quarta-feira, 30 de abril de 2014

A dependência dos livros - edição Abril de 2014


Foi um mês de grandes compras, quase todas elas com excelentes promoções. Algumas destas aquisições deixaram-me particularmente feliz, nomeadamente o “Facas” do Valério Romão, o único livro que me faltava deste autor, e “O Remorso de Baltazar Serapião” do Valter Hugo Mãe (sim, as maiúsculas foram intencionais), o primeiro deste autor a entrar na minha biblioteca.

Com a compra de “Molloy”, tenho neste momento todos os livros da célebre trilogia de Samuel Beckett, que começará a ser lida num futuro próximo. Ah, e claro que não me posso esquecer da “Biografia Involuntária dos Amantes” do João Tordo. Estive no lançamento do livro, na Fundação José Saramago e, roam-se de inveja, tenho-o autografado!

O mês fechou com chave de ouro com a ida a um alfarrabista (de onde saí com “Eugénia Grandet” do Balzac), com saldos na The Folio Society (que em conjunto com um vale me valeram uma deslumbrante edição do “Oliver Twist” do Dickens por tuta-e-meia) e uma vitória num passatempo do blogue O Planeta Livro (obrigado pelo “Os Transparentes” do Ondjaki!).

Deixo-vos com a lista completa das compras do mês:

“A Rainha Inglesa de Portugal: Filipa de Lencastre”, Manuela Santos Silva, Círculo de Leitores
“Biografia Involuntária dos Amantes”, João Tordo, Alfaguara
“Eugénia Grandet” Balzac, Ediclube
“Facas”, Valério Romão, Companhia das Ilhas
“Molloy”, Samuel Beckett, Relógio D'Água
“O Barril Mágico”, Bernard Malamud, Cavalo de Ferro
“O Remorso de Baltazar Serapião”, Valter Hugo Mãe, Alfaguara
“Oliver Twist”, Charles Dickens, Folio
“Os Transparentes”, Ondjaki, Círculo de Leitores
“Rainhas de Portugal e Espanha: Margarida de Áustria, Isabel de Bourbon”, Pilar Pérez Canto, Esperanza Mó Romero, Laura Oliván Santaliestra, Círculo de Leitores

domingo, 27 de abril de 2014

Os escritores mais influentes da actualidade, segundo a Time


Binyavanga Wainaina é um escritor. É queniano. É homossexual. E, segundo a revista Time, é uma das 100 personalidades mais influentes do mundo em 2014. Porquê? Basta investigar um pouco sobre o assunto para perceber. Na sequência de uma vaga de leis anti-gay aprovadas em África, Wainaina decidiu, em Janeiro deste ano, assumir publicamente a sua homossexualidade com a publicação do conto “I Am a Homosexual, Mum”. Mas deixemos Wainaina falar:

“I am twenty nine. It is 11 July, 2000. I, Binyavanga Wainaina, quite honestly swear I have known I am a homosexual since I was five. I have never touched a man sexually. I have slept with three women in my life. One woman, successfully. Only once with her. It was amazing. But the next day, I was not able to.
It will take me five years after my mother’s death to find a man who will give me a massage and some brief, paid-for love. In Earl’s Court, London. And I will be freed, and tell my best friend, who will surprise me by understanding, without understanding. I will tell him what I did, but not tell him I am gay. I cannot say the word gay until I am thirty nine, four years after that brief massage encounter. Today, it is 18 January 2013, and I am forty three.”
Wainaina é uma das vozes mais promissoras da literatura africana, tendo ganho em 2002 o Caine Prize for African Writing que distingue, anualmente, o melhor conto em inglês publicado por um autor africano.
Dos quatro escritores incluídos na listagem da Time, Wainaina é o único não editado em Portugal. Arundhati Roy é a mais prestigiada do grupo, tendo vencido em 1997 o The Man Booker Prize com o livro “O Deus das Pequenas Coisas”, editado entre nós pela ASA. Para além deste livro, estão ainda publicadas em Portugal três outras obras desta autora indiana: “Pelo Bem Comum” e "O Fim da Imaginação" (ASA) e “O Perfil do Monstro” (Bertrand).

