segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A dependência dos livros: edição Agosto de 2013




Agosto tem sido um bom mês. Muitos livros e orçamento respeitado. Tirando “Crematório” do Rafael Chirbes e “Contra-Natura” do Álvaro Pombo da colecção Minotauro, que foram uma oferta, comprei ao todo 7 livros e gastei menos de 60€. 

A trilogia “Os Subterrâneos da Liberdade” de Jorge Amado, publicada pela Dom Quixote, era uma compra programada desde o Natal, altura em que a Leya lançou este generoso pack (cada livro individualmente custa cerca de 19€, custando o conjunto 30€). Já o tinha encomendado na Fnac mas o stock da loja online esgotou-se e fui adiando até que percebi que corria o risco de desaparecer em todo o lado (só já o encontrei na loja online da Bertrand) e avancei destemidamente, contando ainda por cima com um bónus de 10% de desconto.

Do Naguib Mahfouz faziam parte da minha lista de livros “Os Filhos do Nosso Bairro” e a “Trilogia do Cairo”, todos publicados pela Civilização, e, perante a promoção da Fnac que já aqui vos falei, era impossível não comprá-los. Livros que me teriam custado por si só perto de 60€ ficaram em menos de 22€. Se isto não é uma boa compra, não sei o que será! Ficará para outro mês o segundo volume da “Trilogia do Cairo” que estava fora da promoção.

Por fim, numa ida à Culsete, não consegui resistir ao “Manual de Prestidigitação” do Cesariny, editado pela Assírio & Alvim, que estava a 7€. Mais uma leitura para me preparar para o curso de Surrealismo Português.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Em estado crítico: "Memorial do Convento" de José Saramago




Baltasar e Blimunda. Há encontros que estão destinados a acontecer. O mundo move-se e sob cada sol os caminhos são percorridos, minuto após minuto, talvez de acordo com uma vontade superior. Pouco importa se o é ou não, o que importa é que Baltasar e Blimunda se encontraram num auto de fé. Numa cerimónia que festeja o fim e a condenação, celebrou-se naquele dia o início e a aceitação e, sem o saber Baltasar mas sabendo-o Blimunda, naquela mesma noite, quando comerem sopa pela mesma colher, os seus destinos estarão unidos para sempre.

“Memorial do Convento” de José Saramago conta-nos a história do sereno amor do maneta Baltasar e da mística Blimunda, nos atribulados tempos da construção do Convento de Mafra. Mas antes do convento há outra construção que se inicia: a da passarola, projecto antigo do padre Bartolomeu Lourenço, que hereticamente prometeu a quem tudo tem, D. João V, o acesso em vida ao reino dos céus. O lento processo de criação da passarola e as artes nela empregadas são de suma importância para o livro, mais até do que a construção do Convento, que se contenta em ser um pano de fundo quase sempre distante, o que é paradoxal dado o nome do livro. Diga-se com clareza: haveria memorial com ou sem convento, sem passarola não.

E é esse o problema de “Memorial do Convento”, que o afasta do paradigma de excelência que é o “Ensaio Sobre a Cegueira”: a falta de foco. Pegamos no livro a pensar que vamos ler um livro centrado na construção do Convento de Mafra. Depois percebemos que se calhar não, se calhar o livro se centra sobretudo na desmedida vontade de um rei que é um Sol à portuguesa (uma Lua portanto). E entram no livro Baltasar e Blimunda, com a sua comovente dimensão supra-humana, e queremos perder-nos na sua história, mas por vezes somos afastados, sem perceber porquê, e tornamos-nos, algo a contragosto, testemunhas dos debates teológicos internos do padre Bartolomeu (que de tão herméticos nos deixam à nora), do périplo de João Elvas aquando da entrega da Infanta Maria Bárbara ao noivo espanhol, do transporte de uma monumental pedra, que durou 8 dias e mais de 30 páginas. Ganharia o livro em nos aproximar mais daquelas que são 2 das melhores criações de Saramago, Baltasar e Blimunda, sem tantas deambulações e história acessórias.

Dito isto, não haverá palavras suficientes para descrever o brilhantismo do narrador. O narrador em Saramago é tudo, uma espécie de oráculo milenar, que tudo sabe, tudo conhece, que não se limita a narrar: comenta, analisa, revela. E esse é um dos encantos de ler Saramago, a ideia de que ele está ao nosso lado a contar-nos a história, como um sábio nos tempos do antigamente, em torno de uma lareira, ao anoitecer.

