Parece simples: o livro não tem como combater o mundo de
possibilidades dos monitores. A conclusão é de Philip Roth, o mais importante
escritor americano da actualidade, que vaticina a morte do livro nas próximas
décadas. Mas será o futuro assim tão negro? É concebível que num espaço de 20
anos os livros se convertam em relíquias e cedam o seu espaço aos eBooks?
Os estudos sobre leitura em diferentes suportes são algo
ambíguos, mas há uma tendência para se defender que a leitura em suporte
digital é mais lenta, menos rigorosa e que dificulta a apreensão do conteúdo, o
que se deve também à atitude das pessoas que estão menos predispostas a
aprender quando lêem neste suporte. Posto isto, e se os eBooks se tornarem
dominantes, que consequências haverá para o género romance, por exemplo? Fará
sentido escrever romances de 400 páginas para serem lidos em eBooks?
Questões, questões e mais questões. O mercado livreiro está
agora perante os desafios com que a indústria musical se tem deparado nos
últimos 15 anos, sendo o momento de tomar decisões que determinarão o consumo
de literatura nas próximas décadas e que influenciarão a sustentabilidade do mercado
editorial. Nesta demanda contam com a benesse de poder aprender com os erros
dos outros. Mas será que aprenderam?
Não sou um adepto dos eBooks por uma razão muito simples: há
demasiados atractivos no livro impresso. Ler é para mim uma experiência física
indissociável do cheiro da tinta e da textura do papel. Um livro tem capa, tem
grafismo, tem marcadores, tem uma identidade própria. O meu livro é meu e é
diferente dos livros dos outros, não é uma amálgama indiferenciada de letras num ficheiro
digital. E é por isso que muitos como eu preferem andar
com livros na mala. É por isso que no metro de Nova Iorque os livros continuam a marcar presença.
As vendas de eBooks sobem
Mas a verdade é que os eBooks têm as suas vantagens.
Confesso que a primeira vez que vi um Kindle pensei: “Epá, isto é fantástico! Parece
papel!” Fiquei a pensar naquilo e uns dias depois percebi que não faz muito
sentido ler algo que parece papel se posso ler papel. Mas a portabilidade é a
palavra de ordem. Muitos fãs dos livros preferem deixar o peso em casa e
proteger os livros do mundo de perigos que os aguarda lá fora, dedicando-se aos eBooks
fora de casa.
A verdade é que os eBooks começaram de forma tímida a
adquirir importância e, segundo os dados da Association of American Publishers,
representaram 1/5 dos livros vendidos nos EUA em 2012. Para Portugal ainda não
há dados e estaremos certamente longe da adesão de outros países. Numa rápida
pesquisa verificamos que este mercado está a ser disputado no nosso país
sobretudo pelos grandes grupos, com a Leya em forte destaque.
Facilmente
percebemos também que os eBooks têm preços exorbitantes. No site da Leya
encontramos por exemplo o eBook do “Maria Antonieta” do Stefan Zweig a 13.99€.
13.99€!? Mas quem é que dá 13.99€ por um ficheiro digital quanto pode ter o
livro em papel por mais 5€. E pior, se olharmos lá para fora, para a Amazon por
exemplo, verificamos que é comum as versões eBook serem até mais caras que as
em papel (a versão para Kindle do “The Lottery” da Shirley Jackson custa £7.99
e a versão em capa mole £6.99 – uma afronta!).
A 3ª via – packs livro + eBook
Ora, se as pessoas preferem ler livros em suporte físico, e
até há indícios que é uma forma mais eficaz de ler, mas por outro lado
consideram o factor portabilidade uma vantagem, que fazer? Se as editoras
pensassem a longo prazo em vez de se deixarem levar pelo apelo do lucro
imediato, veriam que vender o livro com a versão digital integrada é
o caminho da luz. Parece uma solução óbvia e já há quem o faça com bons resultados.
Um artigo recente da Publishing Perspectives dá vários exemplos, nomeadamente
da editora Canongate que decidiu seguir esta via com o “A Tale for the Time
Being” de Ruth Ozeki (incluído na longlist do Man Booker Prize deste ano, como já aqui referi anteriormente).
Todos seriam felizes. Os leitores, que tinham o livro com
todos os seus encantos para ler no conforto do lar e o eBook para ler nos
transportes públicos. Os editores, que conferiam valor acrescentado aos livros
e, quem sabe, até podiam aumentar um pouquinho os preços e salvar os livros em
papel do desaparecimento. E não esquecendo os livreiro, que estão para já de
fora deste negócio, excepto os que têm loja online, e que assim poderiam ganhar
algum dinheiro que tanta falta lhes faz.
Momentos difíceis exigem decisões corajosas. A indústria musical optou por fazer
vista grossa ao mundo digital e de repente percebeu que o cd se tornou quase
numa formalidade, num objecto a quem poucos reconhecem valor. Irão as editoras
tomar as rédeas da situação e decidir o que fazer dos eBooks antes que os
eBooks decidam o que fazer com elas? Tenho dúvidas, mas também tenho esperança.






