim é um feito de auto-preservação. Se não o fizesse, morreria. Então fi-lo. A perseverança, e não o talento, salvou-me a vida. Tive também a sorte de não considerar a felicidade importante e de não ter compaixão por mim próprio.”

Philip Roth afasta-se assim definitivamente do grande público, sem ter recebido o tão ambicionado Prémio Nobel (e sendo quase impossível que o venha a receber). Em tempos Roth afirmou ao “O Estado de S. Paulo” que gostaria de escrever o mesmo livro até morrer, acenando com a hipótese de um livro póstumo. Quem sabe se não nos aguarda uma surpresa no futuro?

sábado, 5 de abril de 2014

Discurso Directo: Duras sem filtro


“Worn Out With Desire to Write”: Documentário sobre Marguerite Duras, realizado pouco tempo depois da publicação de “O Amante” e da atribuição do Prémio Goncourt.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

O medo do esquecimento: o centenário de Marguerite Duras


Duras. Um mito construído sobre os escombros de uma infância infeliz na Indochina. Uma das figuras de proa de cultura francesa e europeia do século XX. Uma mulher feroz, corajosa, habituada a chocar, a lutar por si e por aquilo em que acredita. Um desejo sexual lancinante, que celebra a sua condição de mulher, que a conduz de homem em homem à procura de uma plenitude amorosa que talvez nunca tenha encontrado. À procura do seu irmão Paul, do seu adorado irmão Paul, que tão cedo a deixou e que será sempre o homem da sua vida. Mas acima de tudo, a vida de Marguerite Duras será sempre uma libertação da sua mãe, do amor absoluto que tem por ela e do ódio dilacerante que sente por nunca ter sido correspondida. A mãe. Sempre a mãe em Duras.

Tudo o que Duras foi, tudo o que escreveu, tudo o que sentiu, tudo tem origem na Indochina, a terra em que nasceu há 100 anos e onde viveu até quase à idade adulta, num estatuto ambíguo de membro da raça privilegiada mas pobre. Nessa altura Marguerite Duras era ainda Marguerite Donnadieu, a filha mais nova de um casal de viúvos que voltara a casar. Os primeiros anos de Marguerite são marcados por acontecimentos que afectarão a sua vida de forma profunda: a morte do pai e a dinâmica com a mãe e com os seus dois irmãos, particularmente com o mais velho, o irmão que apelidaria de assassino e criminoso, e que a aterrorizaria, a ela e a Paul, durante toda a infância. O amor incondicional da mãe pelo filho mais velho, o seu filho, aquele que sente despudoradamente como mais seu, cria feridas em Duras que nunca cicatrizariam.

É também em muito nova que, de acordo com o testemunho de alguns amigos próximos a quem terá revelado o caso, teve a sua primeira experiência sexual, aos cinco anos, com um rapaz vietnamita de cerca de dez anos. E esse acontecimento é de grande importância. A experiência não é consensual, não que tenha sido também forçada, é sobretudo uma experiência inconsciente da parte dela que em tão tenra idade não consegue compreender o que se passava. Mas há uma noção de proibido que fica sempre consigo. Se uma experiência sexual naquela idade é por si só um facto relevante e gerador de traumas, o facto de ter sido com um vietnamita, algo mal-visto pela sociedade colonialista, foi agravando esse peso.