Completam o grupo dos escritores John Green, um autor juvenil com três livros publicados em Portugal (“Cidades de Papel” pela Presença; “À Procura de Alaska” e “A Culpa é das Estrelas” pela ASA) e Donna Tartt, a vencedora deste ano do Pulitzer Prize for Fiction, de quem a Dom Quixote publicou "A História Secreta" e "O Pequeno Amigo" (shortlist do Orange Prize for Fiction em 2003).

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O Dia Mundial do Livro em Portugal



23 de Abril é uma data marcante no mundo literário. Shakespeare e Cervantes morreram a 23 de Abril de 1616. Também a 23 de Abril, mas de 1899, Nabokov nascia e, 3 anos depois, nesse mesmo dia, nascia o prémio Nobel Halldór Laxness. Mais perto dos nossos dias, em 1981, Josep Pla, o prestigiado autor catalão, morreria, pasme-se, também a 23 de Abril. Autores do mundo, cuidado com este dia! Fechem-se nos vossos quartos a dormir e voltem apenas ao mundo no dia 24, não vá o diabo tecê-las...

Sendo 23 de Abril um íman de acontecimentos relevantes na área da literatura, a UNESCO, em 1995, decidiu estabelecê-lo como o Dia Mundial do Livro, com o intuito de criar acções de promoção da leitura. E Portugal não é excepção nestas comemorações, com várias iniciativas que prometem um dia agitado para os leitores mais atentos. Já decidiram como vão celebrar o dia? Aqui ficam algumas opções.


Fundação José Saramago

Inauguração da exposição de desenhos de Rogério Ribeiro inspirados em “O Ano de 1993” de José Saramago.



Mariposa Azual

Todos os livros com 50% de desconto, é a promessa desta editora independente de cujo catálogo se destacam as obras “Groto Sato” de Raquel Nobre Guerra (Prémio Primeira Obra na última edição dos prémios PEN Clube Português) e “Obra” de Adília Lopes (que reúne 15 livros da poetisa, com gravuras de Paula Rego).


Wook

A maior (e melhor) livraria online portuguesa presenteia os clientes com 25% de desconto em encomendas (20% de desconto directo + 5% acumulado na Plano Poupança Leitura, para utilizar numa compra futura). São abrangidos pela promoção todos os livros, excepto eBooks, livros escolares e técnicos, encomendados no dia 23 de Abril e pagos até ao dia 25 de Abril, sendo também os portes gratuitos para Portugal Continental (30% de desconto nos portes de envio para os Açores e Madeira).


Bertrand

Mais de 1000 livros espalhados pelo país. Onde exactamente? Mistério…



Leya


Um prato cheio, é o que a Leya tem para oferecer aos seus leitores neste dia. Ora vejam bem: entre as 11h e as 15h a equipa editorial do grupo andará pelas livrarias Bulhosa, Almedina e El Corte Inglês, de Lisboa e Oeiras, a prestar aconselhamento aos leitores; nas livrarias Leya e parceiras, na compra de livros recebe-se de oferta “Geração X” de Douglas Coupland e, entre as 18h e as 19h há a Hora Leya, com descontos até 45%; há ainda cartoonistas a fazerem caricaturas de clientes, montras concebidas por escritores e várias sessões de autógrafos, numa sucessão de acontecimentos capaz de deixar sem fôlego o mais energético dos seres. Podem consultar aqui todas as actividades.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Gabriel García Márquez e a Crónica de uma Vida Recordada


“Nós, os inventores de histórias, que acreditamos em tudo, sentimos o direito de acreditar que não é ainda demasiado tarde para nos empenharmos na criação da utopia oposta. Uma nova e imensa utopia de vida, em que ninguém poderá decidir pelos outros como irão morrer, em que o amor se revelará verdadeiro e a felicidade será possível, e em que as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade na terra.” (Gabriel Gacía Márquez, "The Solitude of Latin America", Nobel Lecture)


Gabriel García Márquez tinha um livro dentro de si. Um livro sobre Aracataca. Sobre o mundo místico, onde tudo era possível, em que o real era continuamente questionado por fenómenos que transcendiam os limites da compreensão. E assim, na infância passada com os seus avós naquele mitológico universo que sempre o perseguiria, Gabo encontra anos depois a inspiração para escrever um romance em que, segundo ele, tudo aconteceria.

