quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A dependência dos livros: edição Outubro de 2013



Já diz o povo que até ao lavar dos cestos é vindima. E nem poderia deixar de ser desse modo, pelo que decidi aproveitar os últimos dias da promoção da Cotovia, entretanto já terminada, para comprar a maioria dos livros que queria (não é todos os dias que se pode comprar livros de 16€ a 3€!). E com 50 e poucos euros comprei uma montanha de coisas: 4 prémios Nobel, 6 autores lusófonos, 3 grandes autores…

Vindo a quase totalidade dos livros deste mês da Cotovia, houve ainda espaço para 2 livros do Teixeira de Pascoaes comprados na Pó dos Livros. O nome de Pascoaes é um daqueles que ouvimos de vez em quando, sem sabermos muita coisa sobre ele. Estava a ler sobre o Cesariny e a páginas tantas refere-se que Teixeira de Pascoaes era considerado por ele o maior poeta português, mais importante até que Pessoa. Procurei algumas informações sobre Pascoaes e fiquei fascinado com o misticismo que rodeia a sua figura. Resultado: algum livro tinha de ser comprado. Acabaram por ser 2, e não apenas 1.

Deixo-vos então com a lista de livros comprados em Outubro:

O Alienista e Alguns Contos” de Machado de Assis
Arte de Ser Português” de Teixeira de Pascoaes
Bagagem” de Adélia Prado
Bouvard e Pécuchet” de Gustave Flaubert
O Caderno Cinzento” de Josep Pla
Dois Irmãos” de Milton Hatoum
“Frankie e o Casamento” de Carson McCullers
Gatos e Mais Gatos” de Doris Lessing
Livro de Memórias” de Teixeira de Pascoaes
Uma Morte Suave” de Simone de Beauvoir
Mortes Imaginárias” de Michel Schneider
Nós, os do Makulusu” de José Luandino Vieira
Paisagem com Inundação” de Iosif Brodskii
Platero e Eu” de Juan Ramón Jiménez
Os Ratos” de Dyonelio Machado
Relatos deum Certo Oriente” de Milton Hatoum
S. Bernardo” de Graciliano Ramos
Três Contos da Índia” de Rudyard Kipling

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Booker Prize de Eleanor Catton ou o que fazer aos 28 anos


Aos 28 anos, a minha idade, pensa-se sobre a vida. Sobre o pouco que se conseguiu, o muito que se deseja e as dificuldades que se adivinham. Dizem-se ainda coisas como “um dia vou escrever um livro”, porque ainda não há muita pressa, ainda há tempo, não muito, mas ainda há. Ou então, aos 28 anos pode-se ser um escritor consagrado e ganhar o The Man Booker Prize, como Eleanor Catton acabou de fazer. Obrigado Eleanor por tornares ter 28 anos tão mais agradável! Sem pressão!

“The Luminaries” é o segundo romance de Eleanor Catton, seguindo-se a “O Ensaio” editado em Portugal pela Gradiva, que consegue a proeza de ser o maior romance a receber o The Man Booker Prize (mais de 800 páginas). Em Portugal ainda não há sinal do livro, mas haverá certamente alguém neste momento numa editora a planear a sua publicação (caso contrário, estamos mal!). Por enquanto, resta-nos olhar para a crítica internacional e roer as unhas de ansiedade. Parece ser um livro notável.


O que a crítica diz de “The Luminaries”


«A novela de Catton faz amplo uso das ferramentas da intriga tradicional, que em parte certamente explicam o que motiva muitos dos nossos mais brilhantes escritores actuais a localizar a sua ficção no passado: falsificação de assinaturas e caligrafia, escutar atrás de portas e encontros clandestinos, pessoas do passado de alguém que surgem e o desmascaram, cartas roubadas e comunicações atrasadas, a ausência de uma permanente disponibilidade, que parecem inexistentes num contexto moderno.»