A sexualidade de Marguerite tornar-se-á consciente depois do período que mitologicamente ficaria conhecido como “as barragens”, referindo-se à trágica compra de uma concessão pela sua mãe de uma terra que se revelaria incultivável, invadida durante grande parte do ano pela água do mar. A devastação dessa experiência ficaria para sempre eternizada em “Uma Barragem Contra o Pacífico”, retomada depois, de forma mais pessoal ainda, em “O Amante”. A situação económica da família atinge um ponto de ruptura nesta fase, gastas que foram as suas economias na concessão e na tentativa desesperada de edificar barragens que impedissem o avanço das águas. Condenados a um estado de quase profunda miséria, Marguerite percebe que o interesse que suscita nos homens pode ser uma arma a favor de toda a sua família, empenhando-se na procura de um homem rico que, em troca de jogos de sedução, lhe dê dinheiro. Assim começa Marguerite a traçar o caminho que a levará ao romance com o amante chinês milionário, que tão fortemente a marcará. E nesse caminho Marguerite Donnadieu converte-se em Duras, na essência de Duras, que se viria a materializar na adopção do nome aquando do início da sua carreira literária. Duras, o nome da terra de seu pai, o pai que quase não conheceu, o primeiro homem inalcançável da vida de Duras.

Por fim, quando o hipotético casamento com o amante chinês se torna definitivamente numa impossibilidade, Marguerite parte para França. Voltará pouco tempo depois à Indochina, para terminar os estudos, e depois volta a partir para nunca mais voltar, libertando-se finalmente da loucura da sua mãe, do seu desespero torrencial, da distância intransponível que as separe. Duras parte para viver. Uma vida que testemunha os grandes acontecimentos do século, com um papel bastante activo na Resistência Francesa durante a ocupação nazi, que valeria ao seu marido Robert Antelme a deportação para o campo de concentração de Dachau, onde seria encontrado, já após a libertação, por François Miterrand, uma figura muito próxima de Duras e de Antelme na altura e que era o líder do grupo de resistentes a que pertenciam.

A vida de Duras será sempre marcada por relações amorosas tumultuosas. O seu casamento com Antelme era sobretudo um pacto de amigos antes da Guerra, uma comunhão de espíritos acima de tudo. Antelme terá a sua amante e Duras terá também o seu, Dionys Mascolo, que desenvolverá com o casal uma relação de grande intimidade, sendo o melhor amigo de Antelme, o amigo que o irá buscar a Dachau e que lhe salvará a vida. Mas acima de tudo, Dionys Mascolo será o pai do filho de Duras.

Já na velhice Duras chocará o mundo com o seu romance com Yann Andréa, quase 40 anos mais jovem que ela, e que será o seu companheiro nos seus últimos anos de vida.


A escrita de Duras



As obras de Duras são dotadas de um sentido poético pungente, com ambientes criados de forma cinematográfica que evocam sentimentos. Mais do que uma sucessão de acontecimentos, os livros de Duras centram-se em estados de espírito, viagens emocionais que exigem um compromisso por parte do leitor, uma entrega compatível com o desnudar emocional da autora.

A separação entre ficção e realidade é um exercício muito difícil em Duras, que alimenta a escrita da sua vida, das suas percepções, das suas próprias emoções. Não há distanciamento na obra de Duras, que com os anos vai criando uma mitologia em seu torno, alimentada pela realidade ficcionada dos seus livros.

Há sempre figuras femininas marcantes nos livros de Duras. São por norma mulheres que desafiam as convenções, de uma grande força face à adversidade mas de uma enorme fraqueza face à tentação, e por tentação entenda-se desejo sexual. O amor é em Duras uma força destrutiva, uma procura errante por um ideal representada em “O Marinheiro de Gibraltar” ou um sentimento proibido entre pessoas de mundos incompatíveis, como em “Hiroshima Meu Amor”.

Há outros temas recorrentes na sua obra: a mãe dominadora e louca, os irmãos e os sentimentos incestuosos, os judeus e a guerra. Se Duras tem algo por explorar emocionalmente depois da Indochina, a ocupação alemã dar-lhe-á as vivências que lhe faltam. A prisão de Antelme, o tempo sem notícias dele, o envolvimento com um suposto colaborador da Gestapo para obter informações, o profundo desejo de vingança após a libertação e o choque do reencontro com Antelme, com a experiência de Antelme em Dachau, serão matéria-prima inesgotável para a sua escrita, que com o tempo se adensa.

