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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Em estado crítico: “Pastoral Americana” de Philip Roth


O homem comum. Os seus sonhos normais. O desejo de ser feliz, de viver uma vida pacata e envelhecer junto daqueles que mais ama. Philip Roth não escreve sobre homens excepcionais, prefere expor as excepcionais vidas dos homens banais, as suas frustrações, medos e ridículos. Mas em “Pastoral Americana” Roth vai mais longe: constrói o paradigma do sonho americano – um belo atleta louro abastado casado com uma ex-miss – apenas para o destruir. Uma destruição repentina e gratuita, como o costumam ser os acontecimentos que mudam vidas.

Os problemas da família perfeita de Seymour Levov, conhecido como o Sueco, começam com a gaguez da filha, Merry, que surge inexplicavelmente como uma premonição. Levov teme que aquele problema seja um reflexo de algo de errado que se passa com a sua filha, mas pouco consegue fazer para ajudá-la. Os seus sentimentos de culpa aumentam quando, num momento algo irracional, decide ceder aos pedidos da filha para a beijar na boca. Aquele instante é vivido por Levov como um incesto, um quebrar de regras que potencialmente terá aberto as portas à loucura futura.

Merry, frustrada com a gaguez, por se sentir aquém das expectativas dos pais, à medida que vai crescendo começa a desenvolver uma obsessão por questões políticas, mais especificamente pela Guerra do Vietname. Esse sentimento transforma-se rapidamente num repúdio do estilo de vida americano e daí até Merry se envolver com as pessoas erradas é um passo. Levov assiste passivo à perda da sua filha, sem a conseguir controlar, temendo que o pior possa acontecer. E acontece.

Uma bomba explode perto da casa dos Levov matando uma pessoa. De uma idealista radical Merry passa a criminosa procurada. A vida dos Levov é estilhaçada pela bomba, com o Sueco a passar dias e dias a tentar perceber o que correu mal. "Porquê? O que fiz eu para a minha filha se tornar numa assassina?" pergunta Levov, enquanto a sua mulher se afunda numa depressão e a filha se mantém em fuga.

Mas por muito interessante que o enredo do livro seja, há alguns problemas a que Roth não quis ou não conseguiu dar resposta. O período após o rebentamento da bomba caracteriza-se pelas constantes ruminações de Levov, um contínuo “onde foi que eu errei!” que se torna cansativo. E alega-se então “mas esse cansaço faz todo o sentido, porque expressa o cansaço da própria personagem, suscitando no leitor sentimentos semelhantes”, ao que eu respondo com uma velha máxima: a mestria de um escritor revela-se na capacidade de invocar algo sem que o texto tenha de ter essa mesma característica. Suscitar no leitor uma sensação de cansaço é uma coisa, tornar o texto ele próprio cansativo é outra.

Mas o meu grande problema nem sequer é esse. O que de facto me incomoda é a estrutura escolhida por Roth, que dá a sensação de projecto concluído à pressa. Na verdade o livro começa com Zuckerman, um colega de escola que nos revela o mito do Sueco adolescente, o judeu louro que todos conquistava. Zuckerman encontra-se com Levov algumas vezes durante a vida, e já velho ele contacta-o para lhe pedir ajudanuma homenagem que está a preparar para o pai. Depois disso, numa reunião de antigos alunos, Zuckerman encontra Jerry, o irmão do Sueco, que lhe conta que o irmão morreu e que a sua filha é a “bombista de Rimrock”. E a partir desse momento Zuckerman relata-nos uma história idealizada do que terá sido a vida do Sueco. Acontece que, após criar esta parte inicial, com personagens bem delineadas, com a própria vida de Zuckerman a ser-nos apresentada, o livro abandona totalmente este plano e centra-se até à última página na história do Sueco. O pobre leitor, em negação, espera que no final o círculo se complete e que haja uma espécie de reflexão centrada de novo em Zuckerman, o que nunca acontece.

Perguntamos então: para quê? Para quê criar uma história paralela para depois simplesmente a abandonar? Porque não então começar directamente com a narração da história de Levov, eliminando Zuckerman? E para estas perguntas não há resposta, ou pela menos uma satisfatória. É assim porque Roth assim quis que fosse. Mas nem sempre o que o escritor quer é o que é melhor para o livro.

Bem conscientes das desilusões que “Pastoral Americana” nos proporcionou, caminhamos para o final curiosos, sem saber muito bem como irá Roth terminar um livro tão reflexivo, com tantas questões e nenhumas respostas. E o final é estranho, de um estranho que nos faz reler aquelas breves páginas repetidamente à procura de uma mensagem encriptada. Mas aos poucos e poucos apercebemo-nos de que o que Philip Roth nos quer dizer é que a vida é feita de manifestações espontâneas e irracionais de violência e que nunca estaremos prontos para lidar com elas. Mas mais do que isso, há em toda a história de Levov uma mensagem quase fatalista: por muito grandes que os horizontes sejam, a pequenez da vida sobrepor-se-á, porque não há potencial que possa fugir à capacidade destruidora do mundo.

“Pastoral Americana” fala de um tema muito caro aos americanos: a América. O orgulho de ser americano e o ódio pelo que a América representa. A América como terra das oportunidades e como símbolo supremo do mal, uma existência em dois pólos antagónicos que Roth reproduz na perfeição. E por isso se fala deste livro como um dos seus melhores, talvez mesmo como a sua obra-prima. Mas é uma afirmação justa? Infelizmente não.“Pastoral Americana” é um livro bom, mas está longe de ser o melhor que Philip Roth pode fazer. 

Classificação: 16/20

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Em estado crítico: “Malone Está a Morrer” de Samuel Beckett


Mais por teimosia do que por estoicismo, avancei para a leitura do segundo livro da famosa trilogia de Beckett ainda com as agruras de “Molloy” vivas na cabeça. Não tinha grande esperança que a experiência com este livro fosse ser muito diferente, mas nas primeiras páginas ainda houve uma fagulha ínfima, rapidamente dragada pela escuridão.

Na verdade o que vos disse no passado sobre “Molloy” poderia ser exactamente o que vos digo agora sobre “Malone Está a Morrer”. Temos no centro da história um homem moribundo que, de forma entrecortada, nos vai contando a história de Sapo, que mais à frente passa a ser chamado de Macmann. À semelhança do que acontece no livro anterior, com o evoluir do livro e a progressiva fraqueza de Malone, o discurso vai-se tornando mais errático, os parágrafos tornam-se maiores, as ideias menos claras, e deixamos de perceber se a história que nos é contada é mesmo a de Macmann, ou se não se tratará da vida do próprio Malone.