Lucy Daniel no Telegraph


«Catton conseguiu um curioso caso de dupla escrita – pode escrever mais e mais sobre uma coisa, e ela vai significar cada vez menos. As personagens não ganham profundidade no decorrer da história; afastam-se cada vez mais de nós. Quanto mais palavras lhes são atribuídas, menos sabemos sobre elas. A última secção do livro é constituída por corajosas analepses, com os capítulos a tornarem-se cada vez mais finos até serem uma mera página, à medida que a história é desvendada.»
Kirsty Gunn no The Guardian


«Sim é grande. Sim é inteligente. Mas façam um favor a vós próprios e leiam “The Luminaries” antes que alguém tente confinar os seus prazeres ao ecrã, pequeno ou grande. Pode não ser algo a dizer nos dias que correm, mas esta é uma história escrita para ser absorvida das páginas.»
Simmy Richman no The Independent

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Discurso Directo: a empatia de Alice Munro


“I can’t remember when I didn't make up stories.” (Alice Munro no International Festival of Authors)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Alice Munro, a mestre dos contos


«Não resistimos a revolver deste modo o passado e peneiramos factos indignos de crédito, juntamos nomes dispersos a datas e historietas dúbias, agarramo-nos a fios, insistindo em unirmo-nos aos mortos e, como tal, à vida.» 
Alice Munro em “A Vista de Castle Rock”


Há quem escreva sobre guerras, revoluções e amores épicos, emanando o dialecto do extraordinário. Frases pomposas, palavras grandiosas, personagens quase divinas, maiores que a vida, porque a vida é sempre menor que aqueles que a vivem. Alice Munro não é esse tipo de escritora. É no banal, nos pequenos momentos do quotidiano, na passagem lenta das horas, que Munro vive a sua escrita, elevando o mundano a extraordinário.

As suas personagens têm carne e sangue, e alimentam-se, e bebem água, olham o horizonte a pensar no futuro, deitam-se ao luar a recordar o passado. Vivem frustrações, vivem amores, vivem os dias. Vivem. Não são heroínas românticas, nem homens notáveis. São pessoas que vivem. Como nós.


Eu e Munro


Alice entrou na minha vida por acaso, como normalmente o faz quem nos é mais querido. Foi pela mão de uma das minha melhores amigas, que um dia, há 2 anos, me decidiu surpreender com o “A Vista de Castle Rock”, editado em Portugal pela Relógio d’Água. A escolha do livro foi bastante aleatória: tinha ouvido falar de Munro por alto, encontrou o livro numa promoção da Bertrand, leu a contracapa e achou que era um livro para mim. A escolha não poderia ter sido mais acertada e, se não estivéssemos já suficientemente ligados um ao outro, este livro cimentaria o que já era duro como rocha.

Comecei o livro a medo. Munro era até então uma incógnita para mim e o conto não era um género que me dissesse muito. E este é de facto o livro ideal para leitores com reticiências em relação a contos, porque há nele uma unidade que extravasa a natureza fragmentada que este tipo de livros por norma tem. Alice Munro conta-nos em 11 momentos a história da sua família, desde a partida da Escócia em busca de uma nova vida num novo continente, até à sua própria existência, num registo quase biográfico, mas sem os condicionantes do rigor factual.

Na parte final do livro, em que a Munro ficcionada, tão verdadeira quanto a Munro real, parte à descoberta das campas dos antepassados que invocou na 1ª parte do livro, viajando por caminhos desertos, vagueando por cemitérios abandonados, algo de inexplicável acontece. As folhas do livro desaparecem, a capa desintegra-se e, hipnotizados pelas palavras escritas, sentimos Munro ao nosso lado, partilhamos com ela um estado de consciência, num reconhecimento profundo da solidão e do desamparo. Tudo acabará ali. Também ela será um dia pó debaixo de terra, sob lápides partidas esquecidas no tempo. A única vez que senti algo semelhante foi com “Todo-o-Mundo” de Philip Roth, também no final do livro, quando o personagem principal visita a campa dos seus pais, mortos há já algum tempo. Há um sofrimento sóbrio no luto de mortes distantes, que simboliza com uma perfeição avassaladora a perda, porque apenas o tempo lhe confere a sua verdadeira dimensão.