Duras escreve como quem revela um pecado, num tom confessional guiado por uma corrente de consciência que subverte a noção de tempo e de espaço. O exemplo máximo desse estilo será “O Amante”, que lhe valerá em 1984 o Prémio Goncourt, já bastante afastado do estilo fortemente marcado pela influência americana, particularmente de Faulkner, nas suas primeiras obras.


Marguerite Duras na minha vida


A escrita de Duras pertence-me. Sinto-a como minha. É um sentimento mais profundo do que admirar o talento de alguém, é sentir, ao lê-la, que as suas palavras evocam a minha voz, que são uma manifestação do meu ideal de escrita. Há outros escritores que me dizem muito, mas nenhum que me centre tão em mim próprio como Duras.

Duras foi sempre um nome familiar. Não sei quando o ouvi pela primeira vez, mas parece-me que desde sempre este nome me soou a algo familiar. Mas o meu primeiro contacto consciente com a sua obra deu-se algures no final dos anos 90, quando vi “O Amante” pela primeira vez, era então ainda um adolescente. O filme, venerado na Europa e considerado um filme erótico ao nível dos da Playboy nos EUA, tocou-me de forma inesperada. Recordo-me das últimas cenas do filme como se as tivesse visto agora mesmo. A rapariga no barco, como na primeira vez que encontra o amante, a afastar-se lentamente da Indochina, partindo para França. No cais, ao longe, vê-se o carro do amante. Nunca se vê o amante. Apenas o carro. Aquela evocação estática da sua presença é de uma beleza dilacerante. O sentimento de perda domina tudo à medida que aquele último avistamento torna claro que aquela relação não foi um mero jogo sexual, que houve sentimentos profundos que os uniram.

Passariam alguns anos até que eu lesse o livro, o que aconteceria em 2008, nessa altura a versão da Biblioteca Sábado. Li a primeira página e foi como se naquele momento algo em mim que mudasse. Quem lê “O Amante” nunca esquece as primeiras frases, um começo que nos diz tudo, que alberga em si a essência de Duras. Comecei a comprar avidamente livros de Marguerite Duras, mas só há dois anos a voltei a ler, embora tenha relido “O Amante” várias vezes. Li então “O Marinheiro de Gibraltar” que foi até agora o que menos me marcou. Há muitos pontos de interesse no livro, as personagens e a história são interessantíssimas, mas há algo que falha, na fase final, que deixa uma impressão de obra inacabada ou terminada à pressa.

Li recentemente mais dois livros de Duras, “Uma Barragem Contra o Pacífico” e “Hiroshima Meu Amor”, que reafirmaram a sua importância na minha vida. Não sinto pressa de ler tudo dela, quero saborear os livros que me faltam à medida que o tempo passar, redescobrindo-a em diferentes fases da minha vida. O que me leva á questão final: os livros de Marguerite Duras em Portugal.


Portugal esqueceu Duras?


As editoras portuguesas esqueceram-na, sem dúvida. Desde que a Difel, que tinha a quase totalidade da sua obra publicada, se eclipsou, é difícil encontrar os livros de Duras. Durante alguns anos nem “O Amante” se conseguia comprar, tendo vindo em boa hora a edição da ASA Vintage. Há também vários livros de Marguerite Duras editados pela Livros do Brasil, mas cada vez se encontram menos nas livrarias.