Como disse a respeito de “Molloy”, reconheço o valor literário do que Beckett fez, embora para mim seja mais eficaz como um monólogo teatral do que como um romance. Beckett mimetiza de forma impressionante a mente confusa de um homem quase dominado pela morte, mas isso é mais uma qualidade técnica do que um argumento para considerar “Malone Está a Morrer” aquilo que não é: um grande romance. Ou talvez o seja para alguns, mas eu não revejo nos dois livros de Beckett o meu conceito de literatura, da literatura capaz de criar empatia, que me move do meu eixo e me faz sentir. Para mim “Malone Está a Morrer” é quanto muito um exercício intelectual bem-sucedido e não anseio pelo dia em que lerei “O Inominável”…

Classificação: 10/20

domingo, 14 de junho de 2015

Diário da Feira do Livro 2015: 14 de Junho


E a Feira do Livro de Lisboa de 2015 chega hoje ao fim. Depois de dias consecutivos a subir e a descer o Parque Eduardo VII voltamos ao calendário, onde contaremos os dias até voltarmos a ser felizes de novo. Mas antes da despedida, ainda podem passar pela Feira e fazer uma última compra, em jeito de adeus. Fiquem portanto com alguns dos Livros do Dia de hoje:

Relógio D’Água
“Anna Karénina” de Lev Tolstói - 16€
“As Aventuras de Huckleberry Finn” de Mark Twain - 8€
“Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa - 18€

Grupo Porto Editora
“Ara” de Ana Luísa Amaral - 6,65€ (banca da Sextante)
“K4 - o quadrado Azul” de José de Almada Negreiros - 7€ (banca da Assírio & Alvim)

Cotovia
“Gatos e Mais Gatos” de Doris Lessing - 12,5€

Cavalo de Ferro
“Nada” de Carmen Laforet - 8,5€

Grupo Leya

“O Vale da Paixão” de Lídia Jorge - 9,5€ (banca da Dom Quixote)

sábado, 13 de junho de 2015

Diário da Feira do Livro 2015: 13 de Junho


Durante a Feira do Livro, assinalando a comemoração dos 50 anos da Dom Quixote, uma selecção de 50 títulos da editora estará disponível com 50% de desconto. Entre os livros disponíveis encontram-se:

“Contos” de Miguel Torga
“Correcções” de Jonathan Franzen
“Gente Feliz com Lágrimas” de João de Melo
“Goodbye, Columbus” de Philip Roth
“O Homem Lento” de J. M. Coetzee
“Obras Completas I” de Urbano Tavares Rodrigues
“Os Buddenbrook” de Thomas Mann
“Rabos de Lagartixa” de Juan Marsé
”Sartoris” de William Faulkner
“Se Não Agora, Quando?” de Primo Levi
“Siddhartha” de Hermann Hesse
“Tieta do Agreste” de Jorge Amado

Aproveitem estes últimos dias da Feira do Livro para tirarem partido dessa promoção e, se passarem por lá hoje, não se esqueçam dos Livros do Dia em destaque:

Grupo Porto Editora
“A Liberdade de Pátio” de Mário de Carvalho - 6,65€ (banca da Porto Editora)

Relógio D’Água
“Crime e Castigo” de Fiódor Dostoievski - 12€
“Orgulho e Preconceito” de Jane Austen - 10€

Tinta-da-China
“Os Maias” de Eça de Queirós - 12€

Alfaguara
“O Mapa e o Território” de Michel Houellebecp - 11,94€

Cavalo de Ferro
“Obra Reunida” de Juan Rulfo - 9,5€

Babel
“Sinais de Fogo” de Jorge de Sena - 17,57€

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Diário da Feira do Livro 2015: 12 de Junho


Prevenindo o estado de loucura em que iríamos ficar, a Cavalo de Ferro não adere à Hora H. Para nos compensar tem os livros todos com pequenos descontos, que representam geralmente entre menos 1.5€ e 3€ face ao preço normal, o que para a Feira do Livro é um pouco conservador... Mas nos Livros do Dia torna-se tudo mais interessante e os descontos chegam em regra aos 40%. Tendo em conta que a Cavalo de Ferro tem um dos melhores catálogos nacionais, esse desconto sabe-nos a ambrosia e até ao final a Feira ainda haverá 2 obras essenciais que estarão a preços irresistíveis: a “Obra Reunida” do Rulfo no Sábado e o “Nada” de Carmen Laforet no Domingo. Como resistir?

E por falar em Livros do Dia, quem passar hoje pela Feira do Livro poderá encontrar com desconto significativo:

Antígona
“Walden” de Henry David Thoreau - 9,25€

Grupo Porto Editora
“São Paulo” de Teixeira de Pascoaes - 11,25€ (banca da Assírio & Alvim)
“A Desumanização” de Valter Hugo Mãe - 8,3€ (banca da Porto Editora)

Babel
“Peito Grande – Ancas Largas” de Mo Yan - 14,97€

Relógio D’Água
“Debaixo do Vulcão” de Malcolm Lowry - 12€

Grupo Leya
“Claraboia” de José Saramago - 9,1€ (banca da Caminho)
“A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera - 11,3€ (banca da Dom Quixote)

Cotovia
“Assassínio na Catedral” de T.S. Eliot - 6€

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Diário da Feira do Livro 2015: 10 de Junho


Quem aproveitar o feriado para ir até à Feira do Livro poderá, ao final da tarde, satisfazer a curiosidade de ver ao vivo quem bem conhece da televisão. “A Década dos Psicopatas” de Daniel Oliveira (o comentador), recentemente lançado pela Tinta-da-China, será apresentado às 19h por Ricardo Araújo Pereira.

Pelo caminho aproveitem e manifestem o vosso nacionalismo (se o tiverem!) apoiando as editoras nacionais. Ora reparem em alguns dos títulos que são hoje Livro do Dia:

Babel
“A Sibila” de Agustia Bessa-Luís - 11,81€

Relógio D’Água
“As Aventuras de Huckleberry Finn” de Mark Twain - 8€
“Fausto” de Goethe - 16€
“Lolita” de Vladimir Nabokov - 10€
“Os Irmãos Karamázov” de Fiódor Dostoievski - 21€

Alfaguara
“Jesus Cristo Bebia Cerveja” de Afonso Cruz - 9,54€

Grupo Leya
“O Ano Sabático” de João Tordo - 7,6€ (banca da Dom Quixote)

Grupo Porto Editora
“Os Papéis de K.” de Manuel António Pina - 5€ (banca da Assírio & Alvim)

Cavalo de Ferro
“Papéis inesperados” de Julio Cortázar - 8€

Tinta-da-China
“Viagem à Volta do Meu Quarto” de Xavier de Maistre - 13€

terça-feira, 9 de junho de 2015

Diário da Feira do Livro 2015: 9 de Junho


Uma das novidades que será apresentada durante a Feira do Livro, mais concretamente no dia 12, são as novas edições de “O Nosso Reino”, “O Remorso de Baltazar Serapião” e “O Filho de Mil Homens” de Valter Hugo Mãe, agora com a chancela da Porto Editora.

Para além de um grafismo cuidado, contando com ilustrações de Daniela Nunes e da islandesa Ingibjörg Birgisdóttir, as novas edições vão contar com prefácios de autores prestigiados, respectivamente Ferreira Gullar, Saramago e Alberto Manguel. Posteriormente, e seuindo a mesma lógica, serão lançados também “O Apocalipse dos Trabalhadores” e “A Máquina de Fazer Espanhóis”.

Enquanto aguardamos por estas novas edições, confiram os títulos que poderão encontrar hoje como Livros do Dia:

Grupo Porto Editora:
“Agosto” de Rubem Fonseca - 8,3€ (banca da Sextante)

Relógio D’Água
“As Viagens de Gulliver” de Jonathan Swift - 9€
“O Amor de Uma Boa Mulher” de Alice Munro -10€
“Os Demónios” de Fiódor Dostoievski - 15€

Tinta-da-China
“Causas da Decadência dos Povos Peninsulares” de Antero de Quental - 8,8€
“Os Meus Sentimentos” de Dulce Maria Cardoso - 14,4€

Babel
“Memória de Adriano” de Marguerite Yourcenar- 8,97€

Grupo Leya
“Liberdade” de Jonathan Franzen - 15€ (banca da Dom Quixote)

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Diário da Feira do Livro 2015: 8 de Junho


Para quem procura livros bons e muito baratos, a Cotovia tem também um cantinho especial, ideal para esse propósito. Por lá podem encontrar muitos livros a 3€ e 5€, com principal destaque para Teresa Veiga e alguns dos seus títulos mais antigos.