Uma sucessão de Aurelianos e de Josés Arcadios, que ao longo das gerações vão conhecendo diferentes existências. Dois nomes que se impõem àqueles que os carregam, que são ocupados por diferentes corpos que representam uma mesma essência. Sempre em Macondo, uma nova Aracataca, uma representação do que Aracataca foi para García Márquez.

Olho para “Cem Anos de Solidão”, para a fotocópia da árvore genealógica dos Buendía que a minha melhor amiga me deu quando iniciei a leitura (para que não me perdesse), e sinto que o li há demasiado tempo, numa altura em que talvez não estivesse preparado para descodificar tudo o que o livro tinha para me dar. Restam-me recordações distantes de um mundo encantado, em que a morte e vida se confundiam e personagens se recusavam a partir. Também García Márquez não partirá.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Saramago a metade do preço


Desde o anúncio de que a obra de Saramago deixaria de ser publicada pela Leya que uma questão se impunha: quando começariam as grandes promoções com os livros do autor? E passados quatro meses cá estão elas. Na Leyonline está disponível, até 21 de Abril, uma selecção de obras (ampla, mas à qual faltam os títulos principais) com 50% de desconto. A mesma promoção está também disponível na Almedina, mas neste caso a selecção é um pouco mais restrita (os títulos principais continuam de fora) mas a duração é maior – a promoção estará disponível até 27 de Maio.

Um dos livros que se encontra nos dois sites é “O Homem Duplicado” mas, se estão a pensar comprá-lo, tenham em atenção que a FNAC também tem uma promoção Saramago, em que oferece este livro na compra de um dos livros do autor integrados na promoção, até 23 de Abril (só neste promoção é que está disponível o “Memorial do Convento” ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis”). Recomendo-vos o seguinte: em vez de pagarem 8.45€ por ele na Almedina ou na loja online da Leya, comprem na FNAC o “O Conto da Ilha Desconhecida” por 5.9€ e recebam o “O Homem Duplicado" de borla. Ficam com dois livros e poupam mais de 2€. Se gostarem de literatura infantil, melhor, na pior das hipóteses ficam com uma prenda em stock para uma criança.

Deixo-vos com alguns dos livros mais emblemáticos de Saramago que podem encontrar na Leyaonline e na Almedina a metade do preço:

“História do Cerco de Lisboa” – 8.45€
“As Intermitências da Morte” – 8.45€
“Ensaio Sobre a Lucidez” – 8.45€
“Todos os Nomes” – 7.45€

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A ESTANTE é lançada hoje pela FNAC


“No dia 10 de Abril a FNAC vai oferecer estantes”, referia a primeira de um conjunto de mensagens enigmáticas que a FNAC colocou na sua página de Facebook. A grande maioria das pessoas terá pensado que se tratava de mais um passatempo, expectavelmente com alguma ligação ao mundo dos livros. E de facto, é de livros que a FNAC nos quer falar, mas a respeito de algo bem mais excitante que um passatempo.

Hoje, pelas 18h30, juntam-se na FNAC do Chiado Valter Hugo Mãe, Teolinda Gersão e Rui Zink para apresentarem a ESTANTE, uma revista trimestral com a chancela da FNAC, que promete boas leituras para os amantes de literatura, tendo o primeiro número como tema central os 800 anos da língua portuguesa. De referir que a primeira ESTANTE, que será gratuita (os restantes números custarão 1.5€, segundo o que consegui apurar), terá um editorial da autoria de Valter Hugo Mãe, que se for tão bom como o texto que escreveu para a Granta estaremos certamente muito bem servidos.