O que resta então? Pouca coisa e tudo disperso por várias editoras: 
Relógio D’Água: “Agatha” e “O Navio Night
Estampa:“A Doença da Morte
Europa-América: “A Tarde do Sr. Andesmas” e “A Amante Inglesa
Dom Quixote: “O Marinheiro de Gibraltar
Casa das Letras: “Estação dos Correios da Rua Dupin
Presença: “O Amor
Livros do Brasil: “É Tudo”, “Yann Andréa Steiner” e “O Jardim

Obras emblemáticas como “Uma Barragem Contra o Pacífico”, “Hiroshima Meu Amor”, “Ausância de Lol V. Stein” ou “Moderato Cantabile” desapareceram quase por completo. A Quetzal que em tempos editou “Hiroshima Meu Amor”, “India Song”, “Textos Secretos” e a biografia da escritora da autoria da Laure Adler, deixou-os esgotar sem os reeditar. Só “Textos Secretos” me escapou, os outros três estão na minha biblioteca, junto aos outros 19 livros que tenho de Duras, graças a muita persistência e dedicação.

É de resto uma pena que a Quetzal não aposte em Duras, porque me parece ser uma autora que se enquadra perfeitamente no catálogo da editora. Para já, restam-nos os alfarrabistas e alguns livros esquecidos nas livrarias. É pouco. Duras merecia mais.


sábado, 11 de janeiro de 2014

domingo, 15 de dezembro de 2013

Discurso Directo: George Bernard Shaw e a natureza bondosa de Mussolini


«He is condemned to go through life with that terrible and imposing expression, which really does a great deal of injustice to his kindly nature.» (George Bernard Shaw a respeito de Mussolini)

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Rentes de Carvalho com os portugueses

A Joana Ribeiro anda há 2 anos a falar-me de Rentes de Carvalho, não poupando elogios. E assim foi crescendo em mim uma vontade de o ler, vontade que no entanto ainda não se concretizou. Foi então que há cerca de duas semanas, a propósito do Grande Prémio da Crónica APE que Rentes de Carvalho recebeu por “Mazagran”, decidi ressuscitar um velho projecto: obrigar a Joana a escrever um post. Deixo-vos assim com o primeiro guest post do Sentido dos Livros, esperando que este seja o primeiro de muitos.


A primeira vez que ouvi falar de José Rentes de Carvalho foi há pouco mais de dois anos e logo aí, ignorando por completo o seu universo, fui apanhada de surpresa pela adjectivação forte com que o caracterizavam: "mestre".  De início ainda pensei ingenuamente tratar-se de um desses novos nomes da literatura contemporânea portuguesa sobre os quais se criam cultos, tal era o entusiasmo com que falavam da melhor descoberta dos últimos tempos.

Antes de mencionar as minhas duas experiências com a leitura de Rentes, gostava só de fazer este parêntesis sobre alguns motivos extra-literários que me levam a sentir especial carinho pela figura. Digamos que sou susceptível às circunstâncias pessoais de quem escreve as histórias que eu leio. Pois estamos perante um homem que já ultrapassou os oitenta anos, que distribuiu uma vida longa entre São Paulo, Rio de Janeiro, Nova Iorque, Paris e Amesterdão, que consta ter sido apresentado pela rainha Beatriz ao presidente Sampaio (que não sabia quem ele era?) e que ainda hoje viaja de carro entre Trás-os-Montes e a Holanda umas cinco vezes ao ano. Que continua a escrever e finalmente a ser publicado, com o reconhecimento devido, entre os portugueses – para quem sempre escreveu os seus livros, à excepção de “Com os Holandeses”.
                                                                                      