Comecemos então a última semana da Feira, sempre de olhos postos nos destaques dos Livros do Dia:

Grupo Porto Editora
“A Educação do Estóico” de Fernando Pessoa - 5,5€ (banca da Assírio & Alvim)
“Manifesto Anti-Dantas e por Extenso” de José de Almada Negreiros - 8,3€ (banca da Assírio & Alvim)
“O Estrangeiro” de Albert Camus - 4,95€ (banca da Livros do Brasil)
“Submundo” de Don DeLillo - 12€ (banca da Sextante)

Relógio D’Água
“A Educação Sentimental” de Gustave Flaubert – 10€
“Orlando” de Virginia Woolf - 9€

Alfaguara
“Pulp” de Charles Bukowski - 10,14€

Grupo Leya
“Travessuras da Menina Má” de Mario Vargas Llosa - 11,3€ (banca da Dom Quixote)
“Obras Completas – Volume I” de Urbano Tavares Rodrigues - 11,9€ (banca da Dom Quixote)

domingo, 7 de junho de 2015

Diário da Feira do Livro 2015: 7 de Junho


A Feira do Livro é o local ideal para obter o autógrafo dos escritores que mais estimamos e através do espaço “Agenda”, no site da Feira, é muito fácil estar a par de que estará na Feira nos mesmo dia que nós.

Os fins-de-semana são sem sombra de dúvida as alturas mais propícias para encontros entre leitores e escritores. Hoje, por exemplo, quem passar pelo Parque Eduardo VII poderá encontrar por lá João Tordo, Teolinda Gersão, Gonçalo M. Tavares, Rentes de Carvalho ou Agualusa. Informem-se com antecedência e vão munidos com os vossos livros favoritos!

Mas porque ir à Feira sem comprar livros é uma heresia, passemos os olhos pelos Livros do Dia em destaque:

Grupo Porto Editora
“Todas as Palavras” de Manuel António Pina - 10€ (banca da Assírio & Alvim)
“O Silêncio” de Teolinda Gersão - 5,55€ (banca da Sextante)
“O Medo” de Al Berto - 20€ (banca da Assírio & Alvim)
“Metamorfose” de Franz Kafka - 4,95€ (banca da Livros do Brasil)

Cavalo de Ferro
“A Volta ao Dia em 80 Mundos” de Julio Cortázar - 9,5€

Relógio D’Água
“Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada” de Pablo Neruda 7€
“O Grande Gatsby” de F. Scott Fitzgerald - 6€
“Errata” de George Steiner - 8€

Grupo Leya
“Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Márquez - 10,7€ (banca da Dom Quixote)
“A Bagagem do Viajante” de José Saramago - 8,9€ (banca da Caminho)

Alfaguara
“Para Onde Vão os Guarda-Chuvas” de Afonso Cruz - 11,7€

Tinta-da-China
“Vai, Brasil” de Alexandra Lucas Coelho - 10,8€

sábado, 6 de junho de 2015

Diário da Feira do Livro 2015: 6 de Junho


Nem só de promoções vive a Feira do Livro, também há espaço para grandes novidades. E a Relógio D’Água aproveitou esta altura para lançar a sua colecção de obras do José Cardoso Pires, chegando para já aos escaparates 4 livros: “O Anjo Ancorado”, “ O Delfim”, “A Balada da Praia dos Cães” e “De Profundis, Valsa Lenta”. Uma homenagem a um autor que nos últimos anos tem sido um pouco esquecido.

Deixo-vos com algumas sugestões de Livros do Dia de hoje:

Relógio D’Água
“À Sombra das Raparigas em Flor” de Marcel Proust- 12€
“Contos de Andersen” de Hans Christian Andersen - 12€
“Mataram a Cotovia” de Harper Lee - 9€

Grupo Leya
“O Planalto e a Estepe” de Pepetela - 7,1€ (banca da Dom Quixote)
“Os Transparentes” de Ondjaki - 10,7€ (banca da Caminho)

Grupo Porto Editora
“Os Malaquias” de Andréa del Fuego - 6,65€
“Bartleby” de Herman Melville - 3,5€ (banca da Assírio & Alvim)

Tinta-da-China
“O Meu Amante de Domingo” de Alexandra Lucas Coelho - 13€
“ O Retorno” de Dulce Maria Cardoso - 7,8€

“Tudo São Histórias de Amor” de Dulce Maria Cardoso - 13€

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Diário da Feira do Livro 2015: 4 de Junho


E porque a Hora H é uma fonte inesgotável de prazer, não deixem de passar pela Tinta-da-China que, embora não tenha todos os livros na promoção, tem uma selecção bastante significativa, em que se incluem “O Bom Soldado Svejk” de Jaroslav Hasek, “Entrevista da Paris Review” selecionadas por Carlos Vaz Marques e “Puta que os Pariu!”, a biografia de Luiz Pacheco da autoria de João Pedro George. E muitos livros da colecção de humor, da colecção de viagens, da colecção de literatura portuguesa…

Enquanto sonham com estas oportunidades, espreitem os Livros do Dia em destaque:

Grupo Porto Editora
“A Um Deus Desconhecido” de John Steinbeck - 6,65€ (banca da Livros do Brasil)
“Rumor Branco” de Almeida Faria - 6,45€ (banca da Assírio & Alvim)
“Todos os Poemas” de Ruy Belo - 24€ (banca da Assírio & Alvim)
“Uma Mentira Mil Vezes Repetida” de Manuel Jorge Marmelo - 6€ (banca da Quetzal)

Tinta-da-China
“Cadernos de Pickwick” de Chales Dickens - 10,2€

Grupo Leya
“Némesis” de Philip Roth - 10,1€ (banca da Dom Quixote)

Cotovia
“Peças escolhidas III” de Henrik Ibsen - 12,5€

Relógio D’Água
“O Jogador” de Fiódor Dostoievski - 8€

“O Vermelho e o Negro” de Stendhal - 14€

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Diário da Feira do Livro 2015: 28 de Maio


Os snobs torcem o nariz à Feira do Livro, mas quem quer verdadeiramente saber de opiniões que são mais uma projecção de imagem do que verdades ditadas pela consciência? Para mim, ir à Feira do Livro de Lisboa é como entrar numa loja de doces em que tudo brilha, olhamos desnorteados para todas as direcções, sem saber onde pousar os olhos primeiro.

Mas a excitação não pode aniquilar a racionalidade e o primeiro conselho que vos dou é: preparem-se. Não vão apenas despreocupadamente passar os olhos pelas bancas e escolher espontaneamente o que comprar. Isso funciona em casos específicos, por exemplo nas bancas de promoções da Relógio D’Água, em que os livros estão ao mesmo preço durante toda a Feira. Mas levados pela promoção do Livro do Dia, muitas vezes não se tomam as melhores opções. Por exemplo: os Livros do Dia da Relógio D’Água têm por norma 40% de desconto, mas se forem comprados a Hora H, noutro dia em que não sejam Livro do Dia, o desconto já é de 50%.

Por isso vos digo, percam uma horinha a programarem a vossa Feira, identifiquem que Livros do Dia valem a pena nos dias em que vão e definam que livros é melhor deixar para a Hora H. Um comprador preparado é um comprador mais poupado. E não se esqueçam, o lema é sempre: comprar mais pelo menor preço.