Desde então que Munro faz parte do meu Olimpo de escritores, e nestes 2 anos comprei “O Amor de uma Boa Mulher” e “Fugas”, também da Relógio d’Água (como o são todos os livros da autora editados em Portugal). Por força da quantidade astronómica de livros que tenho por ler (a vontade de ler, como tradicionalmente, supera em muito o tempo para o fazer), ainda não os li, mas vou passá-los à frente. “Amada Vida”, o seu último livro e considerado por muitos como o melhor, será a minha próxima compra, com a promessa de uma leitura para breve. Aguardem por novidades nos próximos meses…


O que autores conceituados dizem de Munro


«As pessoas falam de Munro como uma “mestre do conto”. Mas mais do que uma mestre no género, Munro recriou-o. As suas histórias aparentemente tradicionais são tudo menos isso. Munro alterna entre múltiplos pontos de vista e planos temporais – coisas suficientemente complexas para nos deixarem de cabelos em pé – não para se exibir, mas para encontrar uma forma de conceder às suas histórias o máximo de densidade. É a escritora mais selvagem que alguma vez li, mas também a mais terna, a mais honesta, a mais perceptiva. Este é um daqueles anos em que ninguém se pode queixar da escolha do Comité do Nobel.»
Jeffrey Eugenides, vencedor do Pulitzer, 
autor de “Middlesex” e de “As Virgens Suicidas

«Ler Munro deixa-me num estado de reflexão calma, no qual penso na minha própria vida: nas decisões que tomei, nas coisas que fiz e não fiz, no tipo de pessoa que sou, na perspectiva da morte. Munro encontra-se num grupo restrito de autores, alguns vivos, a maioria mortos, que me vêm à cabeça quando digo que a ficção é a minha religião.”
Jonathan Franzen, vencedor do National Book Award, 
autor de “Correcções” e “Liberdade

(tradução e adaptação de testemunhos publicados pelo Washington Post)

«Alice Munro está entre os maiores escritores de ficção em inglês dos nossos tempos. A crítica americana e britânica tem-lhe atribuído mãos-cheias de elogios, tem recebido muitos prémios, e tem leitores internacionais devotos. Entre escritores, o seu nome é sussurrado. Ela é o tipo de escritor do qual se diz habitualmente – independentemente do quão conhecida ela se tornar – que tem de ser melhor conhecida.»
Margaret Atwood, vencedora do The Man Booker Prize, 

(excerto de um artigo publicado pelo The Guardian)

 


Livros de Alice Munro publicados em Portugal


Num artigo anterior, apresentei a lista de obras de Munro publicadas em Portugal (todas pela Relógio d’Água). Mas, porque sei que haverá muito apetite pelos livros da autora nos próximos tempos, aqui a têm novamente:

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Desbloqueadores de conversa sobre literatura: O Prémio Nobel da Literatura? Não é eleito pelo Professor Marcelo?


Todos os anos, no início de Outubro, um escritor ascende ao estatuto de Deus. Por muitos detractores que possa ter, o seu nome será inscrito na memória colectiva pelos anos vindouros, a sua obra chegará a mais países, as livrarias serão nos próximos meses invadidas pelos seus livros, muitos livros que, legitimados pelo Prémio Nobel, serão comprados com garantia de qualidade. Mas como ascende um escritor ao Prémio Nobel da Literatura?

Bom, para começar ajuda ter uma vasta e elogiada obra ou, em alternativa, ter nascido num país nórdico (o facto de haver muitos Prémios Nobel destes países não terá certamente nada a ver com o facto de o órgão que elege o premiado ser a Academia Sueca). Mas será este processo de eleição uma experiência mística, em que uma pitonisa com ligação directa ao Olimpo se apresenta perante a Academia Sueca anualmente, sussurrando em transe o nome do eleito? De maneira nenhuma. Receber o Prémio Nobel será certamente uma experiência transcendental, mas o processo de eleição está longe de o ser.