Comprei então na altura “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” e atirei-me a ele como em busca do Santo Graal. Confesso que inicialmente tive um desapontamento instantâneo, porque não tinha percebido que se tratava de um livro de contos e talvez ainda estivesse sob o 'mindset’ pedrosiano que reserva apenas e só ao romance a categoria de grande literatura. Talvez Rentes tenha sido o primeiro a ajudar a desfazer essa barreira. Mas não só: terá também sido com Rentes que comecei a redescobrir o prazer incomparável de ler prosa bem escrita na língua portuguesa. Admito que as histórias de “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” possam não apelar a toda gente. Reportam-se a maioria das vezes às décadas do pré-25 de Abril, relatos ficcionados sempre numa primeira pessoa que parece ir diferindo vagamente de uma história para outra (ou talvez não), cujas peripécias parecem confundir-se com as que o próprio Rentes terá vivido ou ouvido contar, num tom confessional e de grande transparência perante o leitor. Com uma linguagem muito próxima da oralidade que se revela fonte inesgotável sobre costumes, manhas, expressões, etiquetas. Poderia destacar vários contos, mas escolho para meu favorito um que faz essa síntese entre a mundividência do homem feito nas megalópoles e a simplicidade rústica das terras do norte de Portugal, dois pólos que perpassam todo o livro. Em “O Enterro de Meus Pais”, lemos sobre a longa e tortuosa viagem de um português, de Amesterdão até uma aldeia perdida nos confins transmontanos, para o funeral do pai. Será também, perante o fundo significado dos rituais de comunidade e luto, a constatação súbita de uma incapacidade a roçar o infantil e da «consciência da própria insignificância». Cito também com curiosidade a observação final de “O Incêndio de Lisboa”, em que o emigrante, sempre nostálgico da juventude vivida no Chiado, regressa a Lisboa de propósito para ver o que resta do incêndio nos armazéns e concluir que «os escombros parecem-me ainda mais terríveis e desesperados, ao mesmo tempo símbolo e sinal de mau agouro num país onde, mau grado a democracia recuperada, a vida da maioria continua a ser uma longa espera imponente e triste entre coisas que apodrecem e coisas que ardem».

Extremamente divertida foi a leitura de “Com os Holandeses”, que comprei pouco tempo depois de ter viajado por diversas cidades e vilas holandesas. Mesmo considerando as inevitáveis mudanças ocorridas desde a publicação original em 1971, reconheci com deleite os diversos choques e estranhezas que um meridional sofre às mãos de um povo fanático pela organização, a eficiência e o lucro, naturalmente sensaborão e avesso a espontaneidades - apesar de tudo ter para que a vida lhe corra doce, desprezador da culinária como algo mais do que a satisfação de uma necessidade, suspeitoso de tratos delicados e subtilezas (que pretende este?), e por aí fora. Sorri quando reconheci, entre outros, os «croquetes insípidos e os sacos de batatas fritas do automatik da esquina» com que os jovens que vão jantar fora se contentam. E o aparto total de afectos entre pais e filhos? Só me lembra a minha mãe quando diz, com o desconsolo de alma português, que na Inglaterra onde o meu irmão está emigrado, e que ela pouco ou nada conhece, eles não sentem a família como nós. Eis o retrato da típica mulher holandesa que alugou o quarto a Rentes de Carvalho e que anos mais tarde recordava tê-lo tratado como mãe:

«A Holanda nesse tempo só ia de férias para onde lhe garantissem as batatas cozidas e o estufado nacional, e os meus temperos e óleos agrediam o nariz da dona como murros. Vinha inspeccionar o azeite, o colorau, o alho, sem nela pegar examinava a folha de loureiro, tudo venenos voláteis que espalhados pela casa lhe punham a saúde em perigo. Abria as janelas e informava os vizinhos da minha culpa, porque também eles se doíam. Obrigou-me à promessa de não fazer fritos. Reduziu-me o fumar, porque o tabaco amarelece as paredes, os cortinados, levantando assim despesas de pintura e de lavagem. Pediu-me que não fizesse barulho no corredor, que não entrasse tarde, não lesse de noite, me levantasse cedo.»

“Com os Holandeses” e outros títulos de Rentes de Carvalho foram, ironicamente, grandes êxitos no país que o acolheu. Em Portugal só nos resta recorrer ao ditado: mais vale tarde do que nunca.