“Memorial do Convento” não é um livro fácil, nem será uma boa escolha para quem procura um livro para se distrair ou para quem nunca tenha lido Saramago, mas qualquer aficionado da literatura, particularmente da portuguesa, tem de conhecer a história de Baltasar e Blimunda. Um amor que prospera no silêncio, um silêncio de palavras obliterado por uma partilha incondicional. Baltasar e Blimunda pertencem-se e pertencem-nos.

Classificação: 16/20

(Livro editado em Portugal pela Caminho)

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Cheiro a livro novo – Agosto de 2013





Agosto é um mês triste. Poucas novidades a chegar às livrarias, os escaparates com livros requentados para serem levados para a praia e sujos sem culpa. Vem depressa Setembro, com as grandes novidades da rentrée!

Para já, 3 novidades dignas de nota. A Bertrand edita o multi-premiado “A História de Uma Serva” de Margaret Atwood, anteriormente editado pela Europa-América, livro que em 1986 chegou à shortlist do The Man Booker Prize. Mas não se deixem enganar pela capa certinha, não estamos perante um romance feminino. Um teaser: imaginem que o Governo dos Estados Unidos era derrubado por extremistas religiosos ultra-conservadores, como seria viver nesse mundo?

Mantendo-nos em livros com temáticas pesadas, a Sistema Solar continua a percorrer um caminho muito próprio, com escolhas surpreendentes, desta vez com “O Aperto do Parafuso” de Henry James, também editado por cá pela Relógio d’Água, que nos apresenta uma história de fantasmas que tem divido o mundo literário. Os livros da Sistema Solar são muito interessantes dos ponto de vista estético, e há uma grande coerência de design a reforçar uma coerência editorial mais do que óbvia.

E por fim, um livro desafiante. W. G. Sebald tem o seu nome inscrito nas listas de grandes referências. Era mesmo considerado um dos favoritos ao Nobel, mas quis o destino que a morte chegasse mais depressa que o prémio. Com ou sem Nobel, Sebald tem alguns livros muito bem reputados no mercado, um dos quais “Os Anéis de Saturno” editado agora pela Quetzal (já editado pela Teorema). O desafio deste livro prende-se com a sua indefinição quanto a género: não é bem um livro de viagens, não é bem um livro de memórias, não é bem ficção… Algo na boa tradição de Jorge Luís Borges.

Mais livros para a vastíssima lista de compras. Curiosa esta tendência de editoras repescarem livros já editados em Portugal. Não sou contra. Se for para termos melhores edições que as já existentes, vamos a isso. Mas por outro lado, há tanto livro por editar, tanto clássico…


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Desbloqueadores de conversa sobre literatura: Geração Beat?! Não sei do que falas.




Não, a Geração Beat não é um grupo de jovens viciados em hip hop ou em música de dança. Os vícios desta geração são outros, o mais importante dos quais a liberdade. Mas quando falo em liberdade, não me refiro a um sentimento positivo de ser livre, mas antes ao desejo de destruir barreiras, de questionar as convenções sociais, de afirmar a sua individualidade, de testar os seus próprios limites.

Nos anos 50, os horrores da 2ª Guerra Mundial eram ainda uma realidade próxima. Juntando este mal-estar instalado na sociedade a uma juventude sem rumo, tudo condimentado com largas doses de desejo de livre (não esquecendo uma pitada de drogas, um raminho de experiências sexuais alternativas e uma colher de Budismo), assim se criou a Geração Beat, uma espécie de “Vencidos da Vida” versão americana. Se bem que os “Vencidos da Vida” caminhavam pelo mundo exalando conformismo, sentimento que a Geração Beat apenas conheceria se alguma droga o tivesse como efeito secundário. A geração “batida” estava longe de estar derrotada, pelo contrário, tinha ânsias de confronto, de chocar, de atacar, de romper com tudo e com todos.

Depois de 2 obras julgadas por obscenidade, de mortes prematuras, alguns assassinatos e suicídios, muito sexo e drogas, bastante vagabundagem pelo mundo e um estilo literário que rompia com os cânones, aproximando a literatura da língua falada (com os rejeitados da sociedade em 1º plano), a Geração Beat influenciou uma nova onde de escritores, sendo a poesia moderna sua eterna devedora.

Principais livros:
Pela Estrada Fora” de Jack Kerouac
Howl” de Allen Ginsberg
Festim Nu” de William S. Burroughs

sábado, 10 de agosto de 2013

Discurso Directo: Isabel Allende e o Feminismo enquanto meio




“Nice people, with common-sense, do not make interesting characters. They only make good former spouses.” (Isabel Allende nas TED Talks)