Na próxima 5ª feira vamos conhecer o laureado de 2013, mas na verdade tudo começou há algum tempo atrás, não na ilha do Sol, mas em Setembro do ano passado, altura em que o Comité do Nobel da Literatura enviou convites a quem reunia condições para nomear o próximo premiado. Quem foram os nomeadores? Os membros da Academia Sueca e outras academias, instituições e sociedades equivalentes a nível internacional, professores de literatura e linguística, anteriores laureados e os presidentes das sociedades de autores dos diferentes países. Os nomeadores tiveram até 31 de Janeiro para remeter as suas nomeações ao Comité, que avaliou a legitimidade da sua proveniência (para garantir que apenas nomeou quem o podia fazer), apresentando à Academia uma lista inicial para ser validada. A Academia, no seu site, alerta: «It often happens that the same names are put forward time after time, until the nominee either wins the prize or dies or the sponsors give up.»

Ora bem, o Comité reuniu a lista dos nomeados dos nomeadores qualificados e apresentou-a à Academia, que com base nela tomou uma decisão, certo? Não é bem assim. Acontece que a lista de nomeados é sempre alvo de uma censura inicial, na qual são retirados pelo Comité nomes que a Academia nem se predispõe a avaliar, nomeadamente, escritores científicos cujo trabalho não tem valor literário, escritores de qualidade duvidosa e escritores nomeados por outras razões que não pelos seus méritos literários. O Comité, constituído por 4 ou 5 membros da Academia, tem por isso um papel determinante, condicionando de forma não muito clara (existem critérios exactos para eliminar nomeados com base num critério de qualidade?) os nomes que serão considerados pela Academia.

O trabalho do Comité resultou então numa lista preliminar de cerca de 20 candidatos que foi apresentada à Academia Sueca em Abril, que a aprovou, devolvendo-a ao Comité, que teve a missão de a reduzir aos 5 nomes prioritários e apresentá-los à Academia em Maio (lista que ainda pôde ser alvo de alterações). Seguiu-se um Verão de ponderação, em que os membros da Academia leram as obras dos 5 candidatos, preparando-se para as sessões de aceso debate que decorreram no mês de Setembro, até que no início deste mês mais de metade da Academia Sueca chegou a acordo relativamente ao vencedor.


E pronto, ao vencedor resta celebrar no dia 10 de Outubro e a nós resta-nos arranjarmos espaço na prateleira para mais um autor. Quem será o vencedor este ano? A minha aposta vai para um norte-americano (EUA ou Canadá), sendo os meus favoritos a Alice Munro e o Philip Roth, mas acredito que seja possível que o eleito seja Cormac McCarthy ou, quem sabe, Joyce Carol Oates. A ver vamos…

domingo, 6 de outubro de 2013

O que é que a Granta tem? "Esboço para um Livro" de Ryszard Kapuściński


O poder da oratória na política foi-se perdendo, acompanhando o crescente descrédito da palavra dos políticos. Parece-nos por isso exótico o mundo que Ryszard Kapuścińsk nos apresenta, em que países clamam pela liberdade, gente alheia aos media toma decisões com base em contactos directos que tem com os políticos, e jornalistas idealistas colocam a sua vida em risco para cobrir acontecimentos que lhes parecem incontornáveis. Há neste mundo uma inocência comovente, de quem ainda não foi pervertido. Mas será mesmo assim? Não me parece que usar o racismo como resposta ao racismo seja um acto inocente…

“Esboço para um Livro” é um texto interessante de Ryszard Kapuścińsk, que nos dá que pensar, sem ser politicamente correcto, embora não percebamos exactamente onde é que o tema do “EU” encaixa, mas esse é um problema editorial que nada tem a ver com Kapuścińsk. Há um estilo jornalístico muito vincado no texto (já vos disse que Kapuścińsk é um conceituado jornalista?) e confesso que, desde o desaire de “Por Quem os Sinos Dobram” do Hemingway, a minha relação com híbridos de jornalismo e literatura nunca mais foi a mesma. Talvez por isso sinta que falta uma dinâmica narrativa mais forte, capaz de prender e marcar o leitor. Mas não deixa de ser uma leitura agradavelmente descontraída.

sábado, 5 de outubro de 2013