Por Joana Ribeiro


Livros de J. Rentes de Carvalho publicados pela Quetzal:


domingo, 3 de novembro de 2013

sábado, 19 de outubro de 2013

Discurso Directo: A escrita cruel de Agustina


«Quando eu escrevo é uma atitude quase científica. Eu preciso de conhecer, eu preciso de saber, eu preciso de explicar.» (Documentário  “Agustina Bessa-Luís: nasci adulta e morrerei criança”)

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Discurso Directo: a empatia de Alice Munro


“I can’t remember when I didn't make up stories.” (Alice Munro no International Festival of Authors)

sábado, 5 de outubro de 2013

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Candidatos portugueses ao Nobel da Literatura

Quando pensamos no Prémio Nobel da Literatura, pensamos em escritores sonantes. Mas quando analisamos a listagem divulgada de nomeados ao prémio até 1950, especificamente os de origem portuguesa, deparamo-nos com 6 nomes, 4 dos quais, a bem da verdade, são ilustres desconhecidos.

A entrega dos portugueses à saudade é directamente proporcional à sua falta de memória (quanta ironia) e certamente não espantará ninguém que autores que há menos de 100 anos eram considerados incontornáveis, sejam hoje apenas nomes que nada nos dizem. Que tal lutarmos contra essa tendência tão nacional e, por minutos, dedicarmos a nossa atenção a estes escritores esquecidos? E, quem sabe, comprar uns livrinhos...


João da Câmara

O primeiro nomeado português ao Nobel da Literatura era um fidalgo, que se dedicou sobretudo ao teatro, tendo escrito cerca de 40 peças durante a sua vida. Alcançou particular sucesso com dramas históricos de cariz patriótico muito ao estilo romântico, nomeadamente “D. Afonso VI”, “Alcácer-Quibir” e “O Beijo do Infante”, sendo também marcantes os seus dramas realistas – “Os Velhos” e “Rosa Enjeitada”- e alguns simbolistas (na nomeação ao Nobel era referida a peça “Meia-Noite”).

Surpreendentemente, tendo em conta o quão pouco conhecido é João da Câmara actualmente, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) publicou o teatro completo deste autor em 4 volumes.


João Bonança

Primeiro sacerdote, depois jornalista, e por fim escritor, consta que João Bonança terá sido autor da "Historia da Luzitania e da Iberia", conseguindo a proeza de ser ainda mais desconhecido do que João da Câmara.

Consegue-se comprar o "Historia da Luzitania e da Iberia" em alguma livraria? Conseguir, consegue-se, mas apenas em alfarrabistas e a preços exorbitantes. Confiram na loja online da Avelar Machado.


António Corrêa D’Oliveira

E o homem português mais vezes nomeado para o Nobel da Literatura é…um perfeito desconhecido. O facto de ter sido nomeado 15 vezes nas décadas de 30 e 40 ao Nobel não será alheio ao facto de a sua poesia ter um forte pendor patriótico e ser considerado o poeta do regime.

Onde comprar livros deste autor? Nem é preciso procurar muito. Na loja online da Bertrand encontram o livro “Correspondência de Trindade Coelho Para António Corrêa D'Oliveira” e, na da Bulhosa, o “A Família é o Lugar”. Encontram-se também em alfarrabistas alguns livros, nomeadamente “Os Teus Sonetos” e “Auto das Quatro Estações”.
  

Maria Madalena de Martel Patrício

Dois factos dignos de nota: Martel Patrício ocupa o segundo lugar em termos de número de nomeações ao Nobel da Literatura (quem diria que seria uma mulher?!); e isto é praticamente tudo o que há a dizer sobre ela, uma vez que o seu rasto na internet é quase inexistente.


Teixeira de Pascoaes

Finalmente um nome conhecido! Mas o que há a dizer sobre Pascoaes? Quase um eremita, foi uma espécie de figura mística que dedicava a sua escrita à exploração da saudade, tendo sido um dos nomes cimeiros do movimento Renascença Portuguesa. Uma espécie da líder espiritual para poetas como Eugénio de Andrade e Mário Cesariny.