Segundo Jorge Guerra e Paz, responsável de Comunicação Institucional e Cultural da FNAC, “esta é uma revista para viver fora da estante. Sem limites de suporte. É uma revista para quem não se cansa de folhear páginas, de sentir o papel nas mãos e de o ler. A ESTANTE são páginas para amantes de livros, sobre livros, autores, ideias, mas também sobre o mundo em que vivemos e como interagimos.”

A Estante, que será a revista de cultura com maior tiragem em Portugal, contará com quatro secções: vírgula (introdução e breves), parênteses (grandes entrevistas e artigos de fundo), reticências (novidades literárias) e ponto de interrogação (infantil).

Parece-me sinceramente que esta é uma acção muito bem pensada pela FNAC, que lhe granjeará certamente uma maior credibilidade institucional e lhe permitirá cada vez mais apresentar-se como um dinamizador cultural na área da literatura e não apenas como uma loja onde se compram livros. Resta-nos agora esperar pela revista, que estará pelas lojas a partir de dia 11 de Abril. Para já, fiquemos com o vídeo de apresentação.




segunda-feira, 7 de abril de 2014

Em estado crítico: "Hiroshima Meu Amor" de Marguerite Duras


“O tempo virá em que não saberemos que nome dar ao que nos unirá. O nome apagar-se-á a pouco e pouco da nossa memória.”


Hiroshima. Nevers. O que une estes dois locais? A destruição? Que destruição poderá Nevers conter que se iguale a uma cidade dizimada por uma bomba atómica? Que horrores terão sido vividos nas suas ruas? De quantas mortes desnecessárias terá sido palco? Nevers. Uma aparentemente doce e bucólica terra francesa, a terra que viu morrer o amor.

Uma mulher, uma actriz, está em Hiroshima no pós-guerra a rodar um filme sobre a paz. Que outro tipo de filme se poderia fazer em Hiroshima, questiona. O passado é, em Hiroshima, um fantasma que a persegue. Na vida que regressou ao normal, na cidade plenamente reconstruída, onde a catástrofe não é mais do que uma memória longínqua que se afugenta, há uma ameaça eminente de que o que Hiroshima viveu seja esquecido. Hiroshima tem de ser lembrada sempre, como o têm de ser todas as grandes tragédias. Mas a vida teima em cobrir os acontecimentos desagradáveis com um véu apaziguador. Até que não restem mais do que sombras. Até que comecemos a duvidar que o que aconteceu aconteceu mesmo.

Um amor em Hiroshima. Um homem casado, como ela, que nos seus braços sonha com um grande amor. Um homem que é mais do que aquele homem japonês, que é um arquétipo do amante proibido, uma recordação viva do amor vivido em Nevers. Em Hiroshima, a mulher percebe que ela própria tem vindo a esquecer, que a dor dilacerante que parecia capaz de a matar acabou por sossegar e, com o avançar dos dias, a vida continuou, apesar da imagem de destruição absoluta. Experimentou o maior dos horrores e agora vive, com uma aparência de normalidade.

O que une Hiroshima e Nevers? A destruição. A destruição de que pensamos não conseguir emergir. Mas também o esquecimento, a traição de uma vida que o continua a ser, a insustentável leveza do ser de que Kundera falaria.

“Hiroshima Meu Amor”, o guião que valeu a Marguerite Duras a nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Original, foi também a primeira longa-metragem de Alain Resnais, protagonizada por Emmanuelle Riva. O filme tem o mérito de, mantendo-se fiel à visão de Duras, a ter dotado de imagens icónicas cuja beleza nada fica a dever às palavras escritas. 

Já que o livro, em tempos editado pela Quetzal, é muito difícil de encontrar hoje em dia, recomendo-vos vivamente o filme, cuja versão restaurada foi recentemente lançada em DVD pela Leopardo Filmes.


Classificação: 17/20