Da minha parte prometo acompanhar-vos diariamente, com os destaques dos Livros do Dia e dicas para tornarem a vossa Feira do Livro de Lisboa 2015 a melhor de sempre. Deixo-vos com alguns dos Livros do Dia de hoje:

Grupo Porto Editora
“1822” de Laurentino Gomes - 9,35€ (banca da Porto Editora)
“A Questão Finkler” de Howard Jacobson - 8,85€ (banca da Porto Editora)
“As Verdes Colinas de África” de Ernest Hemingway - 6,65€ (banca da Livros do Brasil)
“Mensagem” de Fernando Pessoa - 5,5€ (banca da Assírio & Alvim)
“Na Patagónia” de Bruce Chatwin - 7,75€ (banca da Quetzal)
“Poesia” de Sophia de Mello Breyner Andresen - 6,1€ (banca da Assírio & Alvim)

Relógio D’Água
“A Estrada” de Cormac McCarthy - 8€
“A Ilha do Tesouro” de Robert Louis Stevenson - 7€
“A Viagem do Beagle” de Charles Darwin - 15€
“A Sonata de Kreutzer” de Lev Tolstói - 8€
“As Flores do Mal” de Charles Baudelaire - 12€

Alfaguara
“A Laranja Mecânica” de Anthony Burgess - 11,34€

Antígona
“A Quinta dos Animais” de George Orwell - 7€

Grupo Leya
“Barroco Tropical” de José Eduardo Agualusa - 8,10€ (banca da Dom Quixote)

Cotovia
“Teatro 1” de Bertolt Brecht - 12,5€

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Cheiro a livro novo – Abril de 2015



Em Abril houve motivos para sorrir. As editoras arregaçaram as mangas, fizeram frente à inconstância climática e trouxeram-nos boas novidades e reedições.

Comecemos pelos grandes clássicos. A propósito da comemoração dos 50 anos da editora Dom Quixote, eis que chegou às livrarias uma nova edição de “Dom Quixote de La Mancha” de Cervantes. E já vos ouço a dizer: “Outra edição do livro?! Não temos já a maravilhosa edição de capa dura da Relógio D’Água?! Porque nos deveria interessar esta edição?!” A resposta está no preço – apenas 10€. E em muitos sites (na Leya Online e na Wook, por exemplo) ainda tem 10% de desconto, ficando portanto por apenas 9€.

Mas há mais clássicos a marcar o mês. “Sensibilidade e Bom Senso” de Jane Austen mereceu uma nova edição da Relógio D’Água e a Tinta-da-China fez regressar ao convívio dos leitores portugueses “Viagem à Volta do Meu Quarto” de Xavier de Maistre, mais um volume da colecção de Literatura de Viagens coordenada por Carlos Vaz Marques.

Movendo-nos um pouco no tempo chegamos às grandes obras do século XX e a Cavalo de Ferro marcou pontos com a publicação de “Bestiário”, uma das obras centrais de Julio Cortázar. Mas a nova Livros do Brasil não lhe ficou atrás e de uma assentada lançou novas edições de “Piloto de Guerra” de Antoine Saint-Exupéry e de “O Velho e o Mar” e “A Taça de Ouro”, respectivamente dos Prémios Nobel Hemingway e Steinbeck.

E por falar em Prémio Nobel, chegou também em Abril às livrarias, pela mão da Porto Editora, o mais recente livro de Patrick Modiano, intitulado “Para que não te percas no bairro”. Destaque ainda para o primeiro romance de grande fôlego em vários anos de Kazuo Ishiguro, publicado pela Gradiva com o título “O Gigante Enterrado”.

Em termos de literatura portuguesa, não há muito para dizer, apenas que a Companhia das Letras publicou o novo romance de João Tordo, “O Luto de Elias Gro”.

Na não-ficção, para terminar, dois Prémios Nobel: “A Conquista da Felicidade” de Bertrand Russell, publicado pela Relógio D’Água, e “Eu Não Venho Fazer um Discurso” de Gabriel García Márquez, pela Dom Quixote.

Maio é o mês do começo da Feira do Livro de Lisboa, portanto é tradicionalmente um mês de muitas novidades. Mal podemos esperar!

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Em estado crítico: “Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Márquez


“Ferido pelas lanças mortais das nostalgias próprias e alheias, admirou a impavidez das teias de aranha nas roseiras mortas, a perseverança da cizânia, a paciência do ar no radiante amanhecer de Fevereiro. E então viu o menino. Era uma pele inchada e ressequida que todas as formigas do mundo iam arrastando trabalhosamente para as suas madrigueiras pelo caminho de pedras do jardim.”


Aureliano e Amaranta Úrsula amam-se numa casa vazia. Nas divisões tomadas pela natureza, onde ainda deambulam os fantasmas dos seus antepassados, não restam recordações dos tempos de prosperidade em que a estirpe dos Buendía comandava Macondo, a pequena povoação que José Arcadio Buendía ajudara a construir, e que mais tarde seria visitada por uma família de ciganos que lhes apresentaria o gelo.

Ignorando que são tia e sobrinho, Amaranta Úrsula e Aureliano amam-se, sem que nas suas cabeças ecoem as advertências de Úrsula de que da união de membros da mesma família nascerão crianças com rabo de porco. Entregues um ao outro, olham como uma miragem para as histórias do destemido Coronel Aureliano, que todos pensam ser um mito, mas já não restam nas suas memórias vestígios da infeliz Amaranta que por medo se recusou a viver os grandes amores que a vida parecia disposta a proporcionar-lhe. Aos poucos e poucos esquecem também Remédios, A Bela, sua tia, com a sua nudez inocente e uma existência tão sobre-humana que ninguém se espantou quando levitou em direcção ao céu e se perdeu no infinito azul celestial.

Ao ficarem apenas os dois, Amaranta Úrsula e Aureliano concretizam a solidão da sua linhagem, que anos antes era camuflada pelas múltiplas figuras fortes que habitavam a casa e o ritmo frenético a que se sucediam os acontecimentos marcantes. Uma solidão que é a de quem não é livre para viver uma vida pacata, dominado por vezes por um desejo de viver excessivamente, outras vezes por uma ânsia de descobrir os grandes mistérios da criação do ouro ou de desvendar os pergaminhos deixados por um sábio cigano.

Gabriel García Márquez queria criar um livro que contivesse em si todo o mundo e conseguiu-o. Os cem anos de solidão dos Buendía são um arquétipo dos efeitos do tempo e da evolução histórica. Com as suas personagens com nomes semelhantes, como se cada novo Buendía se escondesse na sombra dos seus predecessores, tentando enganar-nos, é como se García Márquez recriasse o princípio de Lavoisier e a história não fosse mais do que uma constante transformação do já existente, em que as mesmas figuras surgem com pequenas diferenças e os factos do passado se recriam continuamente, numa vertiginosa rota decadente.

“Cem Anos de Solidão”, editado em Portugal pela Dom Quixote, é de uma perfeição cristalina. Uma obra esculpida com as memórias da infância de García Marquéz em Aracataca, no mundo místico da casa dos seus avós, em que a cadência narrativa e a gestão da acção revelam os quase divinos talentos do escritor. E como esquecer Rebeca Montiel, a devoradora de terra e de cal das paredes, Pilar Ternera, que das sombras ajudou a moldar a família, Santa Sofia de la Piedad, sempre presente e no entanto quase como se não existisse. José Arcadio, o gigante tatuado que partiu com os ciganos, Aureliano Segundo, o bondoso homem com uma vida dominada pelos excessos, Fernanda del Carpio, a nobre e severa mulher que se correspondia com médicos invisíveis e Mauricio Babilonia, o trágico apaixonado com o seu rastro de borboletas amarelas? Como esquecer a peste da insónia, as infindáveis guerras travadas pelo Coronel Aureliano, a chegada do comboio, a plantação de bananas, a chuva que durou quatro anos, onze meses e dois dias, a entrega de vários membros da família à descodificação dos pergaminhos de Melquíades, Rebeca Montiel velha só numa em casa em ruínas esperando a morte?

As últimas páginas de “Cem Anos de Solidão” são uma ode assombrosa, como se um furacão tomasse conta do mundo e Macondo se preparasse para desaparecer. Chegamos ao fim sem fôlego, fechamos o livro hesitantemente, mas não conseguimos fugir à imagem do ancião José Arcadio Buendía preso à árvore. Perdido no seu mundo, talvez pensando sobre o destino da sua família. Só, como convém a um Buendía.

Classificação: 20/20

terça-feira, 21 de abril de 2015

Em estado crítico: “O Amor nos Tempos de Cólera” de Gabriel García Márquez


Dúvidas. Tenho muitas dúvidas. Termino a leitura de “O Amor nos Tempos de Cólera”, editado em Portugal pela Dom Quixote, e questiono-me se o amor é mesmo uma das peças centrais deste livro. Vejo nele mais de obsessão e entrega resignada do que de amor, o que é estranho quando deveríamos estar na presença de uma das grandes histórias de amor da literatura.

Com amor ou sem ele, o que não há certamente é romantismo neste livro. Mesmo um acto como a escrita contínua de cartas sem obter resposta (algo recorrente nos livros de García Márquez) torna-se questionável quando falamos de duas pessoas que na verdade não se conhecem, que raramente se viram, e que pouco ou nada sabem um do outro. Fermina Daza e Florentino Ariza são dois estranhos, o que me leva a pensar que o que Florentino ama é a ideia de amar Fermina. De resto, é recorrente no livro que os acessos de amor adquiram características de doença, febres e vómitos que mais parecem uma manifestação de cólera do que amor. Talvez o amor seja uma espécie de cólera, talvez…

Inspirado na história de amor dos seus pais, Gabriel García Márquez relata-nos uma longa e extenuante dança entre Fermina Daza e Florentino Ariza, que culminará quando já velhos se reencontrarem. No dia que Juvenal Urbino morre, Florentino aproveita a condição de viúva de Fermina para uma última tentativa, como se os longos anos que os levaram àquele momento fossem apenas uma preparação para o que o futuro lhes reservava.

Velhos, juntam-se resignadamente na sua destruição. Mas não é um novo começo que temos, mas sim um fim suspenso, e talvez seja esse um dos problemas de “O Amor nos Tempos de Cólera”, o preparar-nos para um grande amor que nunca se concretiza. Para uma história de tão grande fulgor, faltam-lhe intensos rasgos emocionais, nunca saindo de um decepcionante estado morno bem patente na desistência final em enfrentar o mundo.

Quando Gabriel García Márquez diz que “O Amor nos Tempos de Cólera” é o seu livro que ficará, o melhor que produziu, e sabendo nós que existe “Cem Anos de Solidão”, é impossível não partir para a leitura deste livro com elevadíssimas expectativas. E é difícil conseguirmos depois olhar para ele sem o associar à desilusão. Não me entendam mal: “O Amor nos Tempos de Cólera” é um bom livro, mais um exemplo do incomensurável talento narrativo de García Márquez, cheio de personagens e pequenas histórias interessantes, mas que empalidecem por comparação a “Cem Anos de Solidão”, sem serem capazes de igualar a sua carga simbólica. Um bom livro, sem dúvida, mas apenas isso.

Classificação: 16/20

domingo, 19 de abril de 2015

Em estado crítico: “Crónica de uma Morte Anunciada” de Gabriel García Márquez

“No dia em que iam matá-lo, Santiago Nassar levantou-se às 5h30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava uma mata de figueiras-bravas, onde caía uma chuva miúda e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros.”


Enunciar de forma banal factos que irão ocorrer no futuro é um recurso comum no realismo mágico e uma característica que sempre me espantou. Quando menos esperamos, sem que tenha havido um cuidado em preparar-nos para o que vai acontecer, lemos uma frase lacónica que nos revela o destino de uma personagem, muitas vezes a sua morte, várias páginas antes de se concretizar. “Crónica de uma Morte Anunciada”, editado em Portugal pela Dom Quixote, leva esse conceito ao extremo ao revelar-nos na primeira frase a morte de Santiago Nassar. E se a primeira frase deixa uma margem mínima para a dúvida, Gabriel García Marquéz assegura-se o que o leitor não sai do primeiro capítulo sem certezas. “Já o mataram”, assim termina a primeira parte desta crónica.

O livro não se foca portanto no que vai acontecer, o leitor não percorre as páginas antevendo um final porque o conhece de antemão. A ideia é outra, a de estimular o interesse pela revelação dos detalhes que levaram aos acontecimentos. Há por isso um relato factual, sem espaço para grandes considerações morais ou de enquadramento. Aos poucos vamos sabendo que Santiago Nassar foi morto pelos irmãos de Angela Vicario, cujo casamento com Bayardo San Román se deu no dia anterior. Na noite de núpcias Bayardo descobre que Angela já não é virgem e devolve-a à casa da sua família e Angela, pressionada a nomear o homem que a desonrou, profere o nome de Santiago Nassar.

Nunca saberemos se a sua acusação é verdadeira. O que se torna óbvio é que há dois elementos a conspirarem contra Santiago Nassar: a honra e o destino. A noção de honra é uma das forças propulsoras que conduzem a narrativa ao seu cenário final. Os irmãos de Angela agem sem estar dominados por uma vontade de vingança e tomam todas as providências para que a morte de Santiago possa ser evitada. Esperam-no num local público, informam todos sobre as suas pretensões, rogando no seu íntimo que alguém o avise atempadamente e possam sair daquela situação com a honra da sua família intacta e Santiago com a sua vida.

O desejo dos irmãos de Angela de que algo os impeça de executar aquilo que a sociedade espera deles esbarra com uma força demolidora: o destino. Santiago tem as probabilidades a seu favor, mas o destino procura vorazmente a sua morte e assegura-se que todos os passos que dá sejam os errados e que o conduzam às facas empunhadas pelos irmãos de Angela. Num golpe de má sorte, quando se encontra a poucos metros de entrar na sua casa e escapar aos seus assassinos, a porta é fechada pela sua mãe que o crê em casa e que pensa estar assim a evitar que os homens o encontrem. Plácida Linero determinará com esse gesto o fatal destino do seu filho.

A morte de Santiago Nassar torna-se ainda mais cruel quando descobrimos que anos mais tarde Angela e Bayardo se reencontram e vivem por fim o seu amor. Para trás fica um rastro de cartas por ler,que Angela endereçou a Bayardo durante anos, e a desnecessária morte de um homem condenado pelo destino e não pelos actos.

Gabriel García Márquez consegue transformar uma história simples num livro marcante para todos os que o leiam, em grande parte pela mestria com que nos conta a história, com que manipula a narrativa para que vivamos a mesma história de diferentes ângulos. Revela-nos prontamente a morte de Santiago Nassar porque tem a força de um facto, embora não tenha ainda acontecido. No fim, os homens são sempre fracos perante o fado caprichoso que os domina.

Classificação: 18/20

domingo, 28 de dezembro de 2014

Não voltarei a ler Lobo Antunes


Imaginem-se num país estranho. O chão parece todo coberto de mármore rosa, mas quando olham de perto percebem que são reles placas de vinil pintadas. E pensam “onde está o reino de mil maravilhas que me foi prometido?”. Rumam sem rumo, procurando algo que faça a viagem valer a pena. De repente dão por vós junto a uma escadaria enorme, íngreme, com minúsculos degraus. A sinalética indica que no topo da escadaria há um restaurante paradisíaco, digno de receber os deuses sedentos de ambrosia. A custo, decidem subir, e vão andando e andando, já vos dói os calcanhares, escorregam uma série de vezes, quase desistem a meio e, quando já as últimas forças vos abandonavam, chegam ao topo. E à vossa espera… a maior chafarica de sempre! Cadeiras velhas e desconfortáveis, baratas pelo chão, com sorte comem um prego de pão duro e carne cheia de nervo. Para mim ler Lobo Antunes foi isto.

Li o “Exortação aos Crocodilos” há 7 anos. Foi-me oferecido por uma grande amiga, a Sílvia, que coitada mais não fez do que satisfazer um desejo meu e é em nome dela que aceito que este livro permaneça sob o meu tecto. Para perceberem a dimensão da desgraça, ia eu na página 200 quando me apercebi que as narradoras do livro eram 4 mulheres e não apenas 3 e segui em frente, como se nada fosse, nem sequer ponderando voltar ao início. O estilo de escrita, muito baseado em vozes que se emaranhavam, em constantes movimentos de aproximação e afastamento, até me pareceu interessante, mas noutro contexto. Não ali. Tudo era tão estéril, tão masturbatório… Mas mantive-me fiel ao meu princípio de dar uma segunda hipótese a escritores e predispus-me a voltar a Lobo Antunes no futuro. Com esse objectivo em mente, há dois anos comprei na Feira do Livro o “O Manual dos Inquisidores” e coloquei-o em lista de espera, sem pressa.

Cruzei-me pouco com Lobo Antunes nestes anos. Fui ouvindo algumas declarações dele, polémicas por norma, mas já conhecia a sua fama de quando passei pelo Cenjor e uma entrevista que lhe foi feita pela Isabel Stilwell, penso eu que para o Diário de Notícias, era apresentada como exemplo do que não fazer. Mas foi no início deste ano, também por causa da Sílvia, que me ofereceu o “Os Escritores (Também) Têm Coisas a Dizer”, que voltei a contactar com Lobo Antunes mais de perto. A entrevista dele ao Carlos Vaz Marques incomodou-me, mas segui em frente, e até já estava convencido a ler o “Explicação aos Pássaros” quando li há poucas semanas outra entrevista de sua excelência no Diário de Notícias, que eu qualificaria como uma das coisas mais lamentáveis de sempre. Não por culpa do jornalista, coitado, que depois deve ter sido colocado a soro para limpar o organismo (um banho de salva, também não era mal pensado). Tanto disparate, tanta arrogância, tanta maldade proferida por alguém que diz considerar a bondade aquilo que mais admira nas pessoas. E assim fui empurrado para uma resolução: expurgar Lobo Antunes da minha vida. Não, não voltarei a ler Lobo Antunes. Já doei o “O Manual dos Inquisidores” a uma amiga. E passei estas semanas a recolher pérolas desta pessoa adorável para fundamentar a minha decisão.

Atenção: isto não quer dizer que eu considere que temos de gostar do escritor para gostar da obra, por norma a figura do escritor é-me indiferente, mas o Lobo Antunes esgotou a minha paciência e não quero perder mais tempo com ele. Prossigam neste texto por vossa conta e risco. Se são sensíveis a incoerências, ao chico-espertismo e carícias ao próprio ego fujam já, que o que se segue não é bonito.


A genialidade humilde do melhor de sempre


Lobo Antunes acha-se uma pessoa desinteressante. Ele não importa nada, o que importa são os livros. Mas os livros, é impossível falar deles. Ora, o que fazer então quando o autor não interessa e não se pode falar dos livros? Alguns de vocês, maldosamente, pensarão em “estar calado”, mas há que desafiar essas imagens feitas e falar desalmadamente, ter quase um guião montado que se repete de entrevista em entrevista. Dizer que se detesta entrevistas em entrevistas dadas no espaço entre entrevistas. Falar, falar, falar.

E porque os livros valem por si, e não precisam de mais nada, façam-se vídeos promocionais. Em que o autor se senta naturalmente junto a um piano, um candeeiro e um poster, que por acaso ali se encontram, e fala acompanhado por uma toada melancólica, risos em câmara lenta, citações e palavras que surgem para logo se desvanecerem. E viva a literatura pura!



Numa entrevista publicada na Única em 2010, Lobo Antunes falava do início da sua vida como escritor. “Ao contrário da minha família, que pensava que eu ia acabar na miséria, a vender pensos rápidos, eu tinha a certeza que não. Estava seguro do meu génio. Era uma coisa que não oferecia qualquer discussão.” Confiante o jovem Antunes, que há umas semanas afirmava no Público que “todo o escritor se acha o melhor senão não vale a pena escrever. Para não ser o melhor não vale a pena”, questão que felizmente para ele não é um problema, que sem pejo nenhum disse, numa entrevista à Fátima Campos Ferreira emitida pela RTP, “eu acho que sou o melhor”.

Mas se pensam que esta atitude revela falta de modéstia estão completamente enganados. Vejam bem, também na entrevista da Única, Lobo Antunes dizia: “Vou ficar. Estive a ler o texto de um crítico do "El País" que diz que daqui a cinco mil anos vou ser lido com paixão. Acho que ele tem razão.” No fundo é apenas uma vontade muito grande de não contrariar um crítico do El País, é um gesto de generosidade. Mas espera lá… o Lobo Antunes de 2014, no Diário de Notícias, quando confrontado com a excelente recepção que tem por parte da crítica portuguesa, e não apenas da internacional, não disse “não estou a falar em crítica de jornal, impressionista, mas da séria”? Estou algo confuso! Então a crítica em jornais é má, mas se for no El País a louvar o escritor já é boa? Mas se for em Portugal, com o mesmo louvor, já é má? E se não for a louvar, no estrangeiro? Muitas questões, cujas respostas estarão certamente nas múltiplas vozes que ecoam na cabeça de Lobo Antunes.

Se há coisa que Lobo Antunes faz questão de dizer é que tem muito orgulho de ser português. E do que é que ele não tem orgulho? Da literatura  portuguesa. “Porque é que a literatura portuguesa é tão má?”, dizia este grande nacionalista na entrevista ao Público. E na entrevista ao Diário de Notícias que motivou este meu artigo há a menção a Eça e Camilo como “pigmeus”, isso mesmo, autores sem capacidade de competir com os seus contemporâneos estrangeiros. Eu acho que o Lobo Antunes devia tomar um banho de álcool e fazer um jejum mínimo de uma semana antes de sequer mencionar os nomes de Eça e Camilo, mas quem sou eu!

Mas há algo que o Lobo Antunes gosta mais de fazer do que criticar os outros. Diz-se que a vida é feita de equilíbrio, e de facto uma pessoa tão rigorosa e exigente com os outros terá depois dificuldades em aplicar os mesmos padrões a si próprio (vá, vamos fingir que acreditamos nisto). O auto-elogio é uma das artes Lobo Antonianas, geralmente atribuído a outra pessoa e proferido com aquele ar de enfado que é um dos charmes de tão prestigiada figura. “O Christian Bourgois editor francês da obra de Lobo Antunes, com quem não falava de livros, escreveu-me uma carta, antes de morrer, em que diz: "Tu és meu irmão e não há escritor no mundo que admire tanto." Nunca me tinha dito isto. Era um homem que parecia seco, mas por baixo dessa frieza aparente havia um calor humano extraordinário”, revelava humildemente à Única, com o bónus da falar de si na 3ª pessoa, o que se compreende perfeitamente porque o homem é uma instituição. Em várias entrevistas esse mesmo tipo de admiração é atribuída a Cardoso Pires, Eugénio de Andrade e Jorge Amado. Curiosamente são sempre pessoas que morreram… Minto, o Steiner também está neste grupo que, segundo o modesto escritor confessou ruborizado à Estante, “disse numa entrevista que tinha vergonha de me conhecer porque era pequeno de mais ao pé de mim.“ O Steiner é uma pessoa de uma enorme elegância e é possível que tinha dito tal coisa, movido sobretudo pela educação. O que não é nada elegante é o destinatário de tais comentários fazer deles gáudio em entrevistas. Mas como vamos ver a elegância não é um dos fortes de Lobo Antunes.


Não te perguntes o que podes fazer pela tua editora, critica-a em público


Ai o grupo Leya… Coitados. Não deve ser pêra doce ter de gerir alguém como o Lobo Antunes. O mais espantoso nesta frustrante história é que já em 2008, na entrevista ao Carlos Vaz Marques, Lobo Antunes se queixava que não estava contente com a editora, dizendo que “não havia, não se sentia, não se via uma linha orientadora, um projecto editorial coerente”. Mas, quando a Dom Quixote foi integrada na Leya prometeram-lhe que seria uma editora de literatura sem concessões (introduzir riso). Pois bem, passados 6 anos e livros da Ana Zanatti e da Rita Ferro, livros infantis da Madonna e um sortido de policiais de ar duvidoso, terá a Dom Quixote conseguido esconder as suas opções de Lobo Antunes?

Na famigerada entrevista ao Diário de Notícia diz-se em alto e bom som: “o Grupo Leya tem muitas deficiências e não tem editores no sentido em que eu o entendo. São pessoas que publicam livros.” Isto depois de desacreditar o Prémio Leya, dizendo que os livros que ganharam não têm grande qualidade. Quantos terá ele lido? Ah, e diz também que o prémio tem muito dinheiro. Esses escritores pá, uns lambões a abotoarem-se com aquela dinheirama. Pouca vergonha! E as editoras a darem dinheiro a escritores?! Este mundo está perdido. Se ao menos eles fossem como o Lobo Antunes que diz que os prémios lhe dão jeito, sobretudo quando vêm com dinheiro… O quê?! Ai, querem ver que há aqui outra incoerência!

Não digo que algumas das crítica do Lobo Antunes à Leya e à Dom Quixote não sejam merecidas. Mas a relação autor/editora deve ser de confiança e de interajuda, caso contrário, de que vale todo o trabalho? O autor tem todo o direito a fazer críticas, mas à porta fechada. Mais uma vez, uma questão de elegância. Em última análise, se não é ouvido, tem bom remédio: mudar de editora! O que nos leva à pergunta que não quer calar: o que prende Lobo Antunes à Dom Quixote? Falta de opção não será. Ele dizia ao Carlos Vaz Marques que não era questão de dinheiro, que ele se borrifava para isso. Então, porque não tornar-se um eremita literário numa pequena editora? É curioso que os autores que clamam independência e criticam a lógica comercial acabem sempre em grandes grupos, uns a fazerem vídeos, outros a gravarem cds… A superioridade moral é de facto algo fácil quando se limita à verborreia. Há uma expressão americana que encaixa aqui que nem uma luva: put your money where your mouth is!


Lobo Antunes versus Saramago: nem a morte os separa


A rivalidade entre os dois escritores é famosa, ou melhor, de Lobo Antunes com Saramago, porque para ser sincero nas vezes que vi Saramago a falar de Lobo Antunes foi para relativizar ou defender-se. Aliás, ler a entrevista a Saramago seguida à de Lobo Antunes em “Os Escritores (Também) Têm Coisas a Dizer”, de Carlos Vaz Marques, permite identificar facilmente diferenças de atitude. Podia ter feito desta rivalidade o centro do meu artigo, mas as duas referências que encontrei a Saramago em entrevistas do Lobo Antunes são suficientemente elucidativas e sinceramente, sendo eu um fã confesso de Saramago, quis poupar-me a mais irritações. Vou por isso ser sintético e directo, sem adjectivar muito o que foi dito, porque não há necessidade de fazê-lo.

Na entrevista já aqui mencionada a Carlos Vaz Marques, em 2008, a respeito da inclusão da Dom Quixote no grupo Leya, o entrevistador provocou-o referindo que assim Lobo Antunes e Saramago estão no mesmo grupo. A irritação é logo evidente e, entre afirmações de que nunca leu nada de Saramago (ler um pouquinho dos “Cadernos de Lanzarote” e folheou um ou outro romance – daqui a minha saudação às pessoas que formam opiniões sobre um livro folheando-o), saiu-lhe a seguinte frase: “Ó Carlos, se me quiser arranjar competições arranje-me pessoas do meu tamanho.” (Vamos fazer um pequeno intervalo para recuperar a calma. Acho que todos precisamos… É nestes momentos que uma pessoa gostaria de fumar.)

E perguntam vocês: o que é que pode ser pior do que autonomear-se melhor do que um escritor que venceu o Nobel? Fazer pouco desse autor depois de ele ter morrido. Lembram-se da história da elegância de que falava no início, acho que se havia um resquício dessa palavra que pudesse ser associado a Lobo Antunes, na próxima passagem tudo terminará. O ponto alto da entrevista publicada em Novembro no Diário de Notícia, a respeito do Nobel:

Lobo Antunes: (…) Se um português ganhasse aquele prémio, como é tão importante seria uma alegria para as pessoas da nossa terra.

Entrevistador: Isso foi o que disse José Saramago!

Lobo Antunes: Ele disse isso? Então em alguma coisa acertou. Ele disse que era uma alegria para os portugueses?

Entrevistador: Sim, que cresceram 3 centímetros.

Lobo Antunes: Ele disse isso… Então quantos metros não cresceu ele na própria cabeça. É um homem especial e tem de ser visto da maneira como ele era, mesmo que agora tudo se vá desvanecendo devagarinho.

Quem cresceu uns metros na sua própria cabeça foi certamente Lobo Antunes quando recebeu o Prémio Jerusalém. “O Prémio quê?!”, perguntam vocês. “O Prémio Jerusalém!”, respondo eu com um ar ainda mais incrédulo. Como é que é possível que não conheçam o Prémio Jerusalém, que é o mais prestigiante do mundo literário segundo… Lobo Antunes, o único português que o recebeu, em entrevista à Fátima Campos Ferreira. Diz a sabedoria popular que uma mentira mil vezes repetida se transforma em verdade. Vamos tentar. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. (estão a sentir alguma coisa?) O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. (do meu lado nada!) O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. O Prémio Jerusalém é o prémio literário mais prestigiante do mundo. (acho que isto não vai resultar…)


Em jeito de conclusão


De quem é a culpa disto tudo? Das pessoas. Porque são elas que legitimam este actos ao acharem que alguém genial pode ser arrogante e dizer o que lhe vêm à cabeça e que nós, pobres mortais, nos devemos prostrar e sentir-nos abençoados por podermos assistir. Para mim com um grande talento, vem uma grande responsabilidade, o que ainda torna menos desculpáveis actos pouco dignos.

Não ponho em causa o valor literário da obra de Lobo Antunes. Não gostei do que li, mas acredito que haja outros livros bons. Mas também acredito que não se encaixam naquilo que é para mim um livro bom, porque os malabarismos literários, quando não são bem sustentados em boas histórias, não fazem muito o meu género. E fazendo uma análise custo benefício, acho sensato que o meu caminho e o de Lobo Antunes não se voltem a cruzar. De qualquer forma, ele próprio dizia que ninguém escreve bons livros depois dos 70 e tal anos…

domingo, 26 de outubro de 2014

A dependência dos livros - presentes de aniversário


Ao contrário do que o título vos pode levar a pensar, não acabei de fazer anos. Na verdade já passaram mais de quatro meses desde o meu aniversário. Mas então, porquê só agora um post sobre os presentes recebidos? Bom, não há nenhuma razão profundamente lógica. São os males da procrastinação.

Curiosamente, este foi o ano em que recebi mais livros de autores portugueses. Não poderiam faltar a Dulce Maria Cardoso e o Saramago neste lote, é claro, pública que é a minha adoração por ambos. Urbano Tavares Rodrigues e Rentes de Carvalho são dois autores que queria muito conhecer e foi-me feita a vontade.

Mas nem só de literatura nacional se alimenta uma alma, sendo também necessários autores internacionais. E se forem premiado, melhor, como é o caso de “Vida Roubada” de Adam Johnson, que recebeu o Pulitzer no ano passado, e de “As I Lay Dying” do Pémio Nobel William Faulkner (uma belíssima edição da Folio!). E também na categoria internacional, uma autora que há muito andava à procura de um lugar na minha prateleira – Flannery O’Connor.

Para terminar, num tom menos literário e mais musical, que me dizem a uma “Mozipedia”, ou seja, um enciclopédia sobre Morrissey e os The Smiths? A mim parece-me perfeito.

Deixo-vos com a lista completa:

“As I Lay Dying” de William Faulkner, The Folio Society
“Lôa Perdida no Paraíso” de Dulce Maria Cardoso, Tinta-da-China
“Manual de Pintura e Caligrafia” de José Saramago, Porto Editora
“Mozipedia” de Simon Goddard, Plume Books
“Nenhuma Vida” de Urbano Tavares Rodrigues, Dom Quixote
“O Chão dos Pardais” de Dulce Maria Cardoso, Tinta-da-China
“O Rebate” de J. Rentes de Carvalho, Quetzal
“Um Bom Homem É Difícil de Encontrar” de Flannery O’Connor, Cavalo de Ferro
“Vida Roubada” de Adam Johnson, Saída de Emergência

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Cheiro a livro novo - a rentrée literária de 2014



Setembro é um dos pontos altos do ano para os viciados em livros, esperando avidamente pelas novidades anunciadas pelas editoras para os últimos meses do ano, já de olhos postos no Natal. E este ano temos motivos de regozijo, com a Quetzal, a Tinta-da-China, a Cavalo de Ferro e a Relógio D’Água a dominarem a lista com as novidades mais apetecíveis.

Uma boa notícia é o regresso à publicação do grupo Babel que estava algo dormente nos últimos meses. Veremos o que nos reservam para os próximos tempos mas, para já, para além de algumas novidades, vai ser reeditado “A Síbila”, tanto a versão da Colecção Opera Omnia, como uma versão mais barata, comemorando assim os 60 anos da 1ª edição deste mítico livro.

No início de Outubro, com o anúncio do Prémio Nobel da Literatura, é de esperar que haja novidades (esperemos que sim!). Será que alguma editora terá a sorte de ver um dos seus autores a ser premiado e as vendas a subirem em flecha? Haverá uma corrida à publicação se for um autor por estrear no nosso mercado? Quem viver verá.

Deixo-vos então com uma lista daqueles que me parecem ser os lançamentos mais significativos dos próximos meses.


Porto Editora

"Alabardas, Alabardas" de José Saramago (Prémio Nobel da Literatura em 1998)
"Uma Menina Está Perdida no seu Século à Procura do Pai" de Gonçalo M. Tavares
"O Paraíso São os Outros" de Valter Hugo Mãe

Assírio & Alvim

"Poesia Presente" de António Ramos Rosa

Sextante

"Terra Amarga" de Joyce Carol Oates
"Mudwoman" de Joyce Carol Oates

Quetzal

“Montedor”  de J. Rentes de Carvalho
“Herzog” de Saul Bellow (Prémio Nobel da Literatura em 1976)
“O Rei Pálido” de David Foster Wallace

Bertrand

“Os Luminares” de Eleanor Catton (vencedor do The Man Booker Prize 2013)

Tinta-da-China

«Obra completa de Álvaro de Campos» de Fernando Pessoa
“Os Meus Sentimentos” de Dulce Maria Cardoso
“Oblomov”, de Ivan Goncharov
2º volume de entrevistas da Paris Review (entre os entrevistados T. S. Eliot, Harold Pinter, Ezra Pound, Marguerite Yourcenar, Vladimir Nabokov e Philip Roth)

Dom Quixote

“O Organista” de Lídia Jorge

Babel

“Os Incuráveis” de Agustina Bessa-Luís

Cavalo de Ferro

“A Selva” de Ferreira de Castro
“Final do Jogo” de Julio Cortázar
“Primeiro os Idiotas” de Bernard Malamud
“Thérèse Desqueyroux” de François Mauriac (Prémio Nobel da Literatura em 1952)

Presença

“O Pintassilgo” de Donna Tartt (vencedor do Pulitzer Prize for Fiction 2014)

Sextante

“Amálgama” de Rubem Fonseca

Relógio D’Água

“O Planeta do Sr. Sammler” de Saul Bellow (Prémio Nobel da Literatura em 1976)
“Diário” de Franz Kafka
“Obras Escolhidas” de Lewis Carroll
“Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento” de Alice Munro (Prémio Nobel da Literatura em 2013)

Caminho

“Vagas e Lumes” de Mia Couto

Antígona

“Contos Seleccionados” de Aldous Huxley
"A Vida e Opiniões de Tristam Shandy" de Laurence Sterne

terça-feira, 29 de julho de 2014

The Man Booker Prize 2014: a longlist

Com os grandes prémios literários do ano mesmo ao virar a esquina, damos o primeiro passo em direcção aos últimos meses de 2014 com o anúncio da longlist do The Man Booker Prize 2014. Pela primeira vez poderam concorrer autores de todas as nacionalidades, desde que o seu livro tenha sido escrito em inglês, o que resultou num grupo multinacional de treze autores (seis britânicos, quatro americanos, dois irlandeses e um australiano), dos quais três são repetentes nestas andanças: Howard Jackobson venceu o prémio em 2010 com “A Questão Finkler”, David Mitchell é já um profissional com dois livros a chegar à shortlist (um deles o famoso “Cloud Atlas”) e outros dois na longlist, e Ali Smith não lhe fica atrás por muito, com dois livros na shortlist.

Mas deixemos que seis dos nomeados nos apresentem os seus livros:

“To Rise Again at a Decent Hour” de Joshua Ferris






“The Narrow Road to the Deep North” de Richard Flanagan





“We Are All Completely Beside Ourselves” de Karen Joy Fowler





“The Blazing World” de Siri Hustvedt





“The Wake” de Paul Kingsnorth





“The Bone Clocks” de David Mitchell





Os restantes nomeados são:

“J” de Howard Jacobson


“The Lives of Others” de Neel Mukherjee


“Us” de David Nicholls


“The Dog” de Joseph O’Neill


“Orfeo” de Richard Powers


“How to Be Both” de Ali Smith


“History of the Rain” de Niall Williams


Como seria de esperar, quase nenhum destes livros foi ainda publicado em Portugal, excepção feita para o livro de Siri Hustvedt, que a Dom Quixote editou recentemente com o título “O Mundo Ardente”.


Esperemos então pelo dia 9 de Setembro para saber que livros vão chegar à shortlist.