Se procurarem nas livrarias, em princípio não terão dificuldades em encontrar livros do Teixeira de Pascoaes, mas em caso de dificuldade a solução está no site da Assírio & Alvim, editora que tem publicado de forma exaustiva as suas obras.


Júlio Dantas

E por último, o grande Júlio Dantas. Ou melhor dizendo, o pobre Júlio Dantas, esse escritor maldito, contra quem foi escrito um manifesto que, ironicamente, será para as gerações futuras um dos únicos testemunhos da sua existência. Dantas era no seu tempo um intelectual de craveira, um dos mais prestigiados dramaturgos portugueses, tendo “A Severa” e “A Ceia dos Cardeais” um lugar de destaque entre as peças de teatro nacionais. Mas num país que precisava mudar, o tradicionalismo de Dantas condenou-o como conservador, e o seu nome foi considerado em certos círculos como o símbolo da cultura a derrubar.

A eficácia deste movimento foi tão grande que Júlio Dantas desapareceu dos catálogos das editoras e das livrarias, renegado para os alfarrabistas. Na loja Vintage da Pó dos Livros encontra-se uma edição de “A Ceia dos Cardeais”, havendo também vários livros antigos do autor na Avelar Machado, entre os quais “A Catedral”.

domingo, 22 de setembro de 2013

Discurso Directo: O povo menino de Cesariny


“Não há nenhum país que esteja 400 anos à espera que um rei reapareça.” (excerto do documentário “Autografia”, de Miguel Gonçalves Mendes)

domingo, 15 de setembro de 2013

O que é que a Granta tem? “Mar Negro” de Ricardo Felner





Em 10 páginas Ricardo Felner serve-nos um prato cheio: o dia-a-dia de um chefe, os seus planos para um novo menu, a doença da filha, discussões entre empregados do restaurante, uma viagem a Istambul, a cura da filha, a sucesso do restaurante, críticas gastronómicas e, espantem-se, uma receita de chocos. Lemos e ficamos empanturrados. Parece que estamos a sair de um restaurante de comida a quilo, onde comemos tudo o que cabia no prato, sem critério, e agora estamos enjoados.

A personagem central do conto é um homem banal. Mas a banalidade da personagem não serve de desculpa à banalidade da escrita. A escrita tem a obrigação de elevar, de revelar o interessante mesmo nas personagens mais desprovidas de encantos. Então e se personagem não tiver nada digno de interesse? Bom, nesse caso escrever sobre ela não será a melhor ideia!

Jorge Amado experimenta em “Dona Flor e Seus Dois Maridos” a fusão entre literatura e culinária e deixa que Dona Flor nos apresente várias receitas durante o livro. Mas fá-lo com talento. As receitas têm ali um propósito: são a manifestação da sensualidade de Dona Flor. Ricardo Felner escreve sem inspiração uma receita de chocos, sem qualquer cunho pessoal da personagem. Apenas uma receita, jogada num parágrafo.

Um relato fragmentado, sem momentos de génio, termina numa cena que pretendia ser épica, à semelhança do que Valério Romão fez no seu conto. Pretendia é a palavra-chave, porque não o é. Um final como estes constrói-se, tem de haver um crescendo, uma manipulação do texto que torne credível o que vai acontecer e não seja só “tive uma ideia gira e diferente para terminar o conto”. Porque é essa a sensação com que ficamos, que aquele final é despropositado, que foi ali colocado numa tentativa de tornar o conto mais relevante. Objectivo não atingido. Quanto muito, o final acentua as falhas de um texto que quer ser muita coisa e que acaba por ser só uma amálgama de elementos díspares que não combinam uns com os outros. A Granta merecia melhor.

sábado, 14 de setembro de 2013

Discurso Directo: Salman Rushdie, o destruidor de verdades oficiais



“That often happens with artists. The act of remembering, saying “this is how it was”, runs up against official truth.” (Salman Rushdie em entrevista ao Times